"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sábado, 22 de janeiro de 2011

CONTEXTUALIZAÇÃO - UMA ABORDAGEM NA OBRA MISSIONÁRIA

O texto em foco é de autoria da Missionária Maura Juça Manoel, Missionária em Moçambique e está publicado no site da MIAF.

Introdução

Segundo Donald Sênior e Stuhlmueller no livro Fundamentos Bíblicos da Missão, a contextualização no seu nível mais profundo não implica numa visão de uniformidade, que requer que todas as culturas expressem o evangelho de uma única forma, o que seria impossível.
O cristianismo não é uma religião etnocêntrica. Os gentios não precisam se tornar judeus, os chineses não precisam se tornar italianos ou poloneses. A universalidade do Evangelho significa que a fé pode assumir expressões diferenciadas.

Base Bíblica
A missão mundial jamais começa do nada mas dentro de uma cultura pré-existente. Portanto, o ato missionário prescinde uma disposição de identificação com a cultura do povo com o qual se vai trabalhar.

O interesse de Deus por Missões
Missões se baseia na disposição de Deus em ocupar-se com a situação complicada da vida humana não somente enquanto formado de acordo com a sua cultura e valores, mas também enquanto um povo deformado pelo pecado.
A contextualização tem a sua base no processo pelo qual o próprio Deus se utiliza como fonte do estilo de vida de um povo, para se revelar à ele.
Is 55: 6-11 indica que a vontade e propósito de Deus pré-existem desde a eternidade, portanto Ele antes mesmo de ser Criador era Salvador.
Outro aspecto que indica o processo de contextualização no exemplo do próprio Deus na sua relação para com a humanidade é que Ele sempre se revelou dentro de formas humanas já existentes.


Jesus o exemplo
Jesus se tornou o nosso modelo de contextualização pois a Bíblia afirma que o verbo se fez carne (Jo 1.14), e nessa condição, ele experimentou dor, fome, tudo que fazia parte da carne, ou seja da condição do ser humano que ele se tornou.
De fato, Ele nunca deixou de ser o verbo eterno, mas optou pela identificação com o ser humano.
Este é o principio da identificação sem perda da identidade, é o principio que serve para o nosso trabalho missionário transcultural.

Barreiras
Alguns se recusam a se identificar com o povo com o qual querem servir. Preferem continuar sendo eles mesmos evitando toda e qualquer semelhança com os costumes do povo, permanecendo agarrados a sua herança cultural, impondo a sua própria cultura, desprezando a cultura receptora e consequentemente praticando um imperalialismo cultural extremamente negativo para a obra missionária.

O processo de aculturação possui três etapas segundo Donald Senior e Stuhlmueller: a violência, a indigenização e o desafio.
A fase de violência é a fase inicial quando o missionário chega com novas idéias que transformam as antigas, criam certos choques, e que desencadeiam algum gênero de mudança violenta. É a fase caracterizada pelo estabelecimento de cabeça-de-ponte.
A Segunda fase, que os autores chamam de indigenização é quando a nova idéia lança suas raízes e se re-exprime as suas crenças e práticas religiosas em conformidade com as crenças e práticas locais. Essa é uma fase longa e complicada, que bem direcionada pode caminhar para uma contextualização sadia, mas se for mal encaminhada pode descambar para o sincretismo.
A terceira fase é o que os autores chamaram de desafio, pois implica no desafio profético que transforma tanto a cultura como também a religião.
Segundo a missióloga Norte Americana Barbara Burns, no seu artigo ¨Teologia contextualizada - a integração da exegese bíblica e estudos missiológicos¨, um dos principais desafios no cumprimento da tarefa missionária é a contextualização da Bíblia. Ela argumentou que há muita polêmica no meio evangélico sobre como fazer isso, quais os limites, e até qual é a base para conseguir comunicar os propósitos de Deus em outras culturas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

ESCRITÓRIO DA SEMIPA FOI TOTALMENTE DESTRUÍDO


No último dia 12 de janeiro a região serrana do Estado do Rio de Janeiro sofreu o impacto de fortes chuvas. Uma das cidades fortemente atingidas foi São Jose do Vale do Rio Preto. Quando o Pr. Julio Cezar chegou para a oração matinal no templo da Assembleia de Deus de Águas Claras se deparou com as águas do Rio Preto atingindo a rua e subindo rapidamente. Com outros irmãos começou a lutar para salvar os equipamentos da igreja e do escritório de Semipa.

Apesar do empenho de todos, o nível das águas foi muito além do imaginável, atingindo dois metros de altura. Com isto, poucos equipamentos da igreja foram salvos e todo o material de Semipa se perdeu, contando computadores, impressoras, note book, projetor de multimídia, mobiliário, material de stands (livros, dvd's, bandeiras, etc), material do Curso de Capacitação Missionária, além de todos os arquivos dos missionários, fotos, etc.


A obra missionária não pode parar e a exemplo de grande parte da população, Semipa precisa recomeçar tudo.
Se você se sentir tocado a nos ajudar neste reinicio, favor fazer seu depósito bancário em uma das contas bancárias (Banco Itaú Ag 6116 C/C 02263-0 Banco do Brasil AG 3470-3 C/C 7406-3 Banco Bradesco AG 2805-3 C/C 3806-7) e nos informar sobre sua doação. Neste momento estamos sem energia elétrica, sem telefone ou internet, ainda não temos uma previsão para o restabelecimento dos mesmos.

Nossos contatos são: contato@semipa.org.br, www.semipa.org.br, MSN: paixaopelasalmas@hotmail.com, 21 3724 2667, 24 2224 2448, 24 8148 1781, 21 7692 4152. Deixe seu recado no formulário do site ou no e-mail, ou envie SMS pelos celulares e assim que tivermos alguma conexão retornaremos seu contato.

Informamos ainda que devido a este incidente, não haverá nos dias 28 e 29 de janeiro, o Congresso Semipa Kid´s.

Desde já muito obrigado por sua sensibilidade e resposta a nossa necessidade urgente. Ore também por todos os desabrigados e enlutados e por todos que não terão para onde voltar, por conta do desmoronamento de suas casas.


























quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

POR QU IR PARA TÃO LONGE SE AQUI PERTO HÁ TANTA NECESSIDADE?

Publicado por Jairo de Oliveira na Revista Povos numero 10 em 14 de Janeiro de 2010

Eis aí uma pergunta que, pelo menos uma vez, todo missionário transcultural já deve ter tido que responder.

Visitando diversas igrejas no Brasil e compartilhando a respeito do nosso ministério de proclamação da Palavra de Deus aos povos africanos, Vânia e eu temos ouvido esta pergunta com certa frequência.

Por alguma razão, pessoas se sentem desconfortáveis com a ideia de que um indivíduo abrace desafios num contexto distante, enquanto há a manifestação de desafios, em certo sentido, semelhantes em seu ambiente originário.

Normalmente, diante da apresentação desta pergunta, temos procurado responder tendo em mente as seguintes razões:

Porque é bíblico

A atitude de alguém que sai da terra natal para levar o evangelho a outras nações é, antes de tudo, sustentada, inspirada e ordenada pelas Escrituras.

O fato é que a Bíblia é essencialmente um livro missionário e como tal requer que o povo do caminho concentre seus esforços no anúncio da glória de Deus também entre aqueles que estão distantes.

Abraão foi o pioneiro a ter que deixar sua casa para se tornar bênção para as famílias da terra (Gn. 12.1-3), cumprindo assim os projetos missionários divinos. Depois dele, muitos outros personagens bíblicos seguiram seu rastro, tanto no Antigo como no Novo Testamento.

Sair da própria terra para levar o evangelho aos que estão distantes não se trata de uma proposta humana. Não é modismo, heroísmo ou tentativa de expansão religiosa. O trabalho missionário transcultural é vontade e propósito de Deus! A tarefa missionária da Igreja, antes de qualquer outra coisa, é bíblica.

Porque o Mestre mandou



O missionário vai aos lugares mais distantes do planeta a fim de anunciar o evangelho em obediência a Jesus. Não se trata prioritariamente de responder a desafios maiores ou menores dos encontrados em nossa pátria, mas de se submeter à ordem expressa de Jesus para anúncio do evangelho entre todas as nações.

Essa não é a única base do nosso envolvimento com missões (já que o assunto é bíblico e reafirmado em cada livro das Escrituras), mas é preciso reconhecer que o Mestre não sugeriu ou solicitou, Ele nos mandou fazer discípulos de todas as nações: “Portanto ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que vos tenho mandado; e eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos” (Mt. 28.19-20).

Aquele que nos mandou ir tem toda autoridade no céu e na Terra. Sendo assim, devemos nos submeter à sua autoridade obedecendo à sua convocação a fim de alcançarmos também os que estão distantes.

Por uma questão de exemplo

Quando olhamos para trás encontramos em toda a história bíblica e eclesiástica o exemplo de homens que cumpriram com obediência o chamado missionário divino. De fato, o evangelho chegou até nós porque esses valentes do passado compreenderam que a Igreja é a agência missionária de Deus para o mundo.

É saudável lembrarmos com frequência que foi por meio do desprendimento e da obediência dos missionários estrangeiros que o evangelho chegou ao nosso país. Eles saíram de suas terras deixando para trás desafios presentes em seu próprio contexto. Antes de desembarcarem no Brasil é possível que também tenham ouvido de seus compatriotas: “Por que ir tão longe se aqui por perto há tanta necessidade?” Não obstante, saíram com coragem e vieram nos trazer o evangelho.

Hoje, tendo sido alcançados com o evangelho, parece que o mínimo que podemos fazer é reproduzir o exemplo, assumindo esse mesmo tipo de iniciativa em relação aos demais povos.

Para impedir o avanço das trevas em outras partes do mundo

Os povos sem o testemunho do evangelho estão perdidos espiritualmente e vivendo na escuridão. Em contrapartida, as falsas religiões continuam avançando e em muitos casos gerando oposição e perseguição ao evangelho.

Há contextos onde a obra da cruz de Cristo ainda não é conhecida e uma das consequências é que de maneira explícita Satanás é tido como rei e permanece recebendo adoração que não lhe é devida.

É importante dizer que quando nos omitimos em pregar a Palavra de Deus, estamos fazendo com que gerações inteiras permaneçam na escuridão. Desta forma, não podemos permanecer indiferentes enquanto temos todas as condições para interferir nestes cenários e fazer com que as trevas sejam dissipadas.

Por uma questão de coerência

Recentemente me sentei com o meu pastor em seu gabinete e ao considerarmos a presença da igreja em nosso bairro, identificamos mais de vinte igrejas locais em uma única rua. Esse fato faz parte da realidade de outras ruas da cidade do Rio de Janeiro e também de muitas outras cidades do nosso país. A questão que vem à mente diante deste quadro é: “Se o acesso ao evangelho é tão abundante em nossas cidades, por que não compartilhá-lo com aqueles que ainda não o receberam?”

Se o evangelho é de fato boas-novas e há muitos que sequer tiveram acesso a ele, acredito que não podemos omitir aos outros tudo o que Cristo fez por nós. Se o fizermos seremos os mais insensíveis e os mais incoerentes de todos os homens, mesmo que não houvesse uma ordem tão explícita para pregarmos o evangelho ao mundo.

Será que é justo que alguns recebam do evangelho em abundância enquanto outros não têm sequer uma oportunidade? Foi em resposta a esse cenário que o apóstolo Paulo escreveu: “Deste modo esforçando-me por anunciar o evangelho, não onde Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm. 15.20).

Por uma questão de estratégia

Por mais incrível que pareça, existem povos que nunca ouviram o evangelho e precisam ser focalizados pela Igreja de Jesus Cristo a fim de serem evangelizados. Eles representam nações inteiras intocadas pelo trabalho de evangelização da Igreja e ignorantes da revelação especial de Deus. Eles somam milhões de pessoas que vivem em ignorância espiritual, mergulhados na idolatria e arraigados nas falsas religiões. São vítimas da fome, da pobreza, das doenças, das guerras e da impossibilidade de conhecerem a graça divina, revelada em Cristo Jesus.

Os povos não alcançados são aqueles que não possuem uma comunidade nativa de crentes em Cristo com números ou recursos adequados para evangelizar seu próprio grupo sem a ajuda de missionários transculturais. Eles representam uns 2,3 bilhões de pessoas com muito poucas possibilidades de ouvir e crer no evangelho de Cristo.

Considerando a tarefa inacabada do anúncio do evangelho entre todas as nações, o desafio que mais se destaca para a Igreja em nossa geração é exatamente anunciar o evangelho aos que ainda não ouviram.

