"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PAIXÃO PELOS ÁRABES


Para o missionário Silvio Passos, os muçulmanos são uma imensa seara para a Igreja brasileira

A Igreja Evangélica mundial deve preparar-se para tempos difíceis de enfrentamento com os seguidores daquela que é a religião que mais cresce no mundo – o islamismo. E o pior é que os cristãos, inclusive no Brasil, estão quase que totalmente alheios ao perigo que ronda sua fé. O alerta é do missionário Silvio Passos Medeiros, que há sete anos deixou um confortável cargo de pastor auxiliar numa grande igreja do Rio de Janeiro para dedicar-se, em tempo integral, à evangelização de muçulmanos. Se você é daqueles que acham que falar de Jesus para os seguidores de Alá é uma tarefa arriscada, acertou – mas este tipo de trabalho vai muito além de infiltrar-se em países que proíbem a fé cristã. Eles estão bem aqui, no Brasil, e constituem um imenso contingente não-alcançado pelo Evangelho. É um ministério que demanda fé, investimento, preparo e, sobretudo, paciência. “Às vezes, leva-se anos para que um único muçulmano conheça a Cristo”, resume Silvio.
Ligado à Igreja Cristã da Trindade, em São Paulo, o pastor Silvio trabalha em parceria com o Ministério Árabe-Cristão, braço da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira com sede em Foz do Iguaçu (PR). A região, na chamada Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, concentra a maior população de árabes e descendentes na América Latina. É ali que organismos internacionais de inteligência, inclusive a famigerada CIA, estão de olho. Suspeita-se que por trás dos inúmeros empreendimentos comerciais tocados por árabes radicados no Brasil, escondam-se células terroristas e seus mantenedores. Tudo é mera especulação, mas suficiente para que paire sempre uma sombra de desconfiança de que, a qualquer momento, possam acontecer por aqui atentados semelhantes aos que têm apavorado o mundo ocidental.
Mas o olhar de Silvio está mais interessado em enxergar outra coisa: almas sem Cristo. “Há muito preconceito. As pessoas acham que todo muçulmano é um extremista, o que é um grande erro”, defende. Segundo o pastor, a realidade da expansão do Islã na América do Sul tem muito mais implicações espirituais do que políticas. “Nos últimos dez anos, o número de muçulmanos no Brasil passou de 800 mil para dois milhões. Uma taxa de crescimento anual absurda.” Sem medo de ser considerado um alarmista, Silvio Passos garante que há grupos com uma estratégia definida de islamização do país: “Como a gente sabe, os muçulmanos não se estabelecem aqui apenas para viver de forma tranqüila sua religião. Aproveitando a liberdade religiosa, querem espalhar as doutrinas do Corão não só no Brasil, mas em toda a América Latina e no Caribe”.
Casado com Rosângela e pai de dois filhos – Estevão e Edgar –, Silvio tem passado por muitas provas pessoais que, segundo ele, só fortalecem seu chamado. No início, ele e a família tinham dificuldades até para prover o sustento. Mesmo assim, o missionário resolveu se preparar. Hoje, embora não domine totalmente a língua árabe, consegue se comunicar bem. Uma de suas metas é despertar a Igreja brasileira frente ao crescimento do islamismo no país. “Atuamos também com treinamento de pessoas com chamado para o mundo árabe”, comenta. No entender do pastor, são dois os principais fatores de crescimento dos muçulmanos no Brasil: os imigrantes vindos de países que enfrentam conflitos, como o Líbano, nos anos 1980, a agora os palestinos e iraquianos, além da alta taxa de natalidade. “Muitas brasileiras estão casando com muçulmanos para fugir da pobreza. No Norte o no Nordeste, particularmente na Bahia, isso é muito comum.”
Além disso, a estrutura familiar árabe prevê costumes rígidos. Uma brasileira casada com muçulmano pode até permanecer confessando-se cristã, mas seus filhos obrigatoriamente serão educados segundo o Islã. Silvio revela que há doutrinadores empenhados na islamização. “Há até um ex-pastor da Assembléia de Deus, chamado Ismael, de São Bernardo do Campo, que se converteu alguns anos atrás. Hoje, é líder de discipulado do Islã no Brasil”, informa.

