"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

domingo, 13 de fevereiro de 2011

SOBRE A DOR


Bráulia Ribeiro

Enquanto o fagote avança no lúgubre primeiro movimento da Sinfonia 6 de Tchaikovsky, a melodia da dor vai se desenhando. A vida ainda se debate na valsa propositalmente desequilibrada do segundo movimento e na marcha do terceiro. Vida à procura de sentido, de equilíbrio. A vida na dor finalmente cede à morte no quarto movimento e vai se esvaindo até o silêncio.

Picasso brinca com o rosto humano e o descobre torto, desconexo. Então pinta “Guernica”, o quadro da dor da guerra, no qual homens e animais, aos pedaços, se debatem no lençol negro da incompreensão. O sol é uma lâmpada sem força. Não há outra expressão além da dor soberana, e as gentes que se entregam à morte. A dor transforma o homem; porém, ainda bela, nos comove e vai comover as gerações que virão.


Na intensa prova do Ironman em Kona, os corpos perfeitos das primeiras horas da chegada dão lugar à beleza da resistência. Os triatletas renomados chegam oito horas depois do início. Porém, não são eles os heróis. Até à meia-noite, dezessete horas depois do início da corrida, os vitoriosos são esperados. Alguns chegam mancando, mal conseguindo caminhar; outros, correndo com as forças finais que não sabiam que tinham. Coloco-me num lugar escuro do percurso, antes da virada dos últimos quatro quilômetros, e com a voz embargada grito “você vai chegar!” para o para-atleta com pernas mecânicas em cima de lâminas, ou para a velhinha claudicante. A pintura no chão diz: “compromisso são 260.3 quilômetros”. Eles finalmente passam pela chegada em estado de êxtase. O cansaço e a dor como uma droga os impulsionando para frente. Alguns desmaiam, vomitam. A voz do locutor grita: “Sandra Smith, de 58 anos, você é um Ironman!”. E ali, na intensidade da dor do máximo esforço, eles sabem que venceram.


O importante no Ironman não é chegar primeiro. É simplesmente chegar. Cada um vencendo a si mesmo. O sobrevivente do câncer, o jovem que perdeu as pernas, a mulher obesa que perdeu quarenta quilos, o pai que perdeu o filho. Todos são campeões e celebrados como tais. E todos sabem que sem dor na vida não há vitória.


Muitos creem em um Deus compatível com a dor. Seu plano superior justifica tudo e a dor como um mal menor cede lugar à glória do final, a glória inescrutável do divino que triunfará. Deus está no meio da dor. Porém, ele não se alegra nela nem a planejou. A Bíblia não nos mostra um Deus impassível, mas o inspirador da “Guernica”. Seu coração se contorce em dores, diz o profeta chorão ao descrevê-lo. Vem o Filho e encarna a descrição profética mostrando-nos o rosto, o corpo, o coração da dor na cruz. Não há dor maior do que a da rejeição suprema àquele que era o amor supremo.


Como o Deus da cruz pode ser impassível? Mel Gibson criou no filme “A paixão”, a teologia visual do sofrimento. “Em toda a angústia deles, foi ele angustiado” (Is 63.9). A dor que a humanidade se autocausou em sua rebelião, sempre foi dele também. Todo o universo sofre nosso pecado. Porque Cristo dói, a dor humana é bela como a Sinfonia 6.


Certa amiga perdeu dois de seus três filhos. Encontro com ela depois da morte do segundo, muda, sem saber o que dizer. Ela se queixa do abandono. Ninguém a visita. Além dos filhos, perdeu os amigos. A morte incomoda. Ela diz que as pessoas não sabem como se portar diante da dor que ela carrega e se afastam. Até os cristãos têm medo do contágio da dor, como uma lepra. -- “Por quê? A dor é minha, não é deles”, ela diz. -- “Não, amiga. Ela é de todos”. Mas um dia, como os Ironman, cruzaremos com dor a linha de chegada para contemplar a vitória de estar com ele.



