"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

MISSÕES E CUIDADO EM CONTEXTOS DE RISCO E DE SOFRIMENTO

Graduada em Letras com Mestrado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e Doutorado em Missiologia pela Asia Graduate School of Theology, Filipinas. Serviu por 10 anos como Missionária em Angola. É professora e Coordenadora de Desenvolvimento da Escola de Missões do Centro Evangélico de Missões.


O sofrimento faz parte da carreira missionária dos que seguem os passos e o ministério de Jesus. Foi assim com nosso Mestre. Ela nos advertiu de que também sofreríamos e nos chamou a calcular os custos para ver se estamos dispostos a servir e perseverar até ao fim. (Lc 9.23, 57-62; 14. 25-33).

Jesus não facilitou a vida de seus seguidores, buscando os pregadores, os cultos, os programas e o louvor que mais nos agradam e o lugar onde podemos “obter” mais bênçãos com o menor custo. Nossa tendência é a de rejeitar qualquer coisa que exija um pouco de sacrifício. Esta não é a forma de tomar a cruz e renunciar a nós mesmos. Jesus nos convida a andar no seu caminho, seguindo seus passos. Para que o Reino de Deus venha e a sua vontade seja feita (como oramos no Pai Nosso), precisa-se de pessoas dispostas a lutar contra as trevas, e ser sal e luz em meio à maldade, dor e desesperança.

SERVIR A DEUS EM CNTEXTOS ATUAIS DESAFIADORES

Devemos reconhecer qual é a realidade da maioria dos campos missionários mais carentes e menos alcançados em nossos ldias. São países em povos onde há guerras, conflitos tribais e perseguição religiosa crescente, regiões dominadas por enfermidades tropicais ou contextos urbanos empobrecidos e violentos. Além disso, têm-se tornado mais freqüentes grandes catástrofes naturais, causando mortes e sofrimento a milhares. Essas realidades abrem novos campos para nosso serviço de amor e exigem de nós uma adaptação especifica, com coragem sabedoria e sensibilidade, para aproveitarmos as oportunidades de darmos nosso testemunho cristão ao povo.

Não buscamos intencionalmente o sofrimento, entretanto, se queremos alcançar os perdidos menos alcançados, teremos de servir em selvas, entre grupos que vivem distantes dos grandes centros ocidentais, onde nossa presença será questionada – teremos inimigos simplesmente por estarmos ali em nome de Cristo. Serviremos entre povos fundamentalistas, orgulhosos de sua cultura e de sua religião as quais representam sua identidade, e entre grupos que sofreram com a imposição de políticas colonialistas e exploratórias. Serviremos entre povos que sofrem os horrores da guerra e que perderam seus entes queridos: crianças traumatizadas que presenciaram a morte violenta dos pais, pessoas que foram física e emocionalmente estraçalhadas. Teremos de servir em lugares onde o simples interesse em ler ou ser uma Biblia já pode causar intensa oposição ou mesmo a morte.

Temos de reconhecer que algumas reações negativas vêm pela maneira com que a missão é feita, todavia, a razão maior da resistência ao Evangelho não é a questão da cultura e sim o fato de existir uma batalha espiritual, a resistência do próprio Satanás querendo impedir que povos ou grupos de pessoas sem Deus e sem esperança venham a descobrir as alegres e boas-novas do amor de Cristo.

Além disso, temos de aprender línguas complicadas, mudar nossa forma de viver para outras formas que nos são estranhas, permitir que nossos filhos integrem uma cultura que talvez não nos agrade. Podemos estar servindo com toda dedicação e fidelidade e ser mal interpretados, questionados ou ver nossa presença ser ressentida simplesmente porque somos estrangeiros.

Depois vêm as saudades da pátria, da família, da igreja, dos amigos, a preocupação com os pais que estão ficando mais idosos e precisam de nossa presença e a preocupação constante com a vida, com os estudos dos filhos e com o futuro deles. Será que estamos prejudicando-os ao obrigá-los a partilhar a vida missionária conosco? Vem a solidão e a necessidade de alguém que nos entenda. Acabamos sendo duplamente estrangeiros, no campo e, talvez, ainda mais quando voltamos ao lar – é aí que percebemos quanto mudamos. Mesmo nossa família os líderes de nossa igreja e nossos melhores amigos não entendem as coisas que mais ardem em nosso coração, nossa dor e nossa desorientação.

Será que vale a pena enfrentar tudo isso? Eu creio que vale a pena em primeiro lugar, porque é muito limitada a resposta aquilo que o Senhor da glória fez para nos salvar e nos tornar filhos amados do Deus Pai, segundo porque nossa vocação é aquilo que no fundo mais satisfaz nosso ser, é aquilo para que fomos criados. Causa-nos imensa satisfação e alegria estar no centro da vontade de Deus. É ainda: cada pequeno fruto ou broto ou sinal de vida quanta alegria nos trazem.

Como foi bom, quando eu estava em Angola, depois de meses de debates difíceis com um ou outro marxista convencido, poder perceber como a luz de Deus penetrava sua mente e mudava sua perspectiva e o transformava em filho de Deus, em testemunho do amor lde Jesus que o alcançou. Visitando os hospitais cheios de doentes com pouquíssimos recursos e feridos da guerra, encontrei muito desespero e falta de vontade de continuar a lutar e viver e vi como o amor de Jesus transformava a vida dessas pessoas, dando-lhes nova coragem, nova razão para viver, para lutar pelo que é bom e poder servir aos outros. Vi pessoas que conheci como estudantes secundaristas ou universitários, servir a Deus e ao próximo com sabedoria, alegria e dedicação... Vi o ministério entre deficientes físicos que comecei a sonhar há anos, sendo desenvolvido sacrificialmente pelos próprios deficientes, com fervor, luta perseverante e amor. Sim, valeu a pena!
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O texto é de autoria da Missionária Antonia Leonora van der Meer. Publicado no Livro Cuidado Integral do Missionário. Publicado pela Editora Betal Publicações – João Pessoa, PB. 2011 paginas 67-69.

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