Porque é um privilégio

Aquele que deixar o seu lar para seguir para terras distantes a fim de proclamar o evangelho é um mensageiro da paz e pode estar se tornando um pioneiro no trabalho de levar as boas novas de Cristo aos que ainda não ouviram.

Tenho enorme alegria em dizer que o maior investimento que fiz na minha vida foi dedicar a minha juventude no anúncio do evangelho (já se vão treze anos!). Pois a obra missionária é um grande privilégio para quem pode experimentá-la e investimento garantido para a eternidade, certa é recompensa.

Entendemos por meio da teologia bíblica que esse ministério não foi dado aos anjos, mas aos discípulos de Jesus. Portanto, trata-se de um grande privilégio que o Senhor tem reservado para nós.

“Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas" (Rm. 10.15).

Por todas estas razões, vale a pena alcançar aqueles que estão longe de nós!

Publicado na Revista Povos, número 10, dezembro de 2009.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

NORDESTE - QUE DESAFIOS FOCAR?


(O texto abaixo é de autoria Luiz Sérgio Freitas Ribeiro, missionário, presidente e fundador da Missão Juvep. E pode ser conferido no site da Agência:

Esse pedaço do Brasil, que conhecemos como nordeste, setenta vezes maior que Israel e com uma população equivalente à soma populacional da Espanha e Portugal? 50 milhões de pessoas? Encerra grandes desafios não só para as autoridades governamentais, mas principalmente para a igreja evangélica brasileira.

Alguns desafios sociais
O nordeste tem os piores índices sociais do Brasil. Só para citar alguns exemplos:

Na educação, detém a maior taxa de analfabetismo; na saúde, é campeão na mortalidade infantil e lanterninha na disponibilidade de leitos e UTIs do SUS. No trabalho infantil, é a região que tem mais crianças ocupadas com menos de nove anos. Na Paraíba, quase a metade delas trabalha.

O povo nordestino é o que tem os mais baixos salários do país e os seus ‘cabras machos’ ganham menos que as mulheres das outras regiões. Até parece desaforo!

Pouca educação e dinheiro escasso formam um binômio que gera, inevitavelmente, violência. E a violência no nordeste, que não chega a ser a maior do país, está crescendo aceleradamente e Pernambuco está no topo do ranking regional.

"O Nordeste talvez tenha sido a região do país que mais sofreu com a falta de crescimento econômico e o aumento da dívida pública, pois é a que mais precisa de investimentos. Talvez essa seja a explicação para o aumento nos índices", disse a pesquisadora do IBGE, Ana Lúcia Sabóia.

Se fôssemos falar da corrupção, do narcotráfico, da imoralidade, da gravidez na adolescência, da acintosa concentração de renda etc, etc, iríamos ficar ainda mais horrorizados e compungidos com a hediondez do quadro!

Sobrevém o lamento – faltam-nos homens públicos comprometidos com a coisa pública! Faltam-nos, ou porque já não existem, ou porque são raríssimos e insuficientes (deixo para o leitor a tarefa de descobrir...).

A falta ou a escassez destes provoca a insuficiência de políticas e ações públicas para redimir o cidadão da favela e do sertão, os dois maiores focos da pobreza regional. E nacional.

Os pobres das favelas nordestinas e do sertão continuam comendo o pão que a classe dominante continua amassando. E à espera do pão que a igreja pouco tem levado para matar sua fome física e espiritual.

Além dos desafios sociais
O problema não é apenas econômico, social, estrutural. O problema tem um seriíssimo componente bem conhecido pelos crentes: o pecado. Seja individual, coletivo, estrutural. Egoísmo, desonestidade, cobiça, orgulho, falta de amor e falta de temor a Deus.

Além disso tudo, o nordeste é a região menos evangelizada do Brasil e que detém 70,72% dos municípios brasileiros com menos de 3% de crentes. Na zona rural, acreditamos que existam mais de 10 mil aglomerados humanos sem nenhuma presença evangélica, o que constitui um gigantesco desafio.

Onde vamos focar nosso esforço? Minha sugestão é que cada segmento da igreja foque seu esforço em favor de um nordeste diferente de acordo com seu chamado: promoção da justiça social, melhorar a qualidade de vida do bebê, da criança, do adolescente, do jovem, do homem, da mulher e do ancião; concomitante, e principalmente, intercedendo, evangelizando, discipulando, enviando missionários e plantando novas igrejas. Aliás, eu sugiro que todo esforço da igreja em favor de um nordeste diferente esteja atrelado à plantação de novas igrejas e que priorize suas áreas mais carentes, que são os sertões, zona rural e as favelas.

É preciso melhorar não somente a vida, mas, principalmente, a morte do povo nordestino, sobretudo do sertanejo. Como?! Pregando o Evangelho.

A forma mais eficaz de combater o pecado e melhorar, não só a vida, mas principalmente a morte do cidadão, é plantando igrejas, pois é plantando igrejas que se evangeliza uma região, ou uma nação, com mais eficácia.

Sobrevém o lamento? Faltam-nos homens de Deus e igrejas compro-metidas com a salvação do povo sertanejo! Faltam-nos, não porque inexistam (existem, e muitos!); mas porque é insuficiente o número dos que se dispõe a fazer a sua parte em favor da proclamação do Evangelho no interior nordestino.

Divido com o leitor a tarefa de aumentar o número dos disponíveis!

Miss. Sérgio Ribeiro

sábado, 15 de janeiro de 2011

DEFININDO MISSÕES TRANSCULTURAIS


Tem por objetivo alcançar pessoas de outras nações, raças, povos, culturas e línguas que nunca ouviram a mensagem do Evangelho de Jesus Cristo.

“… mas recebereis poder, ao descer sobre o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (Atos 1:8)

“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 19:20)

Não podemos falar sobre missão transcultural sem pelo menos tentar entender o que é cultura. Muitas vezes dizemos que fulano tem muita cultura porque ele ouve música clássica, gosta de teatro ou sabe usar todos os garfos e colheres que estão na mesa durante um jantar sofisticado. E dizemos que uma pessoa não tem cultura quando não se comporta de modo “civilizado”. Cultura, no entanto envolve toda a criação humana. Ela é constituída do estilo de vida de toda uma sociedade, ou de um grupo especifico dentro da mesma.

Portanto, quando falamos de missão transcultural, estamos falando do esforço da Igreja em cruzar qualquer fronteira que separe o missionário de seu público alvo. Para se engajar na missão transcultural, você não tem que, prioritariamente cruzar barreiras político-geográficas. Porém, em nosso caso teremos que necessariamente cruzar barreiras mais conhecidas como a da lingüística, dos costumes, das etnias, das religiões, além das sociais, morais e etc.

É difícil para muitos falar sobre a tarefa da missão transcultural, quando muitas outras tarefas ainda continuam, diante da Igreja de Deus, por serem realizadas em nosso próprio contexto e local. Aquilo que é necessário ser feito localmente, tanto dentro como fora da igreja, demanda muito tempo e esforço das comunidades, acabando por ofuscar a visão das mesmas para a tarefa mais importante da Igreja, nesta virada de século e milênio, que é a evangelização transcultural.

Conseqüentemente, nós poderíamos dizer que o resultado desse tipo de atitude é que 25% da população mundial, ou seja 1,5 bilhões de pessoas, nunca ouviram do evangelho sequer uma vez. Porém, se falarmos em número de povos, vamos descobrir que da tabela dos 11.874 povos, 3.915 deles nunca ouviram do evangelho. E o que dizer das 240 tribos indígenas brasileiras, das quais 126 não possui presença missionária evangélica, enquanto que 06 tem situação indefinida. Será que estas pessoas não o direito de ouvir pelo menos uma vez na vida a mensagem de salvação?

É nesse sentido que a missão transcultural e/ou a evangelização transcultural deve ser a mais alta prioridade no evangelismo, hoje. Precisamos alcançar estes 1,5 bilhões de pessoas que estão distantes culturalmente de nós e que nunca ouviram as boas novas de salvação em Cristo Jesus. Tornar a igreja acessível para cada um desses povos e permitir que eles entendam claramente a mensagem e tenham condição de responde-la positivamente é nossa missão.

O Deus da Bíblia é o Deus da História. Ele tem um propósito para ela. A Bíblia toda é clara quanto a isso e descreve este propósito do inicio ao fim. Se cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus devemos crer necessariamente que missões transculturais é o programa de Deus, visto que de Gênesis ao Apocalipse ela nos revela o amor de Deus pelas nações da terra. (Gn.12:3b; Is.49:6; Apoc.5:9)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

PAIXÃO PELOS ÁRABES


Para o missionário Silvio Passos, os muçulmanos são uma imensa seara para a Igreja brasileira

A Igreja Evangélica mundial deve preparar-se para tempos difíceis de enfrentamento com os seguidores daquela que é a religião que mais cresce no mundo – o islamismo. E o pior é que os cristãos, inclusive no Brasil, estão quase que totalmente alheios ao perigo que ronda sua fé. O alerta é do missionário Silvio Passos Medeiros, que há sete anos deixou um confortável cargo de pastor auxiliar numa grande igreja do Rio de Janeiro para dedicar-se, em tempo integral, à evangelização de muçulmanos. Se você é daqueles que acham que falar de Jesus para os seguidores de Alá é uma tarefa arriscada, acertou – mas este tipo de trabalho vai muito além de infiltrar-se em países que proíbem a fé cristã. Eles estão bem aqui, no Brasil, e constituem um imenso contingente não-alcançado pelo Evangelho. É um ministério que demanda fé, investimento, preparo e, sobretudo, paciência. “Às vezes, leva-se anos para que um único muçulmano conheça a Cristo”, resume Silvio.
Ligado à Igreja Cristã da Trindade, em São Paulo, o pastor Silvio trabalha em parceria com o Ministério Árabe-Cristão, braço da Junta de Missões Mundiais da Convenção Batista Brasileira com sede em Foz do Iguaçu (PR). A região, na chamada Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, concentra a maior população de árabes e descendentes na América Latina. É ali que organismos internacionais de inteligência, inclusive a famigerada CIA, estão de olho. Suspeita-se que por trás dos inúmeros empreendimentos comerciais tocados por árabes radicados no Brasil, escondam-se células terroristas e seus mantenedores. Tudo é mera especulação, mas suficiente para que paire sempre uma sombra de desconfiança de que, a qualquer momento, possam acontecer por aqui atentados semelhantes aos que têm apavorado o mundo ocidental.
Mas o olhar de Silvio está mais interessado em enxergar outra coisa: almas sem Cristo. “Há muito preconceito. As pessoas acham que todo muçulmano é um extremista, o que é um grande erro”, defende. Segundo o pastor, a realidade da expansão do Islã na América do Sul tem muito mais implicações espirituais do que políticas. “Nos últimos dez anos, o número de muçulmanos no Brasil passou de 800 mil para dois milhões. Uma taxa de crescimento anual absurda.” Sem medo de ser considerado um alarmista, Silvio Passos garante que há grupos com uma estratégia definida de islamização do país: “Como a gente sabe, os muçulmanos não se estabelecem aqui apenas para viver de forma tranqüila sua religião. Aproveitando a liberdade religiosa, querem espalhar as doutrinas do Corão não só no Brasil, mas em toda a América Latina e no Caribe”.
Casado com Rosângela e pai de dois filhos – Estevão e Edgar –, Silvio tem passado por muitas provas pessoais que, segundo ele, só fortalecem seu chamado. No início, ele e a família tinham dificuldades até para prover o sustento. Mesmo assim, o missionário resolveu se preparar. Hoje, embora não domine totalmente a língua árabe, consegue se comunicar bem. Uma de suas metas é despertar a Igreja brasileira frente ao crescimento do islamismo no país. “Atuamos também com treinamento de pessoas com chamado para o mundo árabe”, comenta. No entender do pastor, são dois os principais fatores de crescimento dos muçulmanos no Brasil: os imigrantes vindos de países que enfrentam conflitos, como o Líbano, nos anos 1980, a agora os palestinos e iraquianos, além da alta taxa de natalidade. “Muitas brasileiras estão casando com muçulmanos para fugir da pobreza. No Norte o no Nordeste, particularmente na Bahia, isso é muito comum.”
Além disso, a estrutura familiar árabe prevê costumes rígidos. Uma brasileira casada com muçulmano pode até permanecer confessando-se cristã, mas seus filhos obrigatoriamente serão educados segundo o Islã. Silvio revela que há doutrinadores empenhados na islamização. “Há até um ex-pastor da Assembléia de Deus, chamado Ismael, de São Bernardo do Campo, que se converteu alguns anos atrás. Hoje, é líder de discipulado do Islã no Brasil”, informa.