• Bráulia Ribeiro trabalhou na Amazônia durante trinta anos. Hoje mora em Kailua-Kona, no Havaí, com sua família e está envolvida em projetos internacionais de desenvolvimento na Ásia. É autora de Chamado Radical.

braulia.ribeiro@uol.com.br

http://www.ultimato.com.br/revista/artigos/327/sobre-a-dor

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OS 10 MAIORES DESAFIOS DA ASIA


“E me esforcei para anunciar o Evangelho onde Cristo nunca fora anunciado”. Rom. 15.20

O texto acima traz a visão ministerial paulina, que é de sempre ir onde o evangelho ainda não fora anunciado, e isto para não edificar sobre fundamento alheio. O contraste hodierno é a proliferação de igrejas onde se concentra a maioria dos recursos econômicos. A realidade brasileira comprova isto, pois abandonamos as tribos indígenas que tem 151 tribos sem um obreiro sequer, o sertão nordestino e os povos ribeirinhos. Agora tente imaginar o grande desafio de levar os cristãos brasileiros a amarem os povos menos alcançados da terra que estão distantes dos nossos olhos!!!

É interessante perceber o contexto da passagem em que o apóstolo Paulo menciona que já iria para outro lugar, pois havia concluído a tarefa de evangelizar as quatro províncias do Império romano – Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia proconsular –, desde Jerusalém até a atual Bósnia, e isto em apenas 10 anos de trabalho árduo e em diferentes contextos culturais.

Desejamos compartilhar os dez maiores desafios sobre a tarefa inacabada da Ásia e esperamos que possa sensibilizar o seu coração, mente e espírito para que venha a se associar conosco para juntos ver parte desse quadro mudado ainda nesta década.



1 – Mais de 81% dos quase cinco bilhões de pessoas não cristãs vivem nesse continente.


2 – Possui 85% das pessoas menos evangelizadas, nove dos dez países menos evangelizados com as maiores populações. Somente na China tem aproximadamente 320 milhões que nunca ouviram nada de Jesus; e das 600 mil cidades e vilas da Índia, 500 mil não têm um obreiro sequer.

3 – Presença dos três maiores blocos religiosos não cristãos: islamismo, hinduísmo e budismo; eles são os maiores desafios para os cristãos. São em torno de 1,1 bilhão de muçulmanos, 950 milhões de hindus, e entre 500-900 milhões de budistas.

4- O Projeto Josué mostra 16.350 povos etno-linguísticos. Dos 6.648 menos alcançados da lista, 5.150 são asiáticos. O desafio da tradução bíblica é muito grande, pois das mais de 2 mil línguas que precisam de tradução no mundo, mais de 40% delas estão na Ásia.

5 – A Janela 35-45 ou Janela Túrquica – povos de origem turca que se espalham desde a Bulgária até o Oeste chinês, onde se encontram os povos muçulmanos Uigers e Huis. Além dos povos árabes e iranianos.

6 - Desastres ecológicos – A região tem sido afetada por grandes terremotos, vulcões, secas, ciclones, tsunamis e enchentes que tem ceifado milhões de vidas, e levado outras a ficarem desabrigadas, necessitando de muitos obreiros para prestação de ajuda humanitária e em todas as áreas da vida.

7 – Tráfico. O tráfico tem sido uma forma ilícita de obtenção de recursos financeiros. O tráfico de drogas tem sido a forma mais violenta e conhecida, como a heroína no Afeganistão e no Triangulo de Ouro (Mianmar, Tailândia e Laos). Ainda mais aviltante é o tráfico humano para trabalho escravo e prostituição. A Ásia é a região que mais supre adolescentes para os bordéis internacionais.

8 - Vírus HIV – A pandemia está intensificando neste continente, principalmente na India, Tailândia e China, e isto devido ao crescimento da indústria do sexo.

9 – O crescimento econômico dos tigres asiáticos tem sido fenomenal devido ao acesso à alta tecnologia, mão de obra barata e investimentos estrangeiros que proporcionam produtos com preços super-competitivos devido à alta produção para o mercado interno e exportação. Isto tem levado à grande corrupção e grande discrepância entre pobre e rico.