Sonhos e revelações – Apesar da resistência que os povos árabes geralmente oferecem a tudo o que não conhecem – isso inclui os obreiros cristãos –, o missionário tem obtido resultados animadores. “Leva-se tempo para ser aceito no convívio deles e, mais ainda, para poder pregar a Palavra”, aponta. “Aqui no Brasil, temos visto casos de conversão entre muçulmanos, algumas com aspectos sobrenaturais”. A mulher de um médico renomado de Foz do Iguaçu, ele conta, tornou-se cristã. Acontece que o casal era muçulmano, e a decisão criou grandes problemas. “Ele passou a sofrer muita pressão da colônia. Ameaçou mandar a mulher de volta para o Líbano, mas ela continuou orando e pedindo a Deus que se revelasse ao marido.” Uma noite, o médico, angustiado, disse que se aquele Cristo era de fato Deus, precisaria revelar-se a ele, a fim de que cresse. “Quando terminou de falar”, conta Silvio, “seus olhos escureceram e ele teve uma visão do Calvário. Então, Jesus falou com ele em árabe: ‘Sou eu que morri por você na cruz. Sofri e morri por causa de seus pecados, para que você tivesse vida’”. Então, a cena desapareceu e, aos prantos, ele confessou à mulher a revelação que tivera. Hoje, ambos auxiliam no treinamento de pessoas que desejam ministrar e trabalhar com árabes.
Por razões de segurança e para evitar constrangimentos, o pastor explica que não pode dar o nome das pessoas que se envolvem com a fé cristã. Mas ele conta os episódios com detalhes. “Certa vez, dei a um amigo libanês e muçulmano uma fita do filme Jesus.” Produzido pela Cruzada Estudantil para Cristo, a película é utilizada com objetivos evangelísticos e já foi assistida por milhões de pessoas no mundo todo. “Uma semana depois, fui vê-lo, mas ele tentou fugir de mim. Insisti até conseguir conversar com ele. Então, emocionado, disse-me que vira o filme cinco vezes.” Numa noite, durante o sono, o homem sonhou com a cena do filme em que Jesus cura diversas pessoas. “Em dado momento”, continua Silvio, “ele sonhou que Cristo lhe disse que me procurasse, para eu lhe dizer quem era o Senhor”. Histórias como essas fizeram com que o pastor adotasse uma forma de abordagem bem estranha: “Sempre pergunto aos muçulmanos se eles tiveram sonhos ou revelações a respeito de Jesus. Boa parte deles confessa que sim”.
Contudo, Silvio logo percebeu que seu ministério não teria condições de deslanchar se não visse como as coisas são in loco, ou seja, lá dentro do mundo árabe. Ano passado, o pastor integrou um grupo em visita missionária a nações muçulmanas. A viagem, para ele, equivaleu a anos e anos de estudo da cultura islâmica. “Nosso grande objetivo era visitar as igrejas evangélicas lá e fortalecer os irmãos”, conta. Para juntar o dinheiro, foi preciso recorrer a mantenedores, pedir ofertas, organizar bazares e até vender latinhas. Mas valeu a pena. “Cresceu em meu coração a urgência de ajudar os irmãos desses países e cresceu também o amor pelos árabes e muçulmanos.” A temporada começou no Líbano. “Nosso primeiro choque foi ver um país devastado pela guerra civil que durou muitos anos.” Contudo, logo a típica hospitalidade árabe entrou em cena. “Foi o país onde nosso grupo se sentiu mais amado”, revela.
Há apenas 30 mil evangélicos no país, mas segundo Silvio, a Igreja está crescendo. Além dos 70% de muçulmanos, outros grupos religiosos compõem um mosaico espiritual que inclui católicos, coptas, ortodoxos, menonitas, drusos e até budistas. O governo tenta praticar a democracia – artigo raro no Oriente Médio – e não há perseguição oficial no país, mas a intolerância existe: “Há uma má impressão contra os cristãos. Os libaneses suspeitam que eles possam ser espiões a serviço de Israel”. Os dois países, vizinhos, já se engalfinharam numa meia dúzia de conflitos, e a região sul, próxima à fronteira, abriga grupos islâmicos radicais xiitas – inclusive o temido Hezbollah, responsável por sangrentos atentados contra judeus. “Cristãos têm liberdade para se reunir e abrir suas igrejas. Há algumas restrições, como aglomerações em praças públicas, mas é permitido evangelizar”, conta o pastor. “Na cidade de Racheia Al’forah, de maioria ortodoxa, fizemos evangelismo, indo nas casas e convidando as pessoas para um culto. Fomos repreendidos por vários moradores. O sacerdote passou por nós várias vezes e, numa destas, até trouxe a polícia. Queriam saber quem éramos e o que fazíamos ali. Ao descobrirem que éramos brasileiros, nos deixaram”, diz Silvio.

Estratégia – O que mais impressionou o missionário, em sua viagem, foi a liderança evangélica árabe. “Viver em um país muçulmano faz com que eles tenham que exercitar sua fé a cada momento. Conheci um pastor chamado Nagib Cury, um anônimo herói da fé. Ele nasceu lá, cresceu, se converteu e hoje é líder de uma viva congregação batista, uma das que mais cresce lá. Aqueles irmãos enfrentaram guerra civil, invasões de Israel, extrema pobreza e desemprego. Lá, a prosperidade se aproxima muito mais do que a Bíblia diz, do que aquilo que é pregado aqui no Brasil. É outra visão de fé”, aponta.
Na Síria e na Jordânia, outra etapa da viagem, Silvio e seu grupo puderam constatar um fato inusitado para quem se acostumou a só ouvir atrocidades contra os crentes nas terras do Crescente: o bom convívio entre seguidores de diferentes credos. Como sexta-feira é dia sagrado para o Islã, os cristãos evitam trabalhar neste dia, em sinal de respeito. “Como conseqüência, acabam atraindo alguma simpatia da população”, diz Silvio. Ele esteve numa cidade no norte da Síria, chamada Homs, encorajando crentes batistas locais. A maioria ficou surpresa com a visita do pastor brasileiro. Embora haja proibições à evangelização de um muçulmano, ninguém impede que as pessoas visitem as igrejas evangélicas. Contudo, Silvio diz que o trabalho é mais efetivo quando se conquista a confiança do povo. “Quando se estabelecem relações de amizade, os árabes abrem suas casas, e é nestas ocasiões que se pode falar da fé. É uma estratégia.”
Já no conturbado Sudão, dilacerado por anos e anos de guerra civil, a situação é pior. O país, situado no limite entre o mundo árabe e a África Negra, já assistiu a massacres de cristãos perpetrados por grupos radicias que tentam instalar uma república islâmica, à semelhança do Irã. “Há movimentos nacionalistas que defendem a sharia, um conjunto de leis que toma o livro sagrado deles, o Corão, ao pé da letra. Isso fez com que o cristianismo se espalhasse pelo país. Na capital, Cartum, e ao seu redor, se formaram bairros e cidades inteiras habitadas por cristãos.” O pastor Silvio passou 12 dias lá, visitando comunidades, evangelizando e fortalcendo os irmãos. Ele diz que uma boa estratégia é o engajamento em programas sociais: “Conhecemos o trabalho desenvolvido pelas igrejas locais e por outros vindos de fora, como o projeto Sudão Verde. Montado por um engenheiro agrônomo coreano, o projeto, de orientação protestante, é apoiado pelo governo e montou um centro de treinamento para auxiliar agricultores e ensinar técnicas de cultivo”, explica.
Silvio teve a oportunidade de pregar numa cruzada em uma igreja de Cartum, com mais de 800 pessoas – um número considerável, dadas as condições religiosas do país. O evento foi logo depois do Ramadã, o mês sagrado islâmico. “Trouxe a mensagem e senti a forte presença do Senhor. Na hora do apelo, mais de 200 pessoas foram à frente, aceitando a Cristo. Quase não conseguia crer no que via. Pensei que não tivessem entendido e pedi para que meu intérprete falasse novamente sobre o plano de salvação e fizesse um novo chamado. Foi mais gente ainda. Como Jesus disse, as portas do inferno não estão prevalecendo contra a Igreja”, entusiasma-se o missionário. Mas o quadro geral do país é desolador. “Vi muita miséria, fome. Falta até água para as pessoas beberem. Há gente vivendo no deserto, epidemias e crianças morrendo. Mas também vi uma fé inabalável naqueles irmãos”, emociona-se.
Apesar de considerar o saldo da jornada altamente positivo, Silvio lamenta não ter podido entrar no Iraque. Devido ao quadro de descontrole total do país, ocupado por forças da coalizão lideradas pelos Estados Unidos e imerso num banho de sangue, o espaço aéreo iraquiano foi fechado justamente no período em que Silvio e seu grupo estiveram lá. “Mesmo nos outros países, contudo, sabemos que durante todo o tempo fomos vigiados pela polícia secreta”, destaca o pastor. “Tivemos apenas um gostinho do que os pastores locais enfrentam diariamente. O governo infiltra agentes nas igrejas. É preciso fazer tudo de maneira aberta e cuidadosa. Na Síria e na Jordânia, por exemplo, nenhum pastor ou líder religioso pode fazer qualquer coisa sem informar às autoridades. É comum exigirem esboços de sermões que serão pregados ou gravações dos cultos”. Um realidade totalmente diferente da experimentada pelos crentes brasileiros. “Houve momentos de tensão, mas Deus nos guardou e nos levou em paz”, alegra-se o missionário.