Sonhos e revelações – Apesar da resistência que os povos árabes geralmente oferecem a tudo o que não conhecem – isso inclui os obreiros cristãos –, o missionário tem obtido resultados animadores. “Leva-se tempo para ser aceito no convívio deles e, mais ainda, para poder pregar a Palavra”, aponta. “Aqui no Brasil, temos visto casos de conversão entre muçulmanos, algumas com aspectos sobrenaturais”. A mulher de um médico renomado de Foz do Iguaçu, ele conta, tornou-se cristã. Acontece que o casal era muçulmano, e a decisão criou grandes problemas. “Ele passou a sofrer muita pressão da colônia. Ameaçou mandar a mulher de volta para o Líbano, mas ela continuou orando e pedindo a Deus que se revelasse ao marido.” Uma noite, o médico, angustiado, disse que se aquele Cristo era de fato Deus, precisaria revelar-se a ele, a fim de que cresse. “Quando terminou de falar”, conta Silvio, “seus olhos escureceram e ele teve uma visão do Calvário. Então, Jesus falou com ele em árabe: ‘Sou eu que morri por você na cruz. Sofri e morri por causa de seus pecados, para que você tivesse vida’”. Então, a cena desapareceu e, aos prantos, ele confessou à mulher a revelação que tivera. Hoje, ambos auxiliam no treinamento de pessoas que desejam ministrar e trabalhar com árabes.
Por razões de segurança e para evitar constrangimentos, o pastor explica que não pode dar o nome das pessoas que se envolvem com a fé cristã. Mas ele conta os episódios com detalhes. “Certa vez, dei a um amigo libanês e muçulmano uma fita do filme Jesus.” Produzido pela Cruzada Estudantil para Cristo, a película é utilizada com objetivos evangelísticos e já foi assistida por milhões de pessoas no mundo todo. “Uma semana depois, fui vê-lo, mas ele tentou fugir de mim. Insisti até conseguir conversar com ele. Então, emocionado, disse-me que vira o filme cinco vezes.” Numa noite, durante o sono, o homem sonhou com a cena do filme em que Jesus cura diversas pessoas. “Em dado momento”, continua Silvio, “ele sonhou que Cristo lhe disse que me procurasse, para eu lhe dizer quem era o Senhor”. Histórias como essas fizeram com que o pastor adotasse uma forma de abordagem bem estranha: “Sempre pergunto aos muçulmanos se eles tiveram sonhos ou revelações a respeito de Jesus. Boa parte deles confessa que sim”.
Contudo, Silvio logo percebeu que seu ministério não teria condições de deslanchar se não visse como as coisas são in loco, ou seja, lá dentro do mundo árabe. Ano passado, o pastor integrou um grupo em visita missionária a nações muçulmanas. A viagem, para ele, equivaleu a anos e anos de estudo da cultura islâmica. “Nosso grande objetivo era visitar as igrejas evangélicas lá e fortalecer os irmãos”, conta. Para juntar o dinheiro, foi preciso recorrer a mantenedores, pedir ofertas, organizar bazares e até vender latinhas. Mas valeu a pena. “Cresceu em meu coração a urgência de ajudar os irmãos desses países e cresceu também o amor pelos árabes e muçulmanos.” A temporada começou no Líbano. “Nosso primeiro choque foi ver um país devastado pela guerra civil que durou muitos anos.” Contudo, logo a típica hospitalidade árabe entrou em cena. “Foi o país onde nosso grupo se sentiu mais amado”, revela.
Há apenas 30 mil evangélicos no país, mas segundo Silvio, a Igreja está crescendo. Além dos 70% de muçulmanos, outros grupos religiosos compõem um mosaico espiritual que inclui católicos, coptas, ortodoxos, menonitas, drusos e até budistas. O governo tenta praticar a democracia – artigo raro no Oriente Médio – e não há perseguição oficial no país, mas a intolerância existe: “Há uma má impressão contra os cristãos. Os libaneses suspeitam que eles possam ser espiões a serviço de Israel”. Os dois países, vizinhos, já se engalfinharam numa meia dúzia de conflitos, e a região sul, próxima à fronteira, abriga grupos islâmicos radicais xiitas – inclusive o temido Hezbollah, responsável por sangrentos atentados contra judeus. “Cristãos têm liberdade para se reunir e abrir suas igrejas. Há algumas restrições, como aglomerações em praças públicas, mas é permitido evangelizar”, conta o pastor. “Na cidade de Racheia Al’forah, de maioria ortodoxa, fizemos evangelismo, indo nas casas e convidando as pessoas para um culto. Fomos repreendidos por vários moradores. O sacerdote passou por nós várias vezes e, numa destas, até trouxe a polícia. Queriam saber quem éramos e o que fazíamos ali. Ao descobrirem que éramos brasileiros, nos deixaram”, diz Silvio.

Estratégia – O que mais impressionou o missionário, em sua viagem, foi a liderança evangélica árabe. “Viver em um país muçulmano faz com que eles tenham que exercitar sua fé a cada momento. Conheci um pastor chamado Nagib Cury, um anônimo herói da fé. Ele nasceu lá, cresceu, se converteu e hoje é líder de uma viva congregação batista, uma das que mais cresce lá. Aqueles irmãos enfrentaram guerra civil, invasões de Israel, extrema pobreza e desemprego. Lá, a prosperidade se aproxima muito mais do que a Bíblia diz, do que aquilo que é pregado aqui no Brasil. É outra visão de fé”, aponta.
Na Síria e na Jordânia, outra etapa da viagem, Silvio e seu grupo puderam constatar um fato inusitado para quem se acostumou a só ouvir atrocidades contra os crentes nas terras do Crescente: o bom convívio entre seguidores de diferentes credos. Como sexta-feira é dia sagrado para o Islã, os cristãos evitam trabalhar neste dia, em sinal de respeito. “Como conseqüência, acabam atraindo alguma simpatia da população”, diz Silvio. Ele esteve numa cidade no norte da Síria, chamada Homs, encorajando crentes batistas locais. A maioria ficou surpresa com a visita do pastor brasileiro. Embora haja proibições à evangelização de um muçulmano, ninguém impede que as pessoas visitem as igrejas evangélicas. Contudo, Silvio diz que o trabalho é mais efetivo quando se conquista a confiança do povo. “Quando se estabelecem relações de amizade, os árabes abrem suas casas, e é nestas ocasiões que se pode falar da fé. É uma estratégia.”
Já no conturbado Sudão, dilacerado por anos e anos de guerra civil, a situação é pior. O país, situado no limite entre o mundo árabe e a África Negra, já assistiu a massacres de cristãos perpetrados por grupos radicias que tentam instalar uma república islâmica, à semelhança do Irã. “Há movimentos nacionalistas que defendem a sharia, um conjunto de leis que toma o livro sagrado deles, o Corão, ao pé da letra. Isso fez com que o cristianismo se espalhasse pelo país. Na capital, Cartum, e ao seu redor, se formaram bairros e cidades inteiras habitadas por cristãos.” O pastor Silvio passou 12 dias lá, visitando comunidades, evangelizando e fortalcendo os irmãos. Ele diz que uma boa estratégia é o engajamento em programas sociais: “Conhecemos o trabalho desenvolvido pelas igrejas locais e por outros vindos de fora, como o projeto Sudão Verde. Montado por um engenheiro agrônomo coreano, o projeto, de orientação protestante, é apoiado pelo governo e montou um centro de treinamento para auxiliar agricultores e ensinar técnicas de cultivo”, explica.
Silvio teve a oportunidade de pregar numa cruzada em uma igreja de Cartum, com mais de 800 pessoas – um número considerável, dadas as condições religiosas do país. O evento foi logo depois do Ramadã, o mês sagrado islâmico. “Trouxe a mensagem e senti a forte presença do Senhor. Na hora do apelo, mais de 200 pessoas foram à frente, aceitando a Cristo. Quase não conseguia crer no que via. Pensei que não tivessem entendido e pedi para que meu intérprete falasse novamente sobre o plano de salvação e fizesse um novo chamado. Foi mais gente ainda. Como Jesus disse, as portas do inferno não estão prevalecendo contra a Igreja”, entusiasma-se o missionário. Mas o quadro geral do país é desolador. “Vi muita miséria, fome. Falta até água para as pessoas beberem. Há gente vivendo no deserto, epidemias e crianças morrendo. Mas também vi uma fé inabalável naqueles irmãos”, emociona-se.
Apesar de considerar o saldo da jornada altamente positivo, Silvio lamenta não ter podido entrar no Iraque. Devido ao quadro de descontrole total do país, ocupado por forças da coalizão lideradas pelos Estados Unidos e imerso num banho de sangue, o espaço aéreo iraquiano foi fechado justamente no período em que Silvio e seu grupo estiveram lá. “Mesmo nos outros países, contudo, sabemos que durante todo o tempo fomos vigiados pela polícia secreta”, destaca o pastor. “Tivemos apenas um gostinho do que os pastores locais enfrentam diariamente. O governo infiltra agentes nas igrejas. É preciso fazer tudo de maneira aberta e cuidadosa. Na Síria e na Jordânia, por exemplo, nenhum pastor ou líder religioso pode fazer qualquer coisa sem informar às autoridades. É comum exigirem esboços de sermões que serão pregados ou gravações dos cultos”. Um realidade totalmente diferente da experimentada pelos crentes brasileiros. “Houve momentos de tensão, mas Deus nos guardou e nos levou em paz”, alegra-se o missionário.

Casas da Paz – Devido às questões de segurança, Silvio Passos teve pouco contato com os ex-muçulmanos que se converteram ao cristianismo. “Tais encontros podem acabar denunciando-os às autoridades e conseqüências virão”, observa. Cair em mãos de governos muçulmanos totalitários pode significar a morte. “Casos como o do paquistanês Adub Massih, divulgado pela Missão Portas Abertas, são cada vez mais comuns”, diz Silvio. Ele aceitou a mensagem do Evangelho e por isso ficou preso durante muito tempo, sob falsa acusação de profanar o Corão e o nome do profeta Maomé. Chegou a ser sentenciado à morte, mas com o movimento de divulgação e oração promovido por Portas Abertas em todo o mundo e com a pressão da Anistia Internacional, acabou sendo solto e pôde deixar o país com toda a família. “Recentemente, dois jovens líderes evangélicos foram condenados à morte em um desses países, acusados de traição. Seu único crime foi pregar Cristo para os colegas muçulmanos. Um deles aguarda a pena preso. Mas o outro está em liberdade e conversei com ele. É uma situação muito difícil, pois toda sua família e conhecidos estão sob ameaça. Eles estão tentando recursos, mas a burocracia nesses casos asfixia qualquer esperança. Estamos começando um movimento mundial de oração por eles também.”
Atualmente lecionando sobre missões no Seminário Teológico da Igreja do Nazareno, em Santo André, na Grande São Paulo, Silvio Passos tem muitos planos. Um deles é construir abrigos para muçulmanos que se convertem em países onde há perseguição, dando assistência, orientação e condições para começarem novas vidas. “Seriam as chamadas Casas da Paz”, explica. “Isso é fundamental para que as pessoas não tenham medo de aceitar e viver sua fé nem desistam no meio do caminho”. Segundo o pastor, um nativo convertido tem muito mais condições de pregar a Palavra entre seu povo do que um estrangeiro. Como muitos dos novos cristãos acabam perseguidos – é comum, por exemplo, não encontrarem trabalho –, esta seria também uma maneira de mantê-los em seus países de origem.
Outro projeto, esse aqui no Brasil, é a montagem de uma nova agência missionária. “Sabemos que existem muitas, mas esta deverá desenvolver um projeto inédito. Em parceria com empresários, queremos adquirir um ônibus e viajar com jovens crentes pelo interior do país, identificando aqueles que têm chamado missionário e podem, futuramente, ser enviados a outros países.” Mas a prioridade, mesmo, é o treinamento de liderança: “O crescimento tem sido rápido e há necessidade de expandir esse trabalho, mas faltam líderes qualificados. É preciso capacitação, para que possam atuar sob condições de tamanha pressão”, comenta. “Queremos ainda trabalhar com imigrantes de origem árabe convertidos, conscientizando-os de que podem voltar aos seus países de origem para compartilhar o Evangelho. Se não puderem ir, por já estarem estabelecidos aqui, ao menos podem ajudar financeiramente a viabilizar tais projetos”.

Marcos Stefano. Jornalista da revista Eclésia
http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?cod_artigos=373

sábado, 8 de janeiro de 2011

CRIMES NA FLORESTA - INFANTICIDIO NA REVISTA VEJA



A ONG ATINI (Voz pela Vida) tem se proposto a discutir o infanticídio com o indígena e colaborar para a superação deste tabu social. Os elementos culturais que motivam o ato são dos mais variados em distintas etnias. Entre os Yanomami seria a promoção do equilíbrio entre os sexos. Entre os Suruwahá a deficiência física. Entre os Kaiabi o nascimento de gêmeos (sendo que a primeira criança é preservada), e assim por diante. Este não é um assunto exclusivo de nosso país. Na África centenas de etnias praticam o infanticídio. Muitos Konkombas de Gana, motivados pela subsistência, alimentam apenas as crianças mais fortes. Os Bassaris do Togo sacrificam as crianças que nascem com deficiência. Os Chakalis da Costa do Marfim o fazem por privilegiar o sexo masculino. Na China há amplo aborto de bebês do sexo feminino, por preferirem os meninos. Em dezenas de países o Estado e a sociedade têm se voluntariado para refletir sobre o infanticídio e tratá-lo à luz dos Direitos Humanos Universais. No Brasil ainda temos uma caminhada pela frente.

A ONG ATINI tem também distribuído amplamente a cartilha "O Direito de Viver" em mais de 50 etnias indígenas, gerando assim o ambiente necessário para o indígena brasileiro refletir sobre as questões ligadas ao infanticídio e outros atos nocivos à vida, dignidade e sobrevivência. Saiba mais acessando o endereço
www.vozpelavida.blogspot.com

A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, Brasília, promoverá uma audiência pública neste próximo dia 5 de setembro que discutirá o assunto como passo preparatório para a votação da lei Muwaji que regula e promove o diálogo construtivo pró-vida com os povos indígenas em nosso país. É o Projeto de lei 1057/2007 que aguarda parecer de aprovação no plenário. Fui convidado a participar do debate nesta data bem como em alguns outros ambientes acadêmicos e políticos nesses próximos 3 meses. Sinto que não podemos nos omitir.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos aprovada pela ONU em 1948 promulga que "todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos" (Art. 1). Afirma também que "toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e segurança pessoal" (Art. 3). Continua declarando que "todos são iguais perante a lei e têm o direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei (...) contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação" ( Art.7). Saiba mais sobre a declaração acessando www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm

A disputa no mundo das idéias é travada com base em duas teorias opostas. O Relativismo (neste caso mais extremado, radical) e a Universalidade Ética. O Relativismo radical torna as culturas estáticas e estanques e as pretere de transformações autônomas, mesmo as desejadas e necessárias. O bem é o bem permitido na cultura, cultivado por ela. O mal é seu oposto. Este relativismo, praticado de forma radical, incapacita o indivíduo, qualquer indivíduo, de propor mudanças em sua própria cultura por entender a cultura como um sistema estático e imutável, um universo a parte, pressupondo que as presentes normas culturais são perfeitas em si. Nasce daí o purismo antropológico, que enxerga todo elemento cultural como relevante e absoluto, todo costume como funcional e toda prática como algo justificável, sem necessidade de avaliação ou contraste, mesmo pelo próprio povo.

A Universalidade Ética, por outro lado, pressupõe que os homens, povos e culturas fazem parte de uma sociedade maior que é a sociedade humana. E esta possui, em si, valores universais de moralidade como a dignidade, sobrevivência do grupo e busca pela continuidade da vida do indivíduo. Rouanet expõe que o homem não pode viver fora da cultura, mas ela não é seu destino, e sim um meio para sua liberdade. Levar a sério a cultura não significa sacralizá-la e sim permitir que a exigência de problematização inerente à comunicação que se dá na cultura se desenvolva até o seu descentramento. Este argumento nos leva a compreender que os conflitos são universais, como a morte, o sofrimento, a discriminação ou a repressão. Perante conflitos universais podemos compartilhar a mútua experimentação na busca de soluções internas. Ao conversar com um índio Tariano no Alto Rio Negro, depois de prolongada sessão de perguntas sobre o processo tradicional Tária de sepultamento, ele concluiu dizendo que "como vocês brancos devem também saber, não há morte sem dor". A dor, universal, resultado de conflitos e mazelas também universais, pede soluções internas que devem ser compartilhadas em um diálogo construtivo.

Porém este não é um conflito puramente de idéias e teorias em um cenário antropológico. Lida com vidas, histórias e ambientes humanos.

Devemos reconhecer o direito de todo indivíduo de levantar-se contra os valores culturais experimentados pelo seu grupo e propor novas alternativas, especialmente nos casos em que há dano à vida, à dignidade ou à subsistência.

Devemos reconhecer que nenhuma cultura é estática ou isolada da sociedade humana. E que, pertencente a esta, partilha também os mesmos sonhos e conflitos. Que a ação dialógica, sob o manto da autonomia de cada povo, trás benefícios humanos que não estancam a vivência cultural pois práticas aceitas na atualidade remontam a decisões passadas, por critérios próprios ou adquiridos.

Devemos reconhecer que o Estado brasileiro deve tratar o infanticídio indígena de forma ativa, informando e dialogando com as sociedades indígenas em nosso país a respeito das alternativas para solução deste conflito interno, que isente a morte das crianças. Que garanta o direito de vida, criação e dignidade dos indivíduos, independente de seu segmento étnico.

Edson e Márcia Suzuki, etnolinguistas e missionários da JOCUM, colaboraram para a retirada de dois bebês da tribo Suruwahá em 2005 para tratamento apropriado em São Paulo, atendendo ao apelo dos pais. A retirada dos bebês os liberava do sacrifício por iniciativa da comunidade Suruwahá. Iganani, uma das crianças, chegou a ser deixada na mata para morrer mas foi resgatada pela mãe, por convencimento da avó. Tititu, a outra criança, quase foi flechada pelo pai que decidiu levá-la aos "brancos" a procura de ajuda. A mãe de Iganani chama-se Muwaji e explicitou seu desejo por ajuda. Desejava, a despeito da prática milenar comunitária de seu grupo, preservar a vida da sua filha. Os Suzukis, durante cerca de 20 anos vivendo entre os Suruwahá, contabilizam cerca de 28 casos de infanticídio no grupo. Este fato social, a preservação da vida por iniciativa indígena, de crianças que seriam sacrificadas na comunidade, abriu um precedente ético e comportamental entre os Suruawahá. É possível que percebam o que Pritchard chama de possibilidade de solução. Quando um povo, pela iniciativa de uma idéia ou ato, repensa suas soluções para o sofrimento e as adequa a práticas mais humanizadoras na cosmovisão do próprio grupo.

Leia o artigo "Não há morte sem dor - uma visão antropológica sobre a prática do infanticídio indígena no Brasil".

Minha sugestão é que você se interesse pelo assunto e ajude-nos nesta caminhada. Neste caso você pode:

1. Orar pela audiência pública no dia 5 de setembro e por diversas outras oportunidades de debate sobre o infanticídio. De forma especial pela aprovação da lei Muwaji.

2. Se inteirar do assunto e compartilhar sua relevância e urgência com formadores de opinião e políticos de nosso país.

3. Veicular o artigo que envio em anexo em sites, jornais e revistas. Trata de uma visão puramente antropológica do infanticídio indígena brasileiro e tem como objetivo divulgar as bases teóricas e morais para o repúdio a esta prática, valorizando o homem, a vida e as sociedades indígenas.

4. Enviar uma mensagem de apoio à aprovação da Lei Muwaji para a relatora Deputada Janete Rocha Pietá pelo e-mail dep.janeterochapieta@camara.gov.br Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

5. Se envolver com a ONG ATINI, com sede em Brasília, que no momento provê assistência aos sobreviventes de tentativas de infanticídio e luta com diversos desafios práticos no dia a dia. Acesse
www.vozpelavida.blogspot.com

* Bacharel em Teologia pelo SPN – Recife/PE. Doutor em Antropologia pela Royal London University. Membro da American Anthropological Association. Pastor presbiteriano e membro da APMT e Missão AMEM. Consultor e autor de projetos de direitos humanos e reorganização social pós guerra em Gana, África, entre 1995 a 1999.

Panorama Mundial



Estudo coordenado pelo cientista político brasileiro Paulo Sérgio Pinheiros, apresentado à ONU em 2006, mapeia a violência contra crianças em 130 países do mundo.

“É uma coisa horrível se derramar sangue de bebês em nome da tradição”, diz Boni Goura, antropólogo social da etnia Baatonou, que trabalha junto a outros ativistas sociais com o objetivo de abolir o infanticídio em Benin.

Recém-nascidos com alguma deficiência física viram um fardo na África Central e Ocidental. Nesses casos a família reduz os cuidados e o bebê morre para alívio geral. Na Índia, a predileção por filhos homens leva a grávida a abortar se descobre que gerou uma mulher. As meninas comem o que sobra dos pratos dos irmãos. Menos nutridas, adoecem mais e são as últimas a serem atendidas no sistema de saúde.

Crianças sensíveis ou sonhadoras correm risco em lugares como Camarões, Gabão, Nigéria e Libéria. Identificadas como detentoras de poderes diabólicos, culpadas por acidentes e infortúnios, são levadas para centros de reabilitação.

Em Benin, não precisa muito para uma criança ser sentenciada à morte. Basta que na hora do parto, saiam primeiro os pés, os ombros ou as nádegas. Se a cabeça sair primeiro, mas com o rosto virado para baixo, se a mãe morrer no parto, se os dentes inferiores nascerem primeiro, ou se não nascerem dentes antes dos 8 meses, a criança também será executada.Isso na frente dos pais, que ainda têm que pagar pelo serviço. Há registro de casos de mães que fogem e se isolam com seus bebês, com medo da execução.

“O machismo, na América Latina, embora seja cultural, é atacado e limitado por políticas públicas que vêem neste elemento cultural um dano ao próprio homem e sociedade. O jeitinho brasileiro, que patrocina a corrupção e tolerância de pequenos delitos, apesar de ser resultante de elementos também culturais não deixa de ser compreendido como nocivo ao homem. Como tal não é aceito pela sociedade como desculpa para a continuidade de práticas danosas à vida. O mesmo poderíamos falar a respeito do racismo. Nestes três casos a universalidade ética é evocada e aceita de forma geral pela sociedade e os direitos humanos são reconhecidos.

Porque que não no caso de elementos culturais nocivos à vida, em contexto indígena? Isto me leva a aceitar a especulação de Maquiavel de que a guerra do vizinho nos incomoda menos do que nosso pequeno conflito familiar. ”
Trecho de Não há morte sem dor, de Dr. Ronaldo Lidório, antropólogo

Carta Aberta sobre o Infanticídio Indígena no Brasil . .Estamos juntando forças para pensar e agir sobre um assunto por demais importante. Trata-se do infanticídio praticado em etnias indígenas brasileiras sem que seja dado à família ou povo condições de diálogo sobre o assunto, na busca por outras soluções para as questões culturais que motivam tais fatos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

15 RAZÕES PORQUE O BRASIL AINDA NÃO DECOLOU EM MISSÕES TRANSCULTURAIS


Pr. David Botelho: Brasil – O Gigante Adormecido

‘’...Deitado eternamente em berço esplêndido...’’ – frase do hino nacional brasileiro

PENSAMENTO

“Hoje em dia muitas pessoas dizem amar Jesus e o seu reino celestial, mas poucos carregam sua cruz. Muitos anseiam pelo conforto que ele traz, mas poucos estão dispostos a enfrentar as provações que seu nome pode trazer. Jesus encontra muitas pessoas que desejam partilhar do seu banquete, mas poucas dispostas a jejuar com ele. Todos querem desfrutar da alegria que ele traz, mas poucos estão dispostos a enfrentar algum sofrimento por causa dele. Muitas pessoas seguem Jesus até o momento de partir o pão, mas poucos chegam a tomar de seu cálice do sofrimento. Muitos admiram os seus milagres, mas poucos seguem-no na indignidade de sua cruz”.
Tomas á Kempis