10 – O fundamentalismo religioso muçulmano e hinduísta tem sido o grande desafio para os cristãos nacionais. Isto tem dificultado a entrada de obreiros, bem como a mudança de status religioso e o acesso às classes mais altas da sociedade, pois para conseguir um emprego precisa ser parte da religião estatal. O maior desafio está na Coréia do Norte, que dizimou milhares de cristãos. O país tem enfrentado uma fome tremenda. Sabe-se da história de um pai de família que estava morrendo e chegou a dizer ao filho que comesse a carne dele quando morresse, pois, se o enterrasse, o vizinho desenterraria o cadáver para comê-lo.

Poderíamos enumerar muitos outros fatos, mas entendemos que esses são os mais fortes. Estes desafios necessitam das orações específicas da igreja e exigem novas maneiras de trabalho. A Horizontes América Latina analisou todas essas áreas e procurou parcerias para ver a melhor forma de trabalhar. Buscando visualizar novos métodos para alcançar o maior número de discípulos nesta região, lançamos o Projeto UNIÁSIA, um projeto de sete anos onde os candidatos receberão sete formações diferentes: Bíblica, Missiológica, Transcultural, Espanhol, Inglês, Língua Asiática e uma graduação Universitária na Ásia, e que recebe os candidatos com apenas um terço do sustento sendo o restante mobilizado no treinamento. Para isto contemplamos o treinamento de cristãos nacionais para as igrejas subterrâneas, estabelecimento de empresas e negócios internacionais, intercâmbios culturais, área educacional e a tradução de línguas, além de projetos de aconselhamento em áreas de desastres.

Nosso alvo é trabalhar arduamente para ver o número de obreiros brasileiros na Ásia dobrado até o ano de 2015. Estima-se hoje que haja em torno de 275 obreiros brasileiros, de todas as denominações em todo o continente asiático.

Nosso grande desafio para 2011 é o Centro Para as Nações em Monte Verde – Diante do grande contingente que deve vir do estado do Pará e de outros estados para os projetos Uniásia (uniasia@mhorizontes.org.br) e Revolution Teen (projeto que visa treinar adolescentes que concluíram o ensino fundamental nas áreas cultural, lingüística e bíblica), precisaremos concluir o novo edifício de alojamentos com 48 suítes, cinco andares e já coberto.

Para ver a conclusão, precisaremos de um milhão e duzentos mil reais e para isso estamos vendendo a nossa base na Bolívia, adquirida da Missão Sueca. Para complementar, queremos contar com 1000 parceiros amigos da Horizontes que contribuam com R$ 50,00 mensais durante um período de 12 meses.

Aos que aceitarem o honroso convite e investirem neste grande empreendimento, ofereceremos uma estadia gratuita numa suíte por um final de semana iniciando em uma sexta feira.

Contamos com seu apoio e o convidamos a se unir conosco neste novo ano para que, ao final dele, possa vir e ver de perto aqueles que o Senhor tem levantado para encarar o grande desafio: alcançar os povos não alcançados da terra.

No amor do Mestre,

Cleonice e David Botelho


Missão Horizontes – contato@mhorizontes.org.br -Bradesco – Agência 1020 – Conta 3474-6 – CNPJ 59.958.983-0001/16

domingo, 6 de fevereiro de 2011

MISSÕES - A COMIDA QUE DURA




Os seguidores de Jesus, na sua maioria, perderam a perspectiva do ponto de vista de onde Jesus está olhando. O olhar dele é de infinita compaixão e ele vê o mundo inteiro. Um mundo mergulhando na mais densa escuridão. Os discípulos que perderam a visão dele e da sua obra têm seus olhos voltados para baixo em direção horizontal numa triste demonstração de vergonha e derrota.
O diagnóstico do Mestre amado e a receita para uma renovação de metas, propósitos e uma vida de constantes vitórias é apresentado por ele quando diz: “Mas olhem e vejam bem os campos: o que foi plantado já está maduro e pronto para a colheita” Jo. 4.35b NTLH
O compromisso com o mundo e com as coisas que no mundo há, está impedindo os discípulos de trabalharem com afinco na seara do Mestre Amado. O que foi e está sendo plantado, já está maduro e pronto para a colheita, necessitando de trabalhadores animados e dispostos a cumprir a ordem de atuar com muita dedicação na colheita dos frutos, já prontos; que são as vidas que estão espalhadas nos quatro cantos do mundo.