Casas da Paz – Devido às questões de segurança, Silvio Passos teve pouco contato com os ex-muçulmanos que se converteram ao cristianismo. “Tais encontros podem acabar denunciando-os às autoridades e conseqüências virão”, observa. Cair em mãos de governos muçulmanos totalitários pode significar a morte. “Casos como o do paquistanês Adub Massih, divulgado pela Missão Portas Abertas, são cada vez mais comuns”, diz Silvio. Ele aceitou a mensagem do Evangelho e por isso ficou preso durante muito tempo, sob falsa acusação de profanar o Corão e o nome do profeta Maomé. Chegou a ser sentenciado à morte, mas com o movimento de divulgação e oração promovido por Portas Abertas em todo o mundo e com a pressão da Anistia Internacional, acabou sendo solto e pôde deixar o país com toda a família. “Recentemente, dois jovens líderes evangélicos foram condenados à morte em um desses países, acusados de traição. Seu único crime foi pregar Cristo para os colegas muçulmanos. Um deles aguarda a pena preso. Mas o outro está em liberdade e conversei com ele. É uma situação muito difícil, pois toda sua família e conhecidos estão sob ameaça. Eles estão tentando recursos, mas a burocracia nesses casos asfixia qualquer esperança. Estamos começando um movimento mundial de oração por eles também.”
Atualmente lecionando sobre missões no Seminário Teológico da Igreja do Nazareno, em Santo André, na Grande São Paulo, Silvio Passos tem muitos planos. Um deles é construir abrigos para muçulmanos que se convertem em países onde há perseguição, dando assistência, orientação e condições para começarem novas vidas. “Seriam as chamadas Casas da Paz”, explica. “Isso é fundamental para que as pessoas não tenham medo de aceitar e viver sua fé nem desistam no meio do caminho”. Segundo o pastor, um nativo convertido tem muito mais condições de pregar a Palavra entre seu povo do que um estrangeiro. Como muitos dos novos cristãos acabam perseguidos – é comum, por exemplo, não encontrarem trabalho –, esta seria também uma maneira de mantê-los em seus países de origem.
Outro projeto, esse aqui no Brasil, é a montagem de uma nova agência missionária. “Sabemos que existem muitas, mas esta deverá desenvolver um projeto inédito. Em parceria com empresários, queremos adquirir um ônibus e viajar com jovens crentes pelo interior do país, identificando aqueles que têm chamado missionário e podem, futuramente, ser enviados a outros países.” Mas a prioridade, mesmo, é o treinamento de liderança: “O crescimento tem sido rápido e há necessidade de expandir esse trabalho, mas faltam líderes qualificados. É preciso capacitação, para que possam atuar sob condições de tamanha pressão”, comenta. “Queremos ainda trabalhar com imigrantes de origem árabe convertidos, conscientizando-os de que podem voltar aos seus países de origem para compartilhar o Evangelho. Se não puderem ir, por já estarem estabelecidos aqui, ao menos podem ajudar financeiramente a viabilizar tais projetos”.

Marcos Stefano. Jornalista da revista Eclésia
http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=373

Um comentário:

Anônimo disse...

Louvo a Deus por pessoas como voces, que estão preocupadas com as almas...Sou casada com um descendente de árabes muçulmanos. No começo era complicado professar minha fé, mas agora Deus me deu ousadia e já falei de Jesus com os meus sogros.
Já se converteram, tres cunhadas e um cunhado.
Meu marido é simpatizante, não proíbe eu de ir à igreja, gosta dos louvores e já comprou um CD do cantor Lázaro que toca repetidas vezes no nosso carro. Glórias a Deus!!!Vou estar orando pelo seu projeto. sei como é difícil essa missão. Fiquem com O Senhor!!!Vai até o fim!!!