"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O PODER DA ORAÇÃO DE FÉ

Na Conferência de Nova Iorque (Final do século IX), a Missão para o Interior da China (China Inland Mission, hoje Overseas Missionary Fellowship), foi frequentemente mencionada. Sob a liderança de um homem de fé, Deus havia, no curso de trinta anos, levado 600 missionários ao campo, sem qualquer garantia de fundos para os seus sustentos além do que Deus pudesse dar em resposta à oração de fé. Já vimos quão fortemente o historiador da CMS fala da bênção que essa sociedade deve à China Inland Mission por estimula-la a conceder à regra de fé um amplo espaço em seu trabalho. Caso a Igreja como um todo deva lucrar com o seu exemplo, seria bom se todos os cristãos que participam do sustento missionário soubessem qual o segredo do seu poder. Não é necessário copiar os seus métodos e organização. Mas há uma necessidade urgente da Igreja, em toda a parte, aprender como o poder de Deus pode ser introduzido em seu trabalho missionário.

Hudson Taylor falou na Conferência de Nova Iorque sobre a fonte de poder para as missões cristãs e deu um exemplo do que é o poder da oração de fé. Cito, abaixo, uma boa parte do seu discurso:

O próprio Deus é a grande fonte de poder. Além disso, o poder de Deus é um poder acessível. Somos um povo sobrenatural, nascido de novo mediante um nascimento sobrenatural, mantido por um poder sobrenatural, sustentado com alimento sobrenatural, ensinado por um Professor sobrenatural através de um Livro sobrenatural.
Somos conduzidos por um Capitão sobrenatural em veredas retas que levam a vitórias seguras. O Salvador ressurreto, antes de subir aos céus, disse a Seus discípulos: “Receberei poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo” (Atos 1.8).
Poucos dias mais tarde, em resposta à oração conjunta e incessante, o Espírito Santo desceu sobre eles e encheu a todos. Louvado seja Deus, Ele continua conosco. O poder dado não é um dom do Espírito Santo, Ele mesmo é o poder. Hoje, Ele permanece tão disponível e tão poderoso quanto no dia de Pentecostes. Mas será que a Igreja, desde os dias antes do Pentecostes, já colocou de lado qualquer outro trabalho e ficou à espera dEle por dez dias para que esse poder pudesse manifestar-se? Não houve uma falha neste ponto?
Temos dado muita atenção a métodos, maquinaria e recursos, e pouca à fonte de poder – o encher do Espírito Santo. Penso que concordarão comigo que esta é a grande fraqueza de hoje e tem sido o ponto fraco de nosso serviço no passado. A não ser que remediada, esta será a grande fraqueza no futuro. Temos ordem de encher-nos com o Espírito. Se não estivermos cheios, estamos vivendo, então, em desobediência e pecado, e a causa do nosso pecado é a mesma da antiga Israel – o pecado da incredulidade.
Aguardar em Deus não é perda de tempo. Quero referir-me a uma pequena reunião de cerca de doze homens na qual me deram permissão para tomar parte, em novembro de 1886. Nós, da China Inland Mission, estávamos sentindo grande necessidade da orientação divina em questões de organização e reforço no campo. Reunimo-nos antes da conferência para passar oito dias aguardando juntos em Deus, quatro dias alternados seriam dias de jejum e oração. Fomos levados a orar por cem missionários a serem enviados pela nossa Junta Inglesa, durante 1887. Em relação ao nosso Movimento de Avanço, necessitávamos pedir US$50 mil a Deus, além do total do ano anterior. Fomos guiados a orar para que isto viesse em grandes quantias, a fim de que nossa equipe não ficasse muito ocupada com os agradecimentos pelas contribuições.
Qual foi o resultado? Deus nos enviou ofertas de serviço por parte de mais de 600 homens e mulheres durante o ano seguinte, e aqueles considerados prontos e adequados foram aceitos e enviados para a China. No final do ano, exatamente cem voluntários haviam partido!
Além disso, Deus não nos deu exatamente os US$50 mil que havíamos pedido, mas deu US$55 mil, que vieram em onze contribuições: a menor de US$2.500 e a maior de US$12.500. Fizemos uma reunião de ação de graças pelos homens e pelo dinheiro.
O poder do Deus vivo é um poder acessível. Podemos chamar por Ele no nome de Cristo, com a segurança de que se formos ensinados pelo Espírito em nossas orações, essas orações serão respondidas.

Onde e como o segredo dessa oração de fé foi aprendido? Teria sido um dom concedido pelo favor divino a um individuo escolhido, que outros não podem esperar receber? Ou seria o resultado de treinamento e prática, a recompensa pela fidelidade em pequenas coisas, para ensinar-nos que nós também podemos andar pelo mesmo caminho? Foi de fato um dom, da mesma forma que toda graça é um dom de Deus concedido em medidas diferentes, segundo Ele se agrada. Mas foi ao mesmo tempo o resultado de uma vida de provações e obediência, através da qual o dom que fora apenas uma semente pequenina, oculta e inconsciente se desenvolvera. Ele cresceu forte, a fim de que todos os filhos de Deus fossem encorajados a andar nos seus passos, com a segurança de que para cada um, na sua medida, o caminho da oração que prevalece continua aberto. Ouça a história de como Hudson Taylor aprendeu essa oração:

Alguns meses depois da minha conversão, numa tarde desocupada, retirei-me para o meu quarto, a fim de passar o tempo em comunhão com Deus. Lembro-me bem dessa ocasião. Na minha alegria intima, derramei minha alma diante d Deus. Confessei repetidamente meu amor cheio de gratidão a Ele que tudo fizera por mim. Deus me salvara quando eu havia perdido toda a esperança e até o desejo de salvação. Eu lhe pedi que me desse algum trabalho para fazer para Ele, como uma válvula de escape para o meu amor e gratidão algum serviço de autonegação, qualquer fosse ele, por mais difícil ou mais trivial que pudesse ser. Pedi algo que O agradasse e que fosse possível fazer diretamente para Ele que fizera tanto por mim.
Lembro-me bem como me consagrei sem reservas, minha vida, meus amigos, meu tudo sobre o altar, e a profunda solenidade que invadiu minha alma com a segurança de que a minha oferta fora aceita. A presença de Deus tornou-se inefavelmente real e abençoada. Embora eu fosse um rapazinho de apenas quinze anos, lembro-me de ter-me estendido no chão e ficado ali silencioso diante dEle com reverência e alegria inexprimíveis. Não sabia para qual serviço tinha sido aceito; mas uma profunda consciência de que não pertencia mais a mim mesmo se apossou de mim, a qual nunca mais me deixou. Depois de alguns meses daquele episódio da consagração, senti intimamente que o Senhor me queria na China.

A consagração é sempre o resultado de uma conversão poderosa e o segredo de uma vida em que o poder deve ser adquirido pela oração e pela fé. Alguns se inclinam a considerar isso como um alvo e um fim em si mesmo; mas o seu verdadeiro valor consiste em ser um início: colocar-se nas mãos de Deus, a fim de preparar-se para o Seu serviço. É apenas a entrada numa classe superior na escola onde o próprio Deus ensina como deseja que o sirvamos.
Hudson Taylor tinha ainda muito a aprender antes de tornar-se um homem de fé que pudesse dar testemunho do que Deus pode fazer. Ao pensar em ir para a China, ele sentia que queria fazer isso pela fé, confiando em Deus para suprir as suas necessidades. Se ia confiar nEle na China, por que não aprender a confiar nEle na Inglaterra: O fracasso na China poderia ser fatal; ele ia pedir a Deus que o ensinasse ainda em seu país a andar pela fé. Ele compreendeu a ordem; “Não deva a ninguém coisa alguma” como sendo literal; por maior que fosse a sua necessidade, não falaria sobre ela a ninguém senão a Deus.
Uma história extraída da sua experiência nessa época mostra a escola em que a sua fé foi treinada:

Meu bondoso empregador, muito ocupado, queria que eu não o deixasse esquecer de pagar o meu salário. Decidi pedir a Deus para lembrá-lo disso e a me encorajar respondendo à minha oração.
No final de certo trimestre, quando devia receber o salário, vi numa noite de sábado que só tinha uma moeda de meia coroa. Mas até então nada me faltara e continuei orando. Aquele domingo foi muito feliz. Depois do culto divino pela manhã, o resto do dia foi passado em trabalho evangelisticos nos alojamentos na parte mais baixa da cidade. Parecia que o céu havia começado lá em baixo. Depois do meu ultimo culto, às 22 horas, um homem pobre me pediu para orar por sua mulher que estava morrendo e o sacerdote se recusara a ir se não recebesse um shilling e seis pence em pagamento. O homem não tinha esse dinheiro, pois a família estava passando fome. Passou naquele momento em minha cabeça que todo o dinheiro que eu possuía era a solitária meia coroa e em uma única moeda. Além disso, embora tivesse mingau de aveia suficiente para a ceia e o café da manhã, não tinha nada para o jantar do dia seguinte.
Imediatamente o fluxo de alegria estancou em meu coração. Em vez de reprovar a mim mesmo, comecei a censurar o pobre homem. Descobri que havia falado com o encarregado do serviço social e este lhe disse para procurá-lo na manhã seguinte, mas ele temia que a mulher não passasse daquela noite! “Ah!”, pensei eu, “se eu pelo menos tivesse dois shillings e seis pence em vez desta meia coroa, como ficaria alegre em dar um shilling a esses coitados!” A verdade é que eu podia confiar em Deus enquanto tinha um shilling e seis pence, mas não conseguia confiar nEle somente, sem dinheiro algum.
O homem me levou a um pátio onde em minha ultima visita fora maltratado. Eu subi com ele uma escada sórdida e chegamos a um quarto miserável e, oh! Que quadro se apresentou aos nossos olhos! Quatro ou cinco crianças de rosto faminto rodeavam um catre humilde, onde se achava a pobre mãe, com um bebezinho nascido há 36 horas gemendo a seu lado. “Ah!” pensei eu, “se tivesse dois shillings e seis pence em vez de meia coroa, como daria um shilling e seis pence alegremente a eles.” A incredulidade ainda me impedia de aliviar a aflição daquela gente, dando tudo quanto eu possuía.
É estranho dizer, mas não pude consolar aquelas pessoas. Eu lhes disse que não ficassem abatidos, pois tinham um Pai bondoso e amoroso no céu. Mas alguma coisa me dizia: “Seu hipócrita! Falando de um Pai bondoso e amoroso quando não está preparado para confiar nEle sem a sua meia coroa!”. Quase sufoquei. Se apenas tivesse um florim e seis pence – mas não estava ainda preparado para confiar em Deus sem os seis pence.
Naqueles dias a oração costumava ser um prazer para mim. Tentei então orar, mas quando abri a boca para dizer “Pai nosso que estás no céus”, a oração parecia um escárnio e passei por um período de conflito como jamais experimentei antes ou depois. Levantei-me de sobre os joelhos em grande aflição.
O pobre pai voltou-se para mim e disse: “Senhor, se pode ajudar-nos, pelo amor de Deus, ajude!” E estas palavras lampejaram em minha mente: “Da a quem te pede” e “na palavra do rei há poder”. Tirei vagarosamente a meia coroa do bolso e dei ao homem, dizendo que estava lhe dando tudo quanto possuía, mas que Deus era realmente Pai e digno de confiança. Toda a alegria voltou ao meu coração e o impedimento para a bênção se foi – espero que para sempre.
Não só a vida da mulher foi salva, mas eu também. Minha vida cristã poderia ter sido destruída se o esforço do Espirito de Deus não fosse obedecido. Quando fui para casa, meu coração tão leve quanto o meu bolso, as ruas desertas ressoaram com um hino de louvor. Ao ajoelhar-me junto à cama, lembrei ao Senhor que “quem dá ao pobre empresta a Deus”; e com paz interior e exterior, passei uma noite tranqüila.
Na manhã seguinte, à hora do café, fiquei surpreso ao ver a proprietária entrar com uma carta na mão. Não consegui reconhecer a letra nem o carimbo postal, e não sabia de onde tinha vindo. Ao abrir o envelope, encontrei dentro uma folha de papel em branco, um par de luvas de pelica e, ao pega-las, caiu no chão uma moeda de meio soberano. “Louvado seja o Senhor!” exclamei. “Quatrocentos por cento por doze horas de investimento! Como os negociantes gostariam de emprestar seu dinheiro a juros como esses!”
Decidi na mesma hora colocar meus bens num banco que não pudesse falir – uma decisão da qual até hoje não me arrependi.

“A Chave do Problema Missionário” Capítulo 5 – O Poder da Oração de Fé. De autoria de Andrew Murray. Editora Missão Horizontes



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