A certeza da presença do Mestre Jesus infunde uma tranqüilidade tal, que muitos pensam e vivem despreocupados de que tudo vai acontecer como num passe de mágica. Jesus fez os milagres e os discípulos pensavam que Jesus teria que fazer tudo, eles não teriam participação em nada, porquanto, ELE ESTAVA ALÍ, BEM PRESENTE.

No momento em que Jesus convida Pedro para andar sobre as águas ele temeu e afundou; Jesus esperava que ele tivesse fé suficiente para agir na hora em que ele muito necessitava. Jesus não caminhou por ele, tão somente o ajudou quando ele fracassou.
Em outro momento, Jesus mandou que eles tirassem a pedra do sepulcro de Lázaro e logo em seguida tirassem as faixas que o envolviam; algo insignificante diante do tão grande milagre da ressurreição! Ele transferiu essa ação para eles. Antes de multiplicar os pães e os peixes ele criou uma expectativa em torno dos discípulos para que eles fizessem e não apenas cressem. E nem uma das duas coisas aconteceram. No jardim do Getsêmane, eles imaginavam que Jesus iria libertar-se dos homens que chegaram para prendê-lo, contudo, ele não o fez. O despreparo daquele grupo que estava com ele naquela noite no jardim, permitiu que eles agissem de maneira humana e carnal, utilizando da espada para atingir o próximo e além do mais, covardemente todos fugiram.

A grande decepção causada pelos seguidores dele o fez lançar em seus rostos para onde estavam voltados os seus interesses e motivações. “...vocês estão me procurando porque comeram os pães e ficaram satisfeitos e não porque entenderam o meus milagres” Jo.6.26. Pessoas que estavam com ele e perto dele, contudo, não tinham a visão de um mundo sem paz, e sem esperança.

Ele, de maneira sábia, tirou os olhos deles das “coisas” levando-lhes a olhar para a mesma direção em que ele estava olhando; “ ...mas a fim de conseguir a comida que dura para a vida eterna.”.v.26. Mas adiante ele mostra que ele é o Pão do Céu, o Pão da Vida. v. 35, e aqueles que experimentarem deste pão, nunca mais terão fome.
A triste estatística que nos chega às mãos é de que no Brasil existem 180 línguas indígenas faladas. Algumas delas em extinção e temos desse total ainda, pasmem, 92 tribos indígenas aqui em nosso país que não contam com a presença missionária. E sobre esse assunto, muitos argumentam que os missionários vão às tribos para mudar a cultura indígena. Porém, não sabem ou não querem admitir, que os missionários quando chegam a uma aldeia indígena encontram a cultura alterada em função dos não índios (chamados erroneamente de brancos), que exploram as suas terras, suas riquezas naturais, influenciando negativamente o convívio sócio-cultural.
No meio evangélico há uma forte ênfase sobre a classificação dos discípulos; uns vão, outros intercedem em oração e outros contribuem. Como se Jesus tivesse departamentalizado a sua seara visando as atividades dos trabalhadores. Equivocadamente isso acontece no meio evangélico. Sendo assim, supõe-se que quem vai (para pregar) obrigatoriamente não necessita orar e nem contribuir. Quem ora não vai e nem contribui. E quem contribui, não vai e nem ora. Não foi assim que Jesus ensinou:

Ele disse: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho”. Mc. 16.15; “ Vós sereis as minhas testemunhas...” At. 1.8. Pela experiência própria, quando fui ao campo missionário indígena, estava indo, porém nunca deixei de orar e muito menos de contribuir financeiramente para o avanço da Obra em todo o mundo. A obra missionária é um contexto cuja exigência é unicamente a OBEDIÊNCIA.

A preocupação do discípulo deve ser a de trabalhar visando alimentar aqueles que estão com fome espiritual, com a comida que dura para a vida eterna. Com esse entendimento e disposição mental haverá grande diferença nos ministérios dos missionários espalhados na grande seara do Mestre.
O investimento financeiro no obreiro que se dispõe a obedecer a ordem de Jesus, tem um retorno eterno. “ ...e de modo nenhum jogarei fora aqueles que vierem a mim.” v.37. Esse é o resultado da dedicação de muitos e da aplicação de todos.

As recompensas são garantidas por aquele que nos salvou, embora, esta não deva ser a motivação dos trabalhadores. Ele mostrou qual era: “A minha comida- disse Jesus- é fazer a vontade daquele que me enviou e terminar o trabalho que ele me deu para fazer.” Jo. 4.34 A obediência trará um grande resultado que é a vida eterna para muitas vidas e a garantia de bênçãos e felicidades. “ E assim tanto o que semeia como o que colhe se alegrarão juntos.” Jo. 4.36

O campo continua branco – são 250 milhões de vidas em todo o mundo, sem acesso às Escrituras Sagradas – esperando alguém que vá até eles contar a linda história do Calvário. Ainda há vagas para outros trabalhadores na seara do SENHOR Jesus. O tempo em que gastamos com tantas superfluidades e os recursos financeiros que aplicamos em gastos sem objetividade, poderiam e muito contribuir para que outros trabalhadores chegassem mais equipados e em tempo hábil ao campo avançado de missões.
O Brasil cresce em vários sentidos e o grande número de discípulos de Jesus, contempla o mundo e as coisas que no mundo há do ponto de vista horizontal. Mas, Jesus nos relembra; “LEVANTAI OS VOSSOS OLHOS E VEDE OS CAMPOS QUE CONTINUAM BRANCOS PARA A CEIFA.”

Onde estão os Missionários?


A NOVA CRISE VOCACIONAL DA IGREJA BRASILEIRA


Até os anos 90, a igreja evangélica brasileira “ensaiou” um avivamento missionário. O tema das missões tornou-se um assunto em pauta no Brasil, e por aproximadamente duas décadas muitos missionários foram despertados de todas as regiões do país para todos os limites do mundo. Líderes brasileiros de missões passaram a configurar globalmente entre os mais influentes pensadores da área; agências missionárias verdadeiramente brasileiras começaram a emergir; as denominações históricas e até mesmo as mais novas começaram a despertar suas igrejas locais, e o resultado foi estrondoso: o Brasil tornou-se indubitavelmente um dos três maiores celeiros missionários do mundo.

Hoje, porém, é evidente que há uma “baixa” no despertamento missionário. Tenho percorrido organizações missionárias e percebo que elas já não recrutam obreiros com a mesma facilidade que tinham alguns anos atrás. As conferências missionárias ainda acontecem, mas são mais escassas e já não contam com super produções. Isso pode ser positivo por um lado, visto que o modismo missionário está acabando. Mas estamos colhendo um fruto amargo: a igreja brasileira vive uma crise vocacional.

Quando falo em crise vocacional, eu sequer estou focando na qualidade dos vocacionados. Me preocupo, a priori, é com a quantidade mesmo. Os seminários teológicos multiplicaram seus cursos noturnos, justamente para adequar a demanda de alunos que não abdicariam de suas outras atividades para se preparar ministerialmente. Este é o perfil do novo mercado das escolas de teologia. Os institutos bíblicos já não são uma realidade forte nos centros urbanos, e as organizações de treinamento missionário também têm tido dificuldades para levantar candidatos. Somente em 2010, até agora, três compromissos foram cancelados em minha agenda por escolas missionárias que suspenderam seus programas, alegando a falta de alunos.

O que teria provocado essa crise vocacional? Por que nossos jovens não são mais “chamados” como antigamente? Foi Deus quem parou de chamar ou foi a igreja que parou de atender? Não tenho todas as respostas, mas seguem alguns pensamentos.

1. A “Missiologização” da Tarefa Cristã Cotidiana

Eu creio que todo cristão é chamado. A Bíblia diz com clareza que Cristo nos reconciliou para que nós sejamos portadores da mensagem da reconciliação (2 Coríntios 5:18-20). Todo estudante deve ser missionário no contexto acadêmico, todo profissional é pregador no trabalho, e assim por diante. Mas o chamado ministerial específico é uma realidade bíblica incontestável.

Acontece, porém, que o discurso da igreja brasileira tem tomado um formato exclusivamente local no que tange à sua missão. O primeiro fator que tenho identificado como o causador da nova crise vocacional brasileira é que a igreja tem t em atribuído à proclamação cristã cotidiana um peso missiológico que substitui o envio missionário. “Somos chamados para fazer missões aqui, no nosso contexto, e essa é a única e verdadeira missão”.

A proposta deveria ser mais equilibrada, deveríamos fazer essa sem omitir aquelas (Mt. 23:23). Missões locais são incompletas sem a perspectiva transcultural, e vice-versa. Ministros bivocacionais são importantes, mas não eliminam a necessidade dos ministros em tempo integral no Reino. Na maioria dos encontros missionários que tenho participado, tenho visto temas como: “Eu, missionário onde estou”. Precisamos desse enfoque, sem dúvida. Mas precisamos ainda de missionários que saiam de onde estão e se dediquem integralmente a cumprir este chamado em lugares onde ninguém está. A perspectiva vocacional missionária transcultural não pode morrer.

Quanto à tarefa local, essa é para todo cristão. Não é preciso ir a um seminário, nem ter ouvido nada específico num “culto da fogueira”. Se somos cristãos, somos responsáveis pela proclamação do evangelho de Cristo. A vocação missionária específica continuará acontecendo, para alguns, que irão enviados pela igreja vocacionada.

2. Escassez de modelos positivos, contagiantes e desafiadores

Fui missionário na China, e meu chamado se deu em etapas. Primeiro, um grande ardor missionário começou a brotar em meu coração quando eu estudava no seminário teológico. Eu tinha ido ao seminário para ser pastor – na verdade, era o único formato de ministério integral que eu conhecia. Através de uma viagem missionária de curto prazo, vi que eu tinha uma vocação missionária transcultural.

A partir disso, Deus continuou a falar comigo das mais diversas formas. As histórias da igreja sofredora começaram a inundar meu coração, e fui percebendo que Deus estava me direcionando para apoiar esses irmãos que sofrem perseguição e pobreza, muitas vezes por causa de sua fé. Mas o interessante nisso tudo é que Deus usou homens: alguns missionários-modelo foram o “isqueiro” que Deus usou para acender a chama em meu coração.

No caso específico da China, meu vínculo foi com Hudson Taylor, um dos mais influentes obreiros da história das missões modernas, e Jorge Vendramini, um amigo pessoal, brasileiro, que vive na China há 20 anos. Portanto, um passado, outro presente; um morto, outro vivo. Suas histórias, sua paixão, seu envolvimento com a igreja chinesa, tudo isso foi somando no meu coração o desejo de viver e morrer por essa causa.

Pela graça de Deus, vi jovens se despertarem para missões através de exemplos humanos. Por graça maior, vi o meu próprio exemplo servir de inspiração para alguns. O problema é que essa inspiração também tem sido escassa.

Por um lado, a inspiração não ocorre por culpa da própria igreja. O modismo missionário foi acabando, de forma que os obreiros transculturais já não são vistos como versões cristãs do Indiana Jones. Já é comum demais dizer que um missionário foi preso por conta do evangelho, que alguém traduziu a bíblia para outra língua, ou que alguma irmã abdicou da vida urbana para viver entre os índios. As histórias caíram na monotonia, e a igreja, que valorizava mais o heroísmo que a essência ministerial da missão, tem visto que nada mais comove seus membros.

