"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

NOSSA IDENTIDADE CULTURAL E O DESAFIO DE MISSÕES

Benides Bergamo


Certo dia, eu conversava com um bem-sucedido médico paraguaio que passara um bom tempo de sua vida profissional na cidade do Rio de Janeiro. Ele me disse que tinha uma clínica, muitos clientes, casa própria; enfim, tudo o que um profissional almejaria possuir. No entanto, vendeu tudo e voltou ao Paraguai para começar tudo de novo. Admirado, indaguei-lhe por que fizera isso. Ele me respondeu que a única coisa que lhe faltava era justamente o Paraguai, e, obviamente, não poderia tê-lo em outro lugar.


Creio ser esse um bom exemplo de identidade cultural. Essa aliança familiar é uma ligação muito forte que temos com o que chamamos de “nosso vale”. Esses laços, quando bem usados, são de proveito para o trabalho missionário. Podemos ver valores fortes embutidos neles e, quando lhes são acrescentados os princípios bíblicos, esses laços podem se tornar alicerces fortes na vida de cada um. Infelizmente, porém, o que mais vemos é a nossa falta de parâmetros culturais e ligação com a nossa real identidade.


As perguntas que surgem são sempre as mesmas: O que somos? Quem somos? Como nos definimos? Qual é a nossa essência? Quais são nossas raízes? Somente respondendo a essas perguntas com convicções reais é que podemos descobrir nosso mundo próprio em relação ao mundo que nos rodeia.
A identidade é um conjunto de interesses que torna um grupo humano consciente de sua própria existência – a origem da maneira de pensar, ser e atuar.


E alcançamos nossa identidade quando tomamos nas mãos nossa própria realidade, assumindo nossos compromissos, baseados na nossa maneira de ser e agir. Não podemos ter vergonha de nós mesmos, pelo contrário, precisamos respeitar e valorizar nossas virtudes e nossos pontos fortes. Não devemos nos esconder atrás de uma pseudo-humildade, reconhecendo superficialmente a superioridade dos outros. Quando agimos assim, nunca abrimos nossa mente para o nosso valor e o que podemos ser e alcançar.


Nós, latino-americanos, temos de expor nossos próprios argumentos nesse momento da história. A história oficial dos conquistadores espanhóis e portugueses e, posteriormente, o domínio das grandes potências, não é, necessariamente, nossa história. Cada povo tem a sua história. Cada raça tem suas virtudes, cada cidadão tem talentos e dons que podem ser usados para reverter situações e também mudar o rumo da história. E, nesse particular, me remeto à nossa responsabilidade de fazer missões, apesar de todos os nossos problemas sociais, culturais e de identidade.


Nós, latino-americanos, somos, por essência, um povo pacífico que sabe conviver com outros. E é essa nossa maneira de ser que nos abre a porta da maioria das nações. Que privilégio e, também, que responsabilidade!


Gostaria de destacar algumas de nossas virtudes e características que podem ser usadas na evangelização do mundo, obedecendo ao “Ide” de Jesus por todas a nações anunciando as boas novas que muda todo um contexto e transforma vidas e sociedades.


Aculturação: é a aprendizagem da conduta adequada em uma outra cultura. Enquanto a enculturação é o aprendizado da conduta dentro de nossa própria cultura, a aculturação é o aprendizado da conduta adequada em uma cultura anfitriã. Isso é feito por meio de observação, contextualização e adaptação a novos ambientes ou culturas. Nós, os latinos, temos muita facilidade de nos moldar a outra cultura e ambiente. Somos mais flexíveis e tolerantes quanto ao modo de viver de outras culturas. Para nós, não é difícil sobreviver em circunstancias difíceis e de escassos recursos, pois, basicamente, é a nossa realidade diária.


Contextualização: Mesmo sendo diferentes, podemos nos contextualizar a outros. Esse é um processo em que comunicamos o evangelho, adaptando-o para que seja relevante e entendível para pessoas de outra cultura. Quando estamos trabalhando com os ribeirinhos, por exemplo, sempre tratamos de associar e contextualizar a nossa mensagem, relacionando com algo que eles sabem e vivem – nesse caso, a pesca e a vida nas margens do rio Paraguai. Nessas comunidades, onde o único meio de transporte é o barco e a tecnologia e a informática ainda não chegaram, seria um absurdo usar uma linguagem “cibernética” para expor o evangelho. Nesse caso, o atrasado seriam aqueles que tentassem usar esses recursos. Seria uma total descontextualização. Deus sabe contextualizar-se.

“Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar que Cristo Jesus tinha: Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte-morte de cruz.” (Filipenses 2.5-8 – BLH – grifo do autor.)

Deus é um contextualizador por excelência. Ele se contextualizou na revelação de si mesmo aos israelitas, usando o idioma do coração deles, metáforas da vida cotidiana, e as mais diversas formas poéticas e culturais. Paulo soube contextualizar-se e, precisamente por isso, fez um excelente trabalho como missionário. Soube adaptar a mensagem do evangelho a variadas situações e circunstâncias. Com os de Atenas, citou os poemas deles e aproveitou o conceito existente de um “deus desconhecido” para pregar o evangelho. Em seu ministério, fez uso da linguagem secular para comunicar conceitos cristãos. A reconciliação entre os homens e Deus era um conceito da perspectiva do mundo grego. Em 1 Coríntios 9.19-23, vemos um exemplo muito forte de como Paulo se contextualizava para ganhar outros para Deus.


É importante que compreendamos que, em qualquer lugar onde nos encontremos, sempre vamos demonstrar interesse e amor pelo que é nosso e até expressar valores de nossas raízes. No entanto, é nossa obrigação aprender a respeitar os outros e a conviver com eles, ainda que sejam totalmente diferentes de nós.


Respeitar as diferenças culturais e de identidade tem sido a chave do sucesso em missões transculturais. Quando respeitamos e aceitamos as diferenças, somos também respeitados. Creio que cada um pode compartilhar sua cultura, mas nunca impô-la, pois cada um tem seu próprio estilo que é muito difícil mudar. Finalmente, nossa meta não é, necessariamente, mudar ninguém, pois não temos esse poder. No entanto, temos de viver uma vida que reflita os valores cristãos e a nossa identidade com Cristo, pois as mudanças virão através dele e do Espírito Santo.

Benides Bergamo é missionário da Mision Betania del Paraguay, desde 1986.
E-mail: benbergamo@hotmail.com


Nenhum comentário: