"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MISSÕES E O MINISTÉRIO DA INIQUIDADE


Salários baixos que nunca aumentam

Bráulia Inês B. Ribeiro

Tem coisas que só se pode entender à luz daquele “mistério da iniqüidade” que Paulo cita em II Ts 2:7. Engraçado né, entender uma coisa por causa de um “mistério”, mas é assim mesmo(1).
Por que será que missionários ganham tão pouco? Mas me desculpe, antes da pergunta vamos à afirmação. É sim, missionários em geral ganham muito menos do que os pastores das igrejas locais. O missionário é uma espécie de contínuo do clero protestante, ganha o menor salário mas trabalha para todos. Pode ser que você tenha ouvido falar de algum missionário meio “nababo”, mas posso te afirmar que não é a regra, é com certeza uma excessão… Nasceu com o traseiro para a lua, ou é muito bom de papo e infelizmente pode ser que nem seja tão bom de trabalho… A regra é que os salários de missionários pagos pelas igrejas na maioria das vezes não correspondem nem a 30% do salários pagos pelas mesmas igrejas a seus pastores locais. E não só isto, mas os salários missionários são geralmente salários congelados, ou seja nunca aumentam. Não são indexados a nada, nem à inflação, nem ao salário mínimo, nem ao dólar, nem à receita da igreja.

Não sei como raciocinam os defensores destes salários congelados. Tudo sobe, a conta de luz da igreja, o salário do pastor, os gastos em geral, e os dízimos que a igreja recebe também é claro. Mas certamente eles esperam que o missionário consiga de uma forma milagrosa se “proteger” dos aumentos… Se ele viajava de avião, que viaje de ônibus agora, se viajava de ônibus, que pegue carona em boléia de caminhão! Se tinha luz em casa, que acenda velas, isto é, se elas não aumentarem muito de preço. Se comia carne, que coma ovo frito, ora pois! Mas ai dele se parar de trabalhar na obra para se “virar” com algum bico, certamente perderá o sustento.

Muitos pensam: – mas os missionários em geral recebem de muitas fontes diferentes e os pastores só de uma. É verdade. Alguns investidores com coração missionário sincero defendem a “pulverização” de seu investimento em missões. Ou seja, sustentam muitos com pouquinho. Cem missionários com cem reais cada um ao invés de dez com mil.

Há vantagens e desvantagens nesta maneira de pensar. A vantagem é que o investidor se sente feliz e parte de muita coisa, de muitos missionários. “-Estou investindo na China, Angola, Uganda, Kênia, Ruanda, Málaga, México, Peru, Afeganistão, Uzbequistão, Kazaquistão, Índia, França, Itália, nas tribos indígenas e mais em um monte de outros países!!” Mas junto com esta aparente vantagem mora também um problema. Porque investe em muitos lugares ele acaba não amando seriamente a nenhum. Ele não tem envolvimento profundo com nenhum projeto, e não gasta horas em oração por nenhum povo. Investidores também deveriam ter chamado específico. Abraçar projetos com o coração, entender profundamente os desafios de cada um, ajudar nas estratégias, pensar com o missionário, ajudá-lo a investir certo, etc. A pulverização enfraquece o relacionamento investidor-missionário e é de relacionamentos que o reino de Deus subsiste.

Outra implicação desastrosa disto é que o missionário por sua vez tem que sair buscando de muitas e muitas fontes para poder completar um orçamento razoável que lhe permita não só viver mas também realizar o projeto para o qual foi chamado. Isto significa muita humilhação, muita bateção de porta em porta e muita porta na cara também. A cada novo projeto que pretende realizar, a cada curso que quer fazer, ou a cada desafio que seu trabalho em missões lhe apresenta ele tem que sair novamente batendo de porta em porta, pedindo, escrevendo cartas, pedindo, pedindo, pedindo.