INTRODUÇÃO

Em dezembro de 2004, vários líderes de organizações missionárias latinas reuniram-se na Costa Rica. O encontro foi promovido pela Wycliffe, missão especializada no trabalho de tradução da Bíblia. Naquela ocasião pude participar do Fórum de Colaboração para o Impacto das Escrituras. Foi quando percebi a necessidade de escrever uma reflexão, a partir de uma perspectiva latina, que mostrasse a todos os presentes porque o Brasil, que tem um grande potencial missionário, ainda não “decolou”. Minha conclusão é que esse potencial jamais será totalmente alcançado sem que exista uma parceria mais efetiva com a Igreja do hemisfério Norte. Afinal, precisamos enfrentar muitos obstáculos naturais, considerar o tamanho dos desafios e também nossa realidade espiritual.
O especialista em missões Peter Wagner declarou, no começo da década de 1990, que o Brasil seria a maior força missionária mundial em 2010 e que 2025 seria a vez da China. Isto ainda não ocorreu e realmente creio que não existem sinais evidentes de que tal previsão se cumpra. Em parte, o problema é a falta de parcerias eficazes entre a Igreja do hemisfério Norte e a Igreja brasileira. Mesmo assim, segundo Patrick Johnstone, o Brasil é terceira nação que mais envia missionários neste momento.
Pensando sobre a situação da China, a previsão de Peter poderá se concretizar, pois a China já vem explorando seu potencial missionário hoje de forma mais ampla e eficaz que o Brasil. Basta lembrar que somente o Movimento Back to Jerusalem pretende levantar 100.000 missionários chineses. O plano é que eles saiam da China percorrendo o trajeto conhecido como “rota da seda”, hoje também chamado de “Janela 35-45” ou Janela Túrquica, até chegar a Jerusalém. Muitas reuniões estão sendo feitas sobre o assunto e o Irmão Yan, um pastor chinês que esteve preso durante mais de 20 anos por pregar o evangelho, está sendo tremendamente usado por Deus para divulgar a visão. O movimento conta com o apoio do escritor Paul Hattaway, que colocou o assunto, de forma jornalística, em evidência nas várias reuniões de parcerias realizadas no mundo para tratar do assunto. Esse tipo de proposta de união no trabalho missionário é algo vital para ajudar no treinamento, na logística e na estratégia daqueles que serão convocados para essa empreitada tão importante e perigosa.
Parece que há mais interesse e generosidade da Igreja do hemisfério Norte em relação à Igreja chinesa. Creio que o principal motivo seja o sofrimento que os irmãos chineses enfrentaram por causa da perseguição; algo que, de certa forma, serviu para purificá-la. Além disso, a comunidade chinesa cristã espalhada pelo mundo é rica e pode, certamente, investir no financiamento deste contingente tão corajoso que ainda está passando por um duro treinamento. A perseguição fez deles militantes persistentes da causa de Cristo e, acima de tudo, muito bem-sucedidos na evangelização. Prova disso é a estimativa de que ocorram 27.000 mil conversões na China a cada dia. É importante destacar ainda que, segundo o pesquisador Patrick Johnstone, a maioria desses evangelistas são mulheres, muitas delas ainda adolescentes.
Ao longo dos anos vários escritores fizeram análises sobre a Igreja brasileira partindo da perspectiva do hemisfério do Norte. Alguns deles trabalham no Brasil ou são obreiros nacionais educados dentro de uma filosofia de trabalho típica da Igreja do Norte. Entendo a importância desses escritos, mas sinto que é preciso fazer uma nova leitura do que está acontecendo sob uma perspectiva mais latina.
Mudanças no mundo
Nos últimos anos, quase da noite para o dia, a América do Sul viu o mundo passar por uma mudança histórica na produção de alimentos, que está transformando o interior quase inexplorado do continente no “novo celeiro” do mundo. Isso não era algo previsto e muito menos aceitável, pois no passado se enfatizava que o bom da exportação era o material processado e não a matéria-prima em si.
Um dos últimos locais do planeta onde ainda existem grandes áreas disponíveis para agricultura, a América Latina (sobretudo o Brasil) tem visto uma verdadeira explosão na exportação de produtos agrícolas na última década. Tal crescimento é alimentado por uma combinação de políticas econômicas pró-mercado e avanços na agronomia. Assim, terras tropicais inutilizáveis foram transformadas em terras produtivas, aumentando os níveis de produtividade a ponto de ultrapassar os Estados Unidos e Europa, o que acabou desafiando o domínio tradicional deles no mercado global de produtos agrícolas.
Assim como o profeta Jeremias , não posso me calar diante de tantas razões que atestam a possibilidade de vermos este gigante chamado Brasil “decolar”
Os missiólogos concordam que o século XXI está testemunhando um grande deslocamento no “centro de gravidade” do mundo cristão, indo do norte e oeste em direção ao sul e leste. A realidade incontestável é que em 1960 o hemisfério Norte possuía 75% da membresia da igreja do mundo e o Sul, somente 25%. No ano 2000, esse quadro já estava invertido, pois estima-se que 75% dos cristãos vivem na porção sul do planeta e 25%, no Norte . Os números relativos ao envio de missionários também mudaram nas últimas quatro décadas, mas não na mesma proporção.
Anteriormente, quando se falava de um missionário a idéia mais comum era de um americano ou europeu de pele branca. Este quadro hoje mudou e percebe-se que a área de treinamento melhorou sensivelmente no hemisfério Sul. Em grande parte, isso aconteceu como conseqüência do investimento da Igreja do Norte nesta área, bem como da adaptação do treinamento ao contexto latino em muitas escolas.
Para os escritores e estudiosos do hemisfério Norte essa idéia parece algo totalmente novo. Até mesmo os latinos podem duvidar da viabilidade desse tipo de parceira, mas é preciso que a Igreja absorva novas idéias e quebre paradigmas. A verdade é que ainda existe muito a ser feito e o mundo não é mais o mesmo. É preciso identificar o sinal dos tempos e seguir em frente sem estar preso a tradições humanas. O mover de Deus nesse novo tempo é inegável. Politicamente, o Brasil busca estar no centro dessas mudanças, pleiteando uma posição de liderança. Será este um sinal profético para a Igreja Brasileira?
A realidade do Brasil em Missões Transculturais na atualidade
O Brasil foi chamado de “cadinho de nações” por causa de seus muitos casamentos inter-raciais. Aqui existe liberdade religiosa e temos um pouco mais de 3.000 missionários transculturais. Pode parecer muito, mas considerando a existência de aproximadamente 54 milhões de cristãos evangélicos, espalhados por 300.000 igrejas, é um número quase irrelevante. Basta lembrar que menos de 500 dessas igrejas têm um missionário trabalhando na região da Janela 10-40 e Além, onde vivem 95% dos povos menos alcançados da Terra e menos de 300 mantêm missionários trabalhando entre os povos indígenas do Brasil.
Calcula-se que a cada dia ocorrem em média 7.500 conversões no país, num total de mais de 2.7 milhões por ano. Contudo, a negligência da Igreja Brasileira pode ser vista em próprio solo nacional, pois ainda existem mais de 152 tribos indígenas sem a presença de missionários.
O potencial não explorado
A conclusão lógica é que existe um potencial muito grande ainda inexplorado. Existem pouquíssimas igrejas fazendo muito por missões transculturais, mas a maioria não tem feito nada (ou quase nada) para a evangelização mundial. As pessoas só podem se dispor a fazer algo em prol de missões quando são informadas e desafiadas. Quando isso acontece, surgem milhares de candidatos, inclusive com nível universitário concluído, mestrados e até doutorados, interessados em ser treinados para levar o evangelho aos não alcançados.
Todos esses fatores devem ser levados em conta ao refletirmos sobre o potencial missionário inexplorado da Igreja brasileira, assim como o perfil da nossa cultura, que influencia o modo de ser e pensar de cada crente brasileiro.
As razões porque o Brasil ainda não “decolou”:
1 – Cultura individualista
Existe um adágio brasileiro bastante conhecido que diz: “Cada um por si e Deus por todos”. Este ditado popular revela uma realidade da situação do país, mostrando que cada um quer fazer suas próprias coisas e tem uma grande dificuldade para realizar um trabalho em equipe.
Isso pode ser fonte de problemas, pois infelizmente há pouca unidade no movimento missionário brasileiro e muito se deve a essa cultura individualista. As organizações missionárias poderiam unir os esforços e fazer muitas atividades juntas. Um bom exemplo é que por mais de dois anos fala-se em produzir uma revista que una todas as agências missionárias do país. O custo seria menor e conseguiríamos uma expressão maior para as necessidades missionárias. As missões que já possuem algum tipo de publicação não conseguem aumentar a tiragem, e acabam produzindo uma tiragem pequena que aumenta os custos. O resultado é que a falta de unidade acaba sendo um grande impedimento para a popularização do material de missões, pois as organizações missionárias e igrejas não trabalham juntas para um objetivo comum.
As diferenças denominacionais, principalmente as diferenças existentes entre a forma de trabalhar dos chamados “pentecostais”, “renovados” e “tradicionais”, comprometem o trabalho missionário brasileiro. Se de um lado os membros de igrejas pentecostais valorizam pouco a necessidade de treinamento transcultural e o trabalho de longo prazo, como a tradução da Bíblia para povos não alcançados, por outro lado, os chamados “tradicionais” dão pouca importância a questões como oração e batalha espiritual. Seria maravilhoso se ambos unissem as forças e fizessem um trabalho conjunto para alcançar todas as tribos brasileiras e as regiões do mundo que ainda não têm testemunho efetivo do evangelho.

2 - Cultura Nacionalista ou Etnocentrista
Várias missões latinas têm se vangloriado de ser totalmente nativas. O pensamento brasileiro, incentivado por norte-americanos e europeus é que esta é “a hora do Brasil”. Alguns chegam ao cúmulo de dizer que a hora da América do Norte e Europa já passou. Isso reflete um orgulho ufanista e totalmente descabido. Seria mais sensato pensar que esta é a hora da Igreja como um todo. Precisamos unir as forças do hemisfério Norte e Sul para terminarmos a tarefa da evangelização mundial. A Grande Comissão não foi entregue a uma nação ou continente específicos, mas à Igreja toda, e deve ser estabelecida na face de todo o planeta.
O mundo só vai crer quando formos um. Estas palavras foram pronunciadas na oração sacerdotal de nosso Senhor Jesus Cristo. Creio que esta oração vai ser respondida, mas espero que isso ocorra ainda em nossa geração. O pesquisador Daniel Rickett afirma que nenhuma missão ou igreja pode sobreviver sozinha neste novo milênio. Para as mega-missões, mega-igrejas e as organizações cristãs que ainda estão nascendo, as parcerias interculturais tornaram-se um elemento vital para o sucesso ministerial, principalmente para alcançar regiões “fechadas”, como China, Índia, Norte da África e Oriente Médio. Creio que, mais do que nunca, a força missionária para a evangelização mundial não está apenas nas mãos da Igreja do chamado “mundo dos dois terços”, que inclui África, Ásia e América Latina, mas sim no conjunto total, ou seja, contando com a parceria da igreja do Norte.
3 – Falta de projetos dentro da realidade brasileira
O pesquisador e especialista em estatística George Barna diz que o mundo mudou e que quem não mudar, morrerá. Lembro também de um provérbio africano que diz: “Os cachorros de ontem não caçam os coelhos de hoje”. A lição mais importante que aprendemos com essas declarações é que os métodos do passado não servem para os dias de hoje. Isso também é verdade em relação aos métodos, estratégias, fórmulas e logística da Igreja do hemisfério Norte, que não servem para o hemisfério Sul.
A Bíblia também ensina uma lição semelhante quando relata a indignação do jovem Davi ao ver o gigante Golias desafiando o povo de Israel. O desafio do guerreiro filisteu chegou ao conhecimento do rei Saul e do exército israelense. A primeira providência do rei foi colocar sua armadura pesada no jovem Davi. Isso simboliza a imposição de paradigmas dos poderosos e do uso de métodos pré-estabelecidos. Davi colocou a armadura imediatamente, mas percebeu que era muito pesada e desconfortável para ele. O jovem pastor israelense estava acostumado a lutar e não tinha problemas de auto-estima, por isso disse: “Não posso andar com isto, pois não estou acostumado a fazer as coisas deste modo”. Davi enfrentou o gigante sem usar as armas convencionais do rei Saul e mesmo assim alcançou uma grande vitória, livrando o povo de Israel do exército inimigo ou de uma grande vergonha.
As Escrituras também mostram Davi usando a espada de Golias para cortar a cabeça do gigante. Posteriormente ele voltou a usar a mesma espada em algumas de suas batalhas. A experiência que adquiriu nas guerras fez dele um dos maiores especialistas em batalhas da história de Israel e ele chegou a treinar um dos melhores exércitos que seu povo conheceu.
Em resumo, o modelo bíblico indica que para iniciar um ministério não é preciso usar tantos aparatos, mas a necessidade de uso destes vem com o passar do tempo. As organizações baseadas no hemisfério Norte só enviam seus candidatos com o valor total ideal para irem ao campo. Hoje os missionários latinos podem viver bem com cerca de um quinto do sustento requerido pelos missionários vindos do hemisfério Norte.

4 – A barreira do idioma
Esta é uma grande desvantagem para a Igreja brasileira, que hoje é a terceira maior igreja do mundo em número de membros, atrás somente dos Estados Unidos e China. Poucos líderes nacionais falam inglês fluentemente para se comunicar com líderes internacionais. Em parte, esse é um dos motivos que impede o surgimento de parcerias internacionais mais eficazes, algo vital para o projeto missionário transcultural de levar o evangelho aos povos não alcançados. Por falta de preparo adequado e da fluência em outras línguas, o grande potencial dos missionários brasileiros acaba não encontrando liberdade suficiente para se desenvolver e cumprir o propósito eterno de realizar as boas obras reservadas de antemão a cada um de nós.
Hoje em dia existem cerca de 3.000 brasileiros trabalhando em tempo integral como missionários transculturais. Na média, existe um missionário para mais de 150 mil evangélicos do país. Enquanto isso, a Igreja Indiana, que é muito menor e possui menos recursos financeiros, conta com mais de 27.000 missionários transculturais, nove vezes mais que o Brasil.
Deve-se considerar ainda a situação daquela nação, que tem o grande desafio de alcançar os diversos povos e línguas que vivem em seu próprio território, principalmente no norte do país. São mais de 600.000 vilas e cidades, das quais apenas 100.000 possuem ao menos um obreiro cristão. Uma das vantagens nas parcerias feitas pelas missões indianas é que, por causa da colonização inglesa, a grande maioria dos líderes cristãos fala inglês. Além disso, a maioria dos missionários indianos que deseja trabalhar com etnias não alcançadas pode permanecer em sua própria nação. Porém, a lingual geral (inglês) continua sendo um benefício inegável para aqueles irmãos.
O sistema educacional da América Latina não contribui para um bom aprendizado da língua inglesa nas escolas. Muitas vezes o missionário é mal compreendido quando diz que precisa de recursos para estudar inglês fora do país, o que acelera o aprendizado. É preciso mudar essa idéia equivocada de que o missionário não pode considerar o aprendizado do inglês como parte da sua preparação para a obra missionária.

5 – Cultura Egoísta
Infelizmente, a cultura predominante na liderança evangélica brasileira é egoísta. Somente pensam nos que estão próximos e nas necessidades de suas própria igrejas e/ou denominações. Pesquisas indicam que somente o vergonhoso índice de 1% dos recursos da Igreja no mundo é investido em missões transculturais aos não alcançados. Contra fatos não há argumentos.
Esta realidade é perpetuada na igreja brasileira. As igrejas pentecostais e renovadas, embora sejam conhecidas pelo seu zelo evangelístico, são as que menos contribuem para alcançar pessoas fora do Brasil. A média de contribuição individual para missões transculturais é de apenas R$ 1,30 por ano. Ou seja, cada evangélico brasileiro contribui com menos de um dólar.
O Brasil não é um país tão pobre quanto se pensa. Trata-se de uma das 10 maiores economias do mundo. O problema é uma grande discrepância na distribuição da renda nacional. Merece atenção o fato de que a maioria das igrejas que apóia a obra missionária é pequena. A discrepância na distribuição de renda é refletida nas grandes igrejas, que dividem muito mal a sua arrecadação quando se trata de missões. Centenas de igrejas grandes não têm um programa de investimento mensal na obra missionária, estando mais preocupadas com novas construções e o conforto apenas de seus membros. Para ajudar na avaliação de nível de comprometimento, elaboramos uma escala para medir o envolvimento de uma igreja com missões transculturais. Essa escala não se baseia em valores absolutos, mas sim na proporção do investimento em missões comparado ao total de arrecadação mensal. Com ela pretendemos identificar a distribuição de renda dentro das igrejas brasileiras. O patamar mais baixo é o das igrejas omissas (que investem de 0 a 4% de suas entradas em missões transculturais); o seguinte é o das igrejas passivas (com investimento de 5 a 9%); em seguida vêm as igrejas interessadas (que contribuem com 10 a 19%); chegando até a categoria de envolvidas (20 a 29%). A partir daí, pode-se atingir níveis mais positivos: ser amiga de missões (contribuindo com 30 a 39% de seus recursos), apaixonada por missões (investimento de 40 a 49%), culminando com as verdadeiramente comprometidas com missões (que investem mais de 50%). Até agora só encontramos somente duas igrejas que se enquadrariam nesse último nível. Para os que criticam a necessidade de finanças vindas de fora do país, é bom lembrar que a maioria das igrejas pesquisadas não poderia ser chamada nem mesmo de envolvida com missões.

6 – Medo desmedido da igreja do Norte
As organizações missionárias do hemisfério Norte demonstram um medo desmedido de associar-se com as organizações do Sul. O argumento usado é que se trata de paternalismo. O canadense Oswald Smith percebeu isso e chegou a dizer que: “O nacionalismo se manifesta em quase todos os países, e está dificultando crescentemente a obra missionária. O seu lema é: África para os africanos, Índia para os indianos, e China para os chineses”. Alguns missiólogos baseiam-se em investimentos mal feitos no passado para argumentar que não se deve enviar recursos a nações pobres. Isso vai contra o relato bíblico.
O apóstolo Paulo não era natural da Antioquia, foi para lá a convite de Barnabé e recebeu parte do seu sustento de Filipos. Ele menciona isto de uma maneira especial, dizendo que Filipos foi a única igreja que investiu no seu ministério após ter saído para a Macedônia.
Quando penso nisto, vejo a lição extraordinária que os líderes muçulmanos estão nos dando. Eles enviam obreiros avançados de diversas nações, inclusive de países pobres, que são financiados por países muçulmanos ricos, como Arábia Saudita, Líbia, Catar, Emirados Árabes Unidos e outros.
Podemos imaginar um exemplo baseado no que eles estão fazendo. Levantar 4.500 equipes multinacionais com pessoas do hemisfério Sul (que tem abundância de obreiros interessados) e treiná-las para a tradução da Bíblia nas línguas faltantes. Estas equipes seriam compostas de tradutores, alfabetizadores, evangelistas e enfermeiros financiados majoritariamente por nações ricas. Este trabalho seria feito através de uma parceria em que cada país contribuiria proporcionalmente com o salário mínimo vigente em território nacional. Isto seria uma revolução que ajudaria a concluir uma das tarefas mais difíceis da obra hoje, que é a tradução da Bíblia para todas as línguas. Se algo parecido não for feito urgentemente, o alvo proposto pela Visão 2025, de ter um tradutor da Bíblia em cada língua até o ano 2025 será apenas mais um sonho lindo das organizações missionárias.
Creio que já chegou a hora de superarmos os modelos vigentes e nossos medos, pois a Igreja do Senhor é feita de muitas partes. Deus distribui dons especiais para a edificação do corpo. A natureza da Igreja é que cada parte distinta deve fazer o seu trabalho de maneira única. Portanto, para que ocorra a expansão da Igreja precisamos de mais obreiros, mais oração, mais contribuições financeiras e mais cuidado pastoral realizados em parceria. Somente assim faremos com que a dinâmica do reino se estabeleça. Um bom livro que aborda essa maneira de trabalhar conjuntamente foi escrito por Daniel Rickett e tem o sugestivo título “Building Strategic Relationships – A Practical Guide to Partnering With Non-Westerner Missions” (Construindo Relacionamentos Estratégicos – Um guia prático para as parcerias com as missões não ocidentais). Infelizmente não dispomos desse material em português, mas ele traz contribuições valiosas, segundo a perspectiva de um membro da Igreja do hemisfério Norte.
K. P. Yohannan, um líder de missões indiano que mora nos Estados Unidos, faz algumas observações importantes sobre essa questão:

Cristãos norte-americanos sozinhos, sem muito sacrifício, podem suprir financeiramente todas as necessidades das igrejas no terceiro mundo. Por que nós não podemos gastar pelo menos um décimo do que usamos para nós mesmos na causa da evangelização mundial? Se as Igrejas dos Estados Unidos sozinhas tivessem feito este comprometimento em 1986, haveria 4.8 bilhões de dólares disponíveis para a evangelização mundial. Se a abundância dos americanos me influenciou, a abundância dos cristãos me influenciou mais ainda! Nos Estados Unidos existem 5.000 livrarias evangélicas que vendem artigos religiosos que ultrapassam minha capacidade de imaginação. Tudo isso enquanto mais de 4.000 das 7.148 línguas do mundo ainda estão sem uma única porção da Bíblia na sua própria língua. 80% das pessoas do mundo nunca possuíram uma Bíblia, enquanto os americanos têm em média quatro Bíblias por residência.

Se a igreja do Senhor que está no Norte não fizer a sua parte neste processo de parceria, estará omitindo os dons que o Senhor lhe tem dado para contribuir para a expansão do Reino.
Spencer Johnson, autor do best-seller Quem Mexeu No Meu Queijo?, enfatiza a necessidade de mudança de paradigmas em várias áreas da vida. Ele reforça a afirmação categórica do pesquisador cristão George Barna: “Quem não mudar, morrerá”. Vemos a necessidade de mudança de pensamento da Igreja do hemisfério Norte em relação a parcerias com a igreja do Sul, principalmente com as igrejas do Brasil e América Latina. O fato de brasileiros receberem apoio financeiro não os torna dependentes de um país, mas sim da providência de Deus, concretizada pela sua Igreja espalhada pela Terra.
Poderia citar como exemplo, entre vários na América Latina, um casal que investiu dez anos de sua vida no preparo para se tornar tradutor da Bíblia. Eles foram aprovados por sua denominação para ser missionários, mas o maior desafio que têm enfrentado é levantar o sustento integral. Chegaram a pensar que desenvolvendo um ministério local facilmente teriam o sustento depois de algum tempo, o que não aconteceu. No entanto, o ministério vital a que eles se propuseram continua com falta de obreiros única e exclusivamente por não termos estrategistas na área de missões que apresentem propostas concretas para uma mudança de atitude. Se houvesse uma parceria com a Igreja do Norte, exemplos como estes deixariam de existir e a força missionária aos não-alcançados poderia ser multiplicada facilmente em mais de 100 vezes.

Edison Queiroz, um experiente pastor e mobilizador de missões transculturais, que pastoreou a 1ª Igreja Batista em Santo André – SP (que foi um modelo em missões nos anos 80), baseado em sua experiência nos EUA, nos traz as seguintes observações:
1. A Igreja Americana está muito voltada para si mesma. Há um movimento de formar mega-igrejas, onde os ministérios são voltados e especializados para as pessoas que vivem ao redor da igreja e o enfoque é somente alcançar a cidade.

2. Os americanos não crêem no potencial dos estrangeiros. Eles não consideram que as pessoas alcançadas no campo podem tornar-se missionários.

3. Eles têm muito dinheiro, e quando investem no campo querem controlar excessivamente as ofertas.

4. Alguns têm muitas tradições quanto à obra missionária que precisam ser quebradas. Por exemplo, a necessidade de ter doutorado para poder ir ao campo, excesso de benefícios para os missionários, etc.

5. O denominacionalismo aqui também é exacerbado. Poucas denominações fazem parcerias com outras e também com agencias missionárias.

6. Existe também o problema cultural, com uma forte tendência a olharem outras culturas como inferiores

7. Tudo isto sem contar todo o background político que tem sido um grande impedimento também.

7 – Tradicionalismo
O tradicionalismo tem feito que os trabalhos realizados à maneira latina sejam criticados por lideranças conservadoras. Isto tem prejudicado o aparecimento de trabalhos genuinamente latinos. Se quisermos ver latinos chegando aos não-alcançados em grande quantidade, precisamos apoiá-los. A maioria das escolas de treinamento ainda copia currículos de instituições do Norte e procuram impor essa “fórmula” aos latinos.
Aqui, uma vez mais, somos remetidos ao relato bíblico referente a Davi, filho de Jessé, no campo de batalha. Todos viram sua coragem e desejo de enfrentar o incircunciso Golias. Assim, a primeira coisa que fizeram foi oferecer-lhe uma armadura pesada que impedia seus movimentos. Sua reação natural foi rejeitá-la. Quando agiu do modo como estava acostumado, sem a armadura, o resultado foi a vitória do povo de Israel num momento crucial de sua história. Davi não ficou preso à tradição e guardou a espada do gigante morto. Posteriormente, usou outras vezes a espada que conquistara até ficar tão acostumado com o manejo dela que chegou a treinar outros soldados. Os homens de Davi formaram o melhor exército da história de Israel. Do mesmo modo, precisamos dar liberdade para os latinos desenvolverem-se aprendendo com seus próprios erros e acertos. Antigamente, missionários estrangeiros acabavam assumindo todas as funções e treinavam poucas pessoas para substituí-los. A proposta agora é acabarmos com esse tipo de tradição humana que não desenvolve todo o potencial dos candidatos. Vemos, então, que a questão financeira é apenas um aspecto da cooperação, que inclui ainda treinamento de qualidade e trabalho conjunto.

8 – Diferenças culturais
A forma de atuar dos brasileiros é bem diferente da dos povos do Norte. Os brasileiros são mais orientados para o trabalho com pessoas do que com tarefas. Isso já está mudando nas grandes cidades. Mesmo assim, essa característica é muito importante, pois esse é justamente o perfil da maioria dos povos não-alcançados da Terra.
Creio que, com um bom treinamento, poderemos ver equipes mistas, compostas de latinos, europeus e norte-americanos trabalhando juntos para expansão do Reino na face da Terra. Creio que é hora de as organizações investirem não só nos missionários que já estão no campo, mas também no treinamento daqueles que um dia servirão à causa do Senhor.

9 – Cultura da Infidelidade
Infelizmente, a cultura normal do brasileiro é não cumprir com os compromissos assumidos, o que não implica numa punição visível. Os missionários que dependem de promessas de crentes têm ficado frustrados, decepcionados e muitos deles até mesmo amargurados. O quadro não é muito diferente com as igrejas. Muitas delas enviam seus candidatos com um compromisso assinado, algumas vezes registrado em atas, e o resultado acaba sendo desanimador, pois não raro as promessas não saem do papel.
A mudança de pastor, construção de um templo, método de trabalho da igreja ou uma crise financeira pode ser um argumento forte o suficiente para cortar o sustento do missionário. Assim, o missionário acaba sendo visto como algo descartável ou até mesmo supérfluo. Na maioria das vezes essas mudanças ocorrem sem tempo hábil para um planejamento ou comunicação prévia com o missionário, que pode acabar forçado a abandonar o campo.
Fizemos uma pesquisa com um cadastro de 20.000 pesssoas que assinaram um cartão de compromisso de sustento. Os números mostram que a média dos mantenedores fiéis a seu compromisso é de apenas 5%. Vale lembrar que esses compromissos são assinados. Este não é um quadro verificado apenas por nós, mas podemos dizer sem medo de errar que, de uma forma ou de outra, todas as agências sofrem com essa falta de fidelidade. Conversei sobre isso com um líder de outra organização missionária e ele me disse que eles têm trabalhado arduamente na área de fidelização, no entanto somente o mesmo percentual de 5% na fidelidade dos compromissos assumidos é alcançado.

10 – Denominacionalismo exagerado
Quando se pensa em missões transculturais aos povos não alcançados, é preciso deixar o denominacionalismo exagerado de lado. O trabalho missionário deve ser feito em conjunto em várias frentes.
Somente o trabalho missionário pode unir a Igreja, pois é uma das poucas questões que não gera polêmicas teológicas. Jesus nos alertou que o mundo somente vai crer quando formos um. Muitos líderes preocupam-se em colocar uma placa denominacional acima de tudo. Contudo, eles nem imaginam que em alguns lugares é impossível exibir publicamente o nome da igreja evangélica. Isso sem falar no escândalo que é para algumas culturas verem dois ou mais grupos criticando abertamente um ao outro.
Como seriam nossas igrejas se os missionários que aqui chegaram tivessem a mesma visão? Hoje seríamos meras congregações das igrejas do hemisfério Norte. Há muitas igrejas interessadas em ver suas “extensões” nos países do hemisfério Norte, especialmente entre a comunidade de brasileiros que vivem como imigrantes nos países ricos. Infelizmente, poucas igrejas rompem com esse pensamento e trabalham juntas pela extensão do Reino e não por uma expansão denominacional. Por causa disso, os números mostram que menos de 0,2 % das igrejas brasileiras tem um missionário trabalhando entre os povos não alcançados.
Olhando para as Escrituras, não há indícios de que os apóstolos deveriam ficar permanentemente em Jerusalém e governar a Igreja. Tampouco havia o conceito difundido hoje em dia por certos grupos de que “apóstolo” é o líder principal de um grupo de igrejas. Paulo nunca manteve um controle dominador “apostólico” das igrejas implantadas por ele.

11 – Cultura do retorno financeiro
Por que investir num tradutor da Bíblia para uma língua que ainda não dispõe dela e cujos falantes não conhecem a escrita? Isso não traz retorno financeiro e implica em grande investimento a longo prazo. Essa é a idéia mais comum no contexto brasileiro. Dificilmente lembramos que João Ferreira de Almeida começou a tradução da Bíblia para o português aos 16 anos de idade e morreu sem vê-la concluída.
É impressionante ver o relato de como a Bíblia foi traduzida para a língua tibetana. Foram 90 anos de trabalho árduo e os missionários morávios que começaram o trabalho não o viram ser concluído. A determinação daqueles que se dispõem a ser pioneiros é admirável.
Quando se investe em um obreiro nacional para implantar uma igreja onde já existem muitas outras, o resultado geralmente é rápido. Logo se estabelece uma congregação que muitas vezes envia todos os recursos para a sede. Manter um missionário em campos não-alcançados é caro e dá muito trabalho. Esquecemos daqueles que pagaram o preço para trabalhar em nossa pátria, deixando sua família, cultura e igreja para que nós tivéssemos acesso ao evangelho.
Há missionários sendo enviados para lugares onde a comunidade brasileira é forte, principalmente onde há um retorno financeiro rápido, pois almejam alcançar os imigrantes que buscam melhores oportunidades de ganho financeiro. A questão é: por que não existe um investimento proporcional para se alcançar os confins da Terra, principalmente aqueles que nunca ouviram uma vez sequer a mensagem do evangelho? Acaba existindo uma confusão na cabeça de muitas pessoas sobre o que realmente é um trabalho missionário transcultural.
Todos os obreiros no reino de Deus são levitas e por isso deveríamos ver o princípio bíblico ser aplicado. A tribo dos levitas recebia 110% de ofertas. A contribuição era 10% de cada uma das outras 11 tribos, que retinham 90%. Este quadro foi mudado e quando foi instituído o dízimo dos dízimos os levitas passaram a ficar com 99%. Mesmo assim recebiam 10% a mais do que as demais tribos. A questão é: “Até que ponto os levitas de hoje são somente os músicos, como pregam muitas igrejas?”
É impressionante ver que os salários dos missionários transculturais parecem ser cortados e diminuídos por qualquer motivo, enquanto o mesmo não acontece com os salários pastorais. No conceito da maioria das igrejas brasileiras, o missionário é visto como uma pessoa de segunda categoria ou um extraterrestre. Essa atitude precisa ser mudada, e para isso é necessário eliminarmos essa cultura do retorno financeiro.
O “normal” para muitas igrejas brasileiras é fazer campanhas para ajudar os missionários. Geralmente elas só conseguem arrecadar artigos que não têm mais nenhuma utilidade, coisas já desgastadas e que dificilmente podem ser usadas pelos missionários. A idéia predominante é de que os missionários são pessoas que não “deram certo” na igreja e por isso são vistos como uma espécie de “cidadãos de segunda classe”

12 – Barreira Financeira
A distância geográfica entre o Brasil e os povos não-alcançados da Ásia, Oriente Médio, Norte da África e Sahel é muito grande, o que gera maiores necessidades financeiras. Vejamos um exemplo prático: o custo de uma passagem aérea para um britânico visitar um país africano como o Níger corresponde a menos de um salário mínimo da Inglaterra. Enquanto isso, para um brasileiro voar até o Níger o custo é de aproximadamente oito salários mínimos do Brasil. Ou seja, um britânico precisaria trabalhar menos de um mês para viajar, enquanto o missionário brasileiro necessitaria dedicar-se a quase oito meses!
O salário mínimo mensal no Brasil é de aproximadamente 340 dólares americanos. A metade da população brasileira recebe menos de dois salários mínimos por mês. A logística e estratégia para manter um missionário na região dos povos menos alcançados do mundo é caríssima. O líder de uma missão brasileira foi desafiado para o trabalho da China, que tem 490 etnias não alcançadas e cerca de 320 milhões de pessoas que nunca ouviram do evangelho. Ele apenas disse: “Não temos interesse na China porque fica distante e não temos estrutura para dar o cuidado missionário”. Eu disse isso ao líder de uma missão da China e sua resposta foi: “Será que Deus continuará distante dos chineses por causa disso?”
Sem pessoas como o apóstolo Paulo, Hudson Taylor, David Linvigstone, William Carey, Adoniran Judson, Daniel Berg, Gunnar Vingren, William Bagby, Ashbel Simonton, Nájua Dib e Ronaldo Lidório, o que seria de nós e de tantos outros povos? Mas quando lemos sobre a vida desses e de outros homens de Deus, jamais vemos que dinheiro foi uma barreira intransponível, pois o Senhor sempre levantava pessoas para ajudá-los na questão financeira. Dinheiro não pode ser um impedimento para a continuação da obra.
13 – Concentração de Poder
O sistema das igrejas evangélicas prioriza a entrada de recursos econômicos e não os feligresses. Prova disso é que onde existe retorno financeiro abundante e rápido há uma concentração de igrejas em detrimento dos lugares onde a população é mais pobre.
O Movimento Brasil 2010 tem trabalhado para ver este quadro mudado. Eles realizam pesquisas sobre a realidade religiosa do país com o objetivo de mostrar aos pastores a desproporção na distribuição das igrejas, visando, assim, uma alocação mais eqüitativa de obreiros até o ano 2010. O alvo é ver uma igreja implantada para cada 1.000 habitantes da nação brasileira.
Uma estatística publicada pelo movimento mostra o exemplo de São Caetano do Sul, no estado de São Paulo. Essa cidade briga com Brasília pelo primeiro lugar em renda per capita da nação brasileira. Existem mais de 60 igrejas em somente 15 quilômetros quadrados. Como resultado dessa pesquisa, um pastor deixou uma cidade do interior paranaense para se mudar para São Caetano do Sul!
Quando olho para fatos como este, me admira a pouca atenção dada os desafios da Turquia, por exemplo, país com 70 milhões de pessoas e menos de 2.000 crentes. Em metade dos estados daquela nação não há nenhum obreiro. O que motiva um crente a ir morar onde já existem muitos outros cristãos? O certo não seria as pessoas desejarem levar o evangelho para as regiões onde existem poucos ou mesmo nenhum crente?

14 – Liderança centralizadora
Na América Latina, principalmente no Brasil, a maioria das igrejas segue o modelo de uma igreja-sede com várias congregações. Isso parece ser herança do sistema católico, onde uma diocese controla várias paróquias.
A maioria da liderança das igrejas no Brasil não é participativa, mas sim dominante, seguindo o modelo dos caudilhos. O quadro é o mesmo em toda a América Latina, África e muitos países asiáticos. Infelizmente, a maioria desses líderes não tem demonstrado amor e compaixão pelos povos não alcançados.
Pedi a uma missionária para fazer uma pesquisa com os missionários da Horizontes para ver quantos deles foram influenciados por seus pastores para irem aos povos não alcançados. Chegamos à impressionante estatística de que 95% deles não foram incentivados, orientados ou desafiados por seus pastores. O mais estarrecedor de tudo é que vários destes pastores na verdade tentaram dissuadi-los a não aceitarem os desafios dos povos não-alcançados e negligenciados pela igreja. A Horizontes somente recebe os candidatos com o apoio de suas igrejas, por meio de uma carta de apresentação. Portanto, é possível imaginar que a primeira batalha do candidato começa com quem deveria apoiá-lo.
Os líderes principais das sedes não dão nenhuma autonomia às congregações. Então, se tais congregações têm um candidato a missões, ele não pode ter apoio financeiro, pois estará desviando o dinheiro da sede. A realidade é que o investimento per capita do Brasil em missões transculturais é o irrisório valor de apenas R$ 1,30 por ano. Como brasileiro, tenho orado para que os pastores presidentes tenham visão, revelação, sonhos, teofanias ou uma palavra do Senhor para que invistam em missões transculturais.
Também tenho orado e incentivado outros a orar para que o Senhor chame os filhos destes pastores presidentes e empresários para missões transculturais, pois sei que se eles forem aos campos não-alcançados não lhes faltará sustento e poderão influenciar seus pais a mudarem a atitude com relação a missões. Se cada uma destas igrejas investisse somente 10% de suas entradas em missões, ocorreria uma revolução extraordinária jamais vista na história da Igreja.