Por outro lado, e sendo propositadamente genérico, há casos em que os missionários têm uma parcela de culpa, e aqui me refiro aos relatórios e à comunicação. Tenho visto depoimentos missionários que não inspirariam ninguém a querer ser missionário. Alguns falam tanto em tragédia, em privações, em limitações e em sofrimento que acabam por fazer o marketing negativo acerca da vocação. Já vi jovens dizerem que têm uma vida incompleta na igreja, pois sabem que deveriam estar no campo missionário mas não foram por medo de passar fome. Pois é isso que ouviram.

É árduo o trabalho missionário. É preciso tomar a cruz para seguir esse caminho. No entanto, narrar tragédia após tragédia não glorifica a Deus, nem descreve em absoluto o que acontece no campo missionário. Para falar da China por exemplo, eu tenho a opção dizer que a igreja chinesa sofre perseguição, e mencionar exaustivamente a história de pastores chineses que vi sendo presos e separados da família. Muitos poderiam se comover, mas poucos iriam querer se envolver com isso. Por outro lado, eu posso focar em outra verdade, tão verdadeira quanto a primeira e que enleva muito mais a glória de Cristo: a igreja chinesa é a mais crescente igreja do mundo, e os cristãos chineses são missionários extremamente comprometidos que têm servido a Deus como verdadeiros guerreiros! Vejo que isso encoraja mais que o foco no sofrimento.

3. Decepção com os rumos e prioridades da igreja

A igreja brasileira vive um combinado de crises. Há uma crise de identidade, pois antigos conceitos outrora simples, como “evangélico” e “protestante” têm ficado cada vez mais difíceis de discernir e mensurar. Não se sabe quem é quem. Há uma crise de integridade, uma vez que a maioria dos problemas da igreja brasileira têm sua raiz no dinheiro e em outros elementos que afetam diretamente a moralidade. E há uma crise de interesses, intenções e prioridades.

Hoje, não é fácil afirmar quais são as igrejas e denominações efetivamente envolvidas com a obra missionária, mesmo porque “qualquer coisa” poderia ser igreja e “qualquer coisa” poderia ser obra missionária. O problema é que, em geral, nem os membros das igrejas sabem até que ponto suas igrejas sonham e investem em missões.

Uma conversa recente revelou isso. Uma jovem me disse que queria ser missionária. Eu perguntei se ela tinha apresentado sua intenção ao seu pastor. Ela me falou que não, pois seu pastor não tinha visão missionária e não investiria em seu chamado. Por conta disso ela optara por se calar.

Eu me surpreendi. A igreja dela contribui fielmente com nosso projeto no Haiti, e o pastor dela sempre se mostrou alguém com o coração missionário. Eu a encorajei a conversar com ele, e ela afirmou que não sabia desse envolvimento missionário. Ela julgara pelo discurso que ouve. No fim, ela arrematou dizendo que não percebe as igrejas de hoje em dia preocupadas com isso, e achou que sua própria igreja estava dentro do padrão.

Há uma falha de comunicação da parte da jovem, disso não tenho dúvida. Mas a noção que ela tem da igreja brasileira, equivocada em seu caso específico, não deixa de fazer sentido. A missão da igreja tem sido outra, em linhas gerais. Esses rumos do evangelicalismo nacional acabam não fornecendo as garantias vocacionais que a juventude precisaria para abraçar o chamado. É complicado vislumbrar que alguém se envolva num projeto dessa dimensão sem o respaldo espiritual, emocional e econômico da igreja. E no caso de muitas igrejas, a moça teria razão.

4. Ausência de uma teologia prática de missão nos púlpitos

Todas essas razões anteriormente apresentadas estão vinculadas à teologia missionária que tem sido apresentada nas igrejas. Missões tornou-se, em muitos casos, um tema filosófico, pouco prático. Curioso que hoje em dia é possível participar de um fórum de Missão Integral e sair de lá sem qualquer pressuposto prático ou aplicável para fazer missão integral em alguma comunidade do mundo real. Outra vez, minha afirmação aqui consiste numa generalização.