A suposta vantagem de ter muitas fontes não deriva de nenhum motivo espiritual como pensam alguns, mas de uma triste constatação de fatos. Muitos investidores e igrejas, quando passam por algum problema financeiro, para equilibrar as contas, cortam em primeiro lugar o salário do missionário entre os gastos supérfluos. Muitos sem nem avisar ao pobre coitado lá no campo. De repente aqueles cem ou duzentos reais param de vir. Outras vezes as juntas denominacionais se reúnem e discutem:

Por que é que ajudamos esta fulana lá na Índia? Vamos parar? Vamos priorizar nosso investimento em nossas congregações locais? E no mês seguinte a fulana lá da Índia constata que o dinheiro da igreja não entrou. Ela entra um pouco no crédito do banco e espera que a situação se resolva no mês seguinte. Chega o outro mês e nada. A fulana resolve ligar para a igreja e descobre através de uma secretária que seu nome não está mais na lista dos assalariados, por quê, ninguém sabe, mas parece que o presbitério quer dar mais prioridade às congregações locais que estão negligenciadas. Seria mais fácil dizer pra ela que a Bíblia mudou:

Olha irmã, saiu uma nova versão da bíblia atualizada-corrigida ampliada-de-hoje-nova-vida-com-comentários-pentecostais-teológicos e foram tiradas dela as passagens de missões, o que aliás, a tornou bem mais fininha, mais fácil de ler, mais ao gosto do homem moderno. Como nós resolvemos adotar esta versão, tiramos missões de nosso orçamento.

Aposto que a irmãzinha lá da Índia teria ficado mais feliz com esta resposta. – “Poxa, que apostasia!! Vou orar e jejuar por eles!” Do outro jeito, ela fica ressentida, magoada com a liderança fria e calculista que fez a decisão de priorizar seu reino local sem consciência do que estavam realmente fazendo. Pensando que fizeram uma simples decisão administrativa estes irmãos se auto-enganaram, estavam na verdade rasgando a Bíblia.

A constatação de que as coisas são assim mesmo, torna os missionários precavidos. – “Tenho que levantar em promessas pelo menos o dobro do que eu preciso para que eu chegue a ter pelo menos uns setenta por cento.” Deixa-os também bem inseguros em relação ao futuro, e obrigados a pulverizar seus relacionamentos, suas orações, suas emoções em 155 cartas xerocadas ao invés de 10 ou 15 pessoas de um grupo de apoio realmente comprometido. Tenho um monte de pessoas que se importam um pouquinho comigo e com o que faço. Mas será que eles realmente oram por mim? Contribuem com alguns reais por mês. Eles se importam comigo mas não o suficiente para me manter de verdade nas minhas necessidades, não o suficiente para me socorrer se acontecer algo ruim, não o suficiente para me ajudar em meu tratamento dentário, (missionário tem dentes?) ou na escola de meu filho, para me dar um presente no meu aniversário, pagar umas férias…

Ou pior: – “Será que eles vão manter mesmo seu falso compromisso comigo?” É, falso compromisso, porque se fosse verdadeiro seria mantido, não é? Como o “amor eterno enquanto dure” do Vinícius de Moraes. Enquanto dure é a negação do eterno. Compromisso que é facilmente desfeito não é compromisso.

Este comportamento imaturo da igreja tem muitas consequências:

O missionário acaba tendo que renunciar a muitos projetos que desenvolvia e começa apenas a sobreviver. Viagens que poderiam ser feitas não são mais, as atividades encolhem e ele começa a conviver com a frustração de não estar desempenhando bem a missão que Deus lhe confiou.

E se o salário de sobrevivência vai encolhendo também, a vida se torna tensa para ele, além das lutas espirituais do campo, a falta de dinheiro passa a ser um peso terrível. O tempo que ele poderia passar ministrando a outros ele passa bolando maneiras de sobreviver, ou orando para que Deus em sua misericórdia infinita não deixe sua conta ir pro vermelho, suas crianças adoecerem.

Como o tempo gasto com levantamento de finanças para realizar cada nova iniciativa é enorme ele acaba diminuindo bastante seus sonhos e encolhendo seus projetos. Uma amiga minha tinha que dar aula de lingüística na Angola colaborando com um grupo de Angolanos da etnia Umbundo que queriam implantar igrejas em povos de outras tribos no seu próprio país. Para poder sair do Brasil e passar três meses na Angola ela teve que parar suas atividades missionárias regulares (entre tribos amazônicas) para ficar três meses de igreja em igreja levantando dinheiro para a passagem aérea. Isto não é certamente algo que você gostaria de fazer todo ano.

O relacionamento missionário-igreja perde muito. Se torna na visão da igreja um relacionamento sanguessuga, porque o pobre missionário está sempre pedindo, e na visão do missionário uma relação de abuso, porque a igreja cobra muito sem dar quase nada.

É aí que entra o famoso mistério da iniquidade pra nos ajudar a entender tanto descaso com missões. Gasta-se dinheiro em tudo o que se pode imaginar e a tudo chamamos de “reino”. Cadeiras novas para o templo é “reino”, ar condicionado para a igreja é “reino”, equipamentos para a cantina é “reino”. Só missões é que rapidamente sai da categoria de “reino” para a categoria de gastos supérfluos se as coisas se complicam. Pessoas também não são “reino”. O missionário e suas necessidades pessoais não é “reino”. Sua roupa ainda não está surrada o suficiente, seu carro não precisa de conserto, ele não precisa de plano de saúde. O missionário tem mais filhos, antes ele era sustentado como solteiro, agora se casou, mas mesmo assim o salário não sobe. Estamos sustentando a “obra”, o “reino”, ou seja o templo, as coisas, a comida distribuída aos carentes, mas não a pessoa do missionário porque ele não é reino.

Mistério da iniquidade, quem o entenderá? Quem entenderá como nosso pensamento acaba tão permeado de mentiras que até a verdade se torna mentira? Quem entenderá por que mesmo sabendo que esta vida nossa aqui não dura nada, mesmo sabendo que as coisas não são o verdadeiro reino, o reino é eterno, coisas não são eternas, só pessoas são eternas, portanto o reino não é e nunca será feito de outra coisa senão pessoas, mesmo sabendo tudo isto, ainda gastamos mais conosco mesmos do que com qualquer outra coisa, ainda gastamos com templos e cadeiras e coisas mais do que investimos em pessoas.

Alguns me criticariam dizendo, mas você está esquecendo o “fator Deus” (não o fator Deus do Saramago(2), mas o fator Deus, Deus mesmo). “-Você está esquecendo de que o Senhor é soberano sobre a sua obra sobre os seus filhos!” – Bem, sim e não. Ele é soberano e não é. Esperem aí, não desmaiem ainda ou rasguem o papel. Não estou dizendo nenhuma heresia. Até os calvinistas moderados admitem que o pecado deriva da vontade humana, do homem em seu livre arbítrio fazendo escolhas livres. Escolhendo o bem ou o mal. Sobre o pecado Deus não é soberano. (Se bem que há tanta discussão possível neste assunto que me dá canseira, mas convenhamos, esta interpretação que é a mais intuitiva, menos teololologica torna tudo mais fácil, vai…)

Já ouvi uma estatística que diz que setenta por cento das riquezas da humanidade estão na mão dos cristãos(3). O que isto quer dizer? Que Deus fez sua parte. Em sua soberania providenciou para que nada menos que setenta por cento de todo dinheiro do mundo caísse na mão de seus servos. O que é então que esconde o dinheiro de missões?

Veja que quadro triste:(4)

Não admira que no mundo inteiro a tarefa da Grande Comissão ainda esteja por se realizar! Noventa por cento do dinheiro da igreja é investido na própria igreja, sete por cento em iniciativas evangelísticas onde o evangelho já foi pregado antes, e apenas três por cento em iniciativas missionárias para aqueles povos que nunca ouviram o evangelho antes. Isto é no mínimo insensatez para não dizer burrice. É este o mistério, misteriosíssimo do pecado. Pecamos contra Deus deixando de passar pra frente o dinheiro que ele nos deu para este fim, deixando de aplicá-lo onde deveríamos, gastando em nosso próprio reino, administrando como queremos sem perguntar pra Ele. E com isto não estamos nos beneficiando mas nos prejudicando. Pensamos que ganhamos, mas perdemos.

Os não-alcançados perdem, os anjos perdem, Deus perde, e nós perdemos e muito. Esta é para mim a única maneira de explicar o porquê de não termos fluindo em missões o dinheiro que precisaríamos para completar a Grande Comissão, porque tantos povos morreram sem Cristo e ainda morrerão, porque muitos de nós vão chegar de mãos vazias nos céus. Este é o mistério da nossa iniquidade, o bom (ôpa) e velho egoísmo.

(1) Esta passagem é complicada como um todo, mas esta frase pode ter uma interpretação bem simples. O mistério da iniquidade que Paulo disse estar operando pode ter a ver com alguma mirabolante visão escatológica que ele estava tendo, ou pode ser simplesmente uma frase para descrever sua perplexidade diante do fascínio pelo pecado que opera na humanidade. E esta interpretação que sigo neste artigo.
(2) Mencionado por Ricardo Gondim em seu artigo na Ultimato – nov.dez de 2001
(3) Dr. Ralph Winter, numa palestra no Comina, Orlando, Flórida

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