15 - Cultura espiritual
Os discípulos conviveram com o Mestre por mais de três anos aqui na Terra. Todos os dias ouviam Jesus lhes ensinando as Escrituras e mesmo assim não as entendiam. Finalmente, o Senhor abriu o entendimento deles para que pudessem compreender as Escrituras, como vemos em Lucas 24: 45-48. O objetivo da ida de Jesus para a cruz era resgatar todos os pecadores para a glória de Deus. Ele cumpriu a sua parte, completou cabalmente a sua missão, e depois passou a tocha aos discípulos, dizendo: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (João 20: 21b). Essa tarefa deveria começar por Jerusalém. Muitos têm ensinado que a Jerusalém simboliza a nossa cidade. É preciso lembrar que os discípulos remanescentes não eram naturais de Jerusalém. Eles eram da Galiléia. O único cidadão da região de Jerusalém foi Judas, o traidor.
O ensino do Senhor era que as pessoas, quando se convertiam, deveriam ir primeiro aos seus. Após receberem a preparação do Mestre sobre a Grande Comissão, a visão passada a eles era alcançar todos os povos, tribos línguas e nações. A conclusão óbvia é que deviam ir a Jerusalém porque lá todas as nações do mundo estariam representadas. Isso sempre ocorria na festa de Pentecostes, que naquele ano foi marcada pela descida do Espírito Santo.
Os renomados pastores e escritores Andrew Murray e Oswald Smith enfatizavam em seus dias que o maior obstáculo para missões são os próprios pastores. Isso não é diferente em nossos dias.
Posso relatar casos que envolvem vários missionários. Eles constantemente visitam igrejas com o objetivo de levantar os recursos para as passagens ou sustento. Vários pastores aproveitam para levantar ofertas fazendo um apelo dramático para que os crentes dêem tudo o que puderem para a obra missionária e o missionário presente ali. Ao final do culto, alguns desses pastores nem procuram o missionário, enquanto outros dão apenas o dízimo da oferta recolhida. São raros os pastores que demonstram fidelidade quando se trata de ofertas. Conforme afirmavam Andrew Murray e Oswald Smith trata-se de um problema espiritual.
Se queremos ver um avivamento missionário nesta nação, devemos orar para que o Senhor abra o entendimento da liderança da Igreja brasileira e eles possam ver além da sua própria região ou paróquia. Que eles possam ter a mesma visão de John Wesley, que disse: “A minha paróquia é o mundo”.

Conclusão
Muitos líderes nacionais e estrangeiros têm profetizado que o Brasil é um “celeiro de missões”. Isso é verdade, pois trata-se de um celeiro cheio. Mas ele não terá serventia se não for usado para alimentar os povos menos alcançados pelo evangelho. Uma frase do hino nacional brasileiro afirma que o país está “deitado eternamente em berço esplêndido”. Isso também poderia ser aplicado a este país “gigante pela própria natureza” quando se trata de missões transculturais. É preciso despertar o “gigante” de seu “berço esplêndido” e mostrar que ele é também “belo, forte, impávido colosso”.
Para que isso aconteça será preciso empregar uma força descomunal. Esta força terá que vir de um cordão de três dobras , formado pela parceria entre a igreja estabelecida no Norte, a igreja do Sul e o Senhor Jesus. Somente trabalhando juntos, em espírito de oração, poderemos ver o potencial missionário do Brasil ser plenamente desenvolvido.
O pastor e líder político Martin Luther King Jr afirmava que: “Esperar que Deus faça tudo enquanto não fazemos nada não é fé, é superstição”. Este esforço tem que ser urgente, pois esta é a época de colheita, em que os adolescentes e jovens estão interessadíssimos em entregar sua vida para a propagação do evangelho entre os não alcançados. Estes jovens brasileiros e latinos que estão sendo recrutados, treinados e enviados aos povos não-alcançados podem viver com um valor 20% menor do que um norte-americano gastaria. Isso sem falar na maior facilidade que os latinos têm de ser aceitos pelo povo local
Creio que se não houver um grande esforço de recrutar, treinar e enviar este contingente o quanto antes, a colheita pode ser perdida. Este esforço tem que ser gigantesco, proporcional ao tamanho do Brasil, que tem dimensões continentais. Para efeitos de comparação, constata-se que o Brasil é maior que toda a Europa e o Leste Europeu juntos. Assim, o planejamento de investimento tem que ser pensado dentro de uma perspectiva continental.
Gostaria de concluir este artigo apresentando alguns passos práticos para que ocorra uma mudança verdadeira neste quadro.

1 - Devemos criar um movimento nacional de oração para que o Senhor abra os olhos e corações da liderança brasileira para os povos não alcançados. Uma boa maneira de divulgar isso seria produzindo bons vídeos, DVD’s, CDs e livros para despertar pessoas para a realidade de missões. Eles deveriam ser baratos e de fácil acesso, talvez com custo subsidiado. No Brasil alguns livros de missões têm uma tiragem de apenas 1.000 exemplares. Precisaríamos que fossem dezenas de milhares. Essa tiragem pequena encarece os livros e torna seu acesso restrito a uma elite com bom poder aquisitivo. O ideal seria popularizar livros, vídeos e CDs como fez o alemão Martinho Lutero durante a Reforma, que espalhou a Bíblia e seus escritos em seus dias. Levando em conta a experiência que temos com nossa editora, é possível dizer que sem apoio do exterior, muitos bons livros de missões nunca serão publicados em português.

2 – Há uma necessidade premente de que líderes brasileiros aprendam o inglês, assim como também seria oportuno que os líderes de organizações internacionais aprendessem o português. Além disso, ambos poderiam procurar aprender a cultura um do outro. Isto pode ajudar no relacionamento que multiplicará a força brasileira e latina em direção aos não alcançados. Parceria é, acima de tudo, relacionamento.

3 – As organizações que têm mais recursos poderiam destinar uma boa percentagem deles para sustentar os que desejam ser treinados e enviados aos não alcançados. O maior obstáculo para os candidatos brasileiros em missões transculturais ainda é levantar os recursos para o treinamento e depois levantar o sustento completo para se manterem no campo. Esse problema poderá, creio eu, ser solucionado com parcerias fortes. A cada real ou dólar levantado por um candidato brasileiro, a organização parceira do Norte poderá levantar um valor correspondente, o que dobraria o sustento do candidato.
Para citar um bom exemplo, Waldemiro Tymchak, ex-diretor executivo da Junta de Missões Mundiais dos batistas brasileiros, disse que tinha mais de 300 candidatos para serem treinados e enviados. Porém, os recursos da JMM não são suficientes para atender à grande demanda de candidatos. Imagine se uma convenção estrangeira aceitasse o desafio de fazer uma parceria e levantar a metade dos recursos de 100 candidatos. Depois, se esse exemplo fosse imitado por países como Estados Unidos, Canadá, Finlândia, Suécia ou Alemanha, o resultado seria 300 novos obreiros treinados e enviados para missões transculturais.
Outro projeto que devemos investir em missões é formar tradutores da Bíblia. É impressionante e vergonhoso constatarmos que em pleno século XXI ainda existam mais de 2.000 línguas sem nenhuma porção da Bíblia. Enquanto isso, existem muitos candidatos interessados, aprovados e cadstrados, mas que não possuem o sustento mínimo adequado para o treinamento.
Se conseguirmos fazer isso, alcançaremos o alvo proposto pela Visão 2025, que visa ter um projeto de tradução da Bíblia em andamento em todas as línguas que ainda não o possuem até o ano 2025.

4 – As organizações interdenominacionais enxutas, que não sobrevivem das taxas de administração cobradas de seus missionários, têm um grande desafio: levantar recursos para construir estruturas para Centros de Treinamento Transcultural. As igrejas brasileiras não têm a visão de investir em Centros de Treinamento interdenominacionais. Isso tem impedido o aparecimento de mais organizações dedicadas ao treinamento de missionários. As organizações brasileiras já existentes precisam ser apoiadas por outras organizações do Norte que compreendem melhor que investimentos como esse são vitais para a expansão do reino de Deus.
Tudo o que foi feito até o momento por organizações interdenominacionais brasileiras é fruto de um esforço descomunal dos obreiros e muita criatividade das lideranças para dar conta do recado. Isso tem consumido muito esforço de mobilização e treinamento e drenado muito da energia dos obreiros. Dividindo nossas forças, ficamos impossibilitados de dedicar-nos à conscientização missionária da igreja brasileira e desenvolvermos as áreas de logística, estratégia, recrutamento, treinamento e cuidado do missionário no campo.
Se tivermos um bom planejamento, estratégia, logística, um investimento maciço e um trabalho bem feito nas áreas emblemáticas, poderemos inverter o quadro atual. Reiteramos que nas atuais circunstâncias isso só poderá ser feito em parceria com os irmãos do hemisfério Norte. Esta é a hora de parcerias. Somente juntos poderemos mudar a história de missões.
Termino lembrando a experiência de Oswald Smith, que foi pastor da Igreja dos Povos em Toronto, no Canadá, que chegou a sustentar 800 missionários em seus tempos áureos. Em um de seus livros ele narra a seguinte história:

Aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. A França havia se rendido aos alemães. Os Estados Unidos ainda não haviam entrado na guerra. A Grã-Bretanha estava resistindo sozinha, de costas contra a parede, esperando a invasão iminente. Sir Winston Churchill, o primeiro-ministro inglês, resolveu falar diretamente ao povo norte-americano. Eu guiava numa auto-estrada, tendo ao lado minha esposa. Encostei o carro no acostamento e desliguei o motor, a fim de não perder nem uma só palavra de Churchill. O rádio do carro estava sintonizado na BBC de Londres. O primeiro-ministro inglês falou apenas dois ou três minutos, porém declarou algo de que eu jamais me esqueceria, desde aqueles dias até hoje. Sir Winston Churchill, dirigindo-se ao povo norte-americano disse: “Dê-nos as ferramentas, e nós terminaremos o trabalho”.

Parafraseando as palavras de Sir Winston Churchill, afirmo que sem parcerias será impossível alavancar as missões transculturais na igreja brasileira e aproveitar o potencial existente. Em contrapartida, se tivermos as ferramentas, junto com a igreja do Norte, poderemos despertar este gigante e tirá-lo do berço esplêndido onde se encontra e assim terminaremos a tarefa a nós encomendada de fazer discípulos de todas as nações.

David Botelho

Notas bibliográficas


PATRICK JOHNSTONE e JASON MANDRICK, Intercessão Mundial. Monte Verde: Horizontes, 2002, p. 134.
PATRICK JOHNSTONE e JASON MANDRICK, Intercessão Mundial. Monte Verde: Horizontes, 2002, p. 171.
Jeremias 4.19
Efésios 2.10.
PATRICK JOHNSTONE e JASON MANDRICK, Intercessão Mundial. Monte Verde: Horizontes, 2002, p. 130.
Revista Visão Global – Ampliando os Horizontes. Monte Verde: Horizontes, 2004, p. 86.
João 17. 21-23
DANIEL RICKETT. Building Strategic Relationships – A Practical Guide to Partnering With Non-Westerner Missions. Enumclaw: Wine Press, p. 11.
Revista Visão Global – Ampliando os Horizontes. Monte Verde: Horizontes, 2004, p. 86.
Conforme os relatos de 1 Samuel
Efésios 2.10
Revista Visão Global – Ampliando os Horizontes. Monte Verde: Horizontes, 2004, p. 87.
Revista Visão Global – Ampliando os Horizontes. Monte Verde: Horizontes, 2004, p. 94.
OSWALD SMITH, O Clamor do Mundo. São Paulo: Vida, 2003, p. 64.
Filipenses 4.15
1 Coríntios 12. 12-27.
K. P. YOHONNAN, Revolution in World Missions. Carrolton: GFA Books, 2003.
João 17.21-23
Revista Visão Global – Ampliando os Horizontes. Monte Verde: Horizontes, 2004, p. 86.
Números 18.26
Lucas 24. 45-48
Eclesiastes 4.12
OSWALD SMITH, Evangelizemos o Mundo. São Paulo: Vida, 2003, p. 18.