"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quinta-feira, 31 de março de 2011

LER OU NAO LER, EIS A QUESTAO



por Braulia Ribeiro

A maior contribuição das missões para a história é a escrita. Têm sido através da dedicação de missionários que milhares de povos tribais no mundo inteiro obtiveram alfabetos específicos para suas línguas.

A tradição oral não torna ninguém mais burro, os povos de línguas ágrafas não são "primitivos", como antes pensavam os antropólogos. Mas é verdade que eles ficam excluídos de fazer alguma contribuição válida para o resto da humanidade. Ficam diminuídos em sua capacidade de gravar sua própria história, em sua capacidade de produzir ciência. A escrita permite que a memória coletiva se amplie e se perpetue. Permite que a expressão individual contribua indelevelmente com o coletivo. Permite que a sabedoria de outros povos seja incorporada, ao estilo de vida e cosmovisão do povo.

A Bíblia é uma coletânea de histórias de uma tribo pequena que tinha uma revelação grande sobre o Criador. Estas histórias tribais, princípios e preceitos fazem um grande diferença quando aceitas por qualquer povo.

Acontece que os efeitos da Bíblia são muito mais profundos do que apenas "cristianizar" as tribos que a recebem. Sempre relutei em aceitar a cristianização com algo desejável ou inevitável. Muitos de nossos missionários trabalham com o conceito da igreja nativa que não importa as formas de igreja praticadas pela sociedade dominante, mas permite à cultura tribal resignificar seus ritos e danças. Discutíamos também se a escrita e a tradução da Bíblia eram parte essencial da revelação de Deus aos povos, ou parte desta cristianização imposta.

Uma das razões é que a escrita não é bem aceita em todas as tribos. O povo P., da amazônia por exemplo, em contato com a sociedade envolvente desde o século XIX sempre se recusou a aprender a ler. Escrever para eles significa desistir de ser quem são. Entendendo que povos assim não podem ser excluídos da mensagem, se criou uma proposta missiológica que se focaliza na tradição oral. Os P. vão eventualmente receber uma versão oral de histórias biblicas que se encaixará perfeitamente na sua própria tradição.

A oralidade se tornou uma unanimidade. Inúmeras versões para se historiar a Bíblia oralmente surgiram. A idéia antes só praticada por poucos hoje é não só aceita mas quase que universalizada. Línguas sem escrita, recebem versões orais de histórias bíblicas. Se espera que mais tarde alguma outra missão focalize aquele povo de novo para traduzir a bíblia mas por enquanto o nome daquele povo sai da lista de prioridades.

Seria uma história com final feliz, se a moeda não tivesse um outro lado. No mundo pós-moderno tudo é instantâneo e fugaz. Nossa teologia e missiologia também são. Queremos zerar as listas de povos não-alcançados criadas pelos missiólogos. Queremos "proclamar" a salvação de Cristo a todos nos tornando a primeira geração na história que realmente alcançou o mundo inteiro. Não importa se reduzimos o conceito da salvação a um mero: aceitar Jesus. Não importa se estes povos que alcançamos continuem nas trevas da falta de direitos civis, no isolamento cultural, reduzidos a si mesmos, impedidos também por causa de sua condição ágrafa de contribuir com o mundo de fora.

A Bíblia não é parte de uma máquina religiosa impositiva. O acesso à Bíblia é acesso à vida, a re-invenção cultural, à redenção da mulher, à valorização do indivíduo diante do coletivo e muito mais. A escrita não destrói culturas tribais nem a romântica tradição oral mas continua sendo hoje o único instrumento de cidadania no sentido mais básico da palavra.

Infelizmente a conseqüência de nossa missiologia da oralidade será o fim da missão de dar a escrita a povos ágrafos e a tradução da Bíblia. Vale deixar aqui o meu protesto antes que seja tarde e abandonemos de vez a missão de levar a escrita e a Palavra aos povos do mundo. "This is your world. Shape it, or someone else will"

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