Mas noto que o discurso missionário não tem sido eficaz no despertamento missionário. Um dos motivos para tanto é que a pregação missionária não oferece caminhos práticos para a preparação e o envio. As conferências missionárias são eficazes para despertar contribuição missionária, mas já não oferecem alternativas vocacionais.

Seria igualmente frágil uma perspectiva vocacional que partisse de um discurso somente prático, sem fundamentação teológica ou missiológica plausível e biblicamente atestável. Com esse tipo de proposta, talvez seja possível mobilizar voluntários, mas não despertar missionários. No entanto, o despertamento também exige que se apresente a realidade do desafio, os passos e custos práticos, o treinamento apropriado, entre outros. Precisamos apresentar a demanda missionária como uma alternativa real de serviço.

Conclusões e Aplicações

Seria cinismo avaliar a condição vocacional da igreja de forma crítica, como feito acima, sem oferecer pensamentos práticos que possam acender luzes positivas. Na verdade, como já foi dito, não possuo todas as respostas. Mas há valores que poderiam ser transformados no pensamento missiológico da igreja.

Creio que a intenção de Deus seja ainda de utilizar-se de pessoas como nós, em nossa fragilidade e limitação, chamando-nos para anunciar as novas do Reino. Alguns passos práticos poderiam ser efetuados, principalmente em se tratando de algumas alterações em nosso discurso missiológico.

Primeiro, creio que precisamos falar de missões de forma mais próxima à realidade da igreja local. Os irmãos que freqüentam a igreja têm que ouvir falar em missões de maneira acessível, tangível às suas realidades. As estatísticas e as tendências do mundo missionário podem ser instrumentais na comunicação para o despertamento missionário. Mas, por si só, tais recursos não são suficientes. É preciso que o indivíduo saia da igreja sabendo como pode preparar-se, envolver-se, contribuir e orar diretamente. A igreja precisa identificar oportunidades plausíveis: assim como se anuncia uma necessidade imediata da igreja local, como vagas para professores de ministério infantil ou operadores de som, as oportunidades missionárias devem ser listadas com clareza. E a igreja sempre terá oportunidades vocacionais viáveis, se a obra missionária for sua prioridade.

Um outro aspecto importante a ser pensado é a necessidade de equilibrarmos as oportunidades de cumprimento da grande comissão. A igreja precisa ter oportunidades de servir em Jerusalém, Judéia, Samaria e confins da Terra (At. 1:8). Uma estratégia ainda válida é o uso de viagens missionárias de curto prazo. Essa prática tem sido criticada por uma linha missiológica que questiona a efetividade de um ministério curto no campo. Em termos de efetividade, talvez tenham razão os críticos. Em termos vocacionais, porém, eu fui chamado para o ministério missionário a longo prazo após uma viagem missionária. Já vi este movimento na vida de muitas pessoas.

Em minha experiência como pastor local, é possível viabilizar na igreja grandes projetos de impacto em locais mais próximos, envolvendo várias pessoas, como “Dia da Cidadania” e outros projetos. Nessas empreitadas, universitários da igreja, bem como profissionais liberais, se envolvem em missões e muitas vezes enredam num caminho ministerial sem volta!

Num contexto de média distância, temos enviado equipes de tamanho médio ou pequeno. Vários jovens e profissionais da igreja já tiveram experiências no sertão do nordeste, por exemplo, através do Projeto Água Viva, um dos ministérios missionários vinculados á nossa comunidade.

Por último, várias pessoas da igreja também se envolvem em missões transculturais. Através da Missão em Apoio à Igreja Sofredora, muitos irmãos já viajaram ao Haiti, e em alguns casos temos visto vocações missionárias começarem a emergir. O contexto do Haiti mudou em função de uma viagem que um jovem fez por uma semana? Provavelmente, não muito. Mas uma vocação missionária longa e frutífera pode estar surgindo.

Meu encorajamento aos pastores e líderes da igreja nacional é que configuremos um discurso missionário que efetivamente levante obreiros para a grande Seara. Nós temos uma responsabilidade crucial nesse processo, e podemos sanar essa crise vocacional. Que Deus nos ajude nesse caminho!

* Por Mário Freitas