"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sábado, 26 de novembro de 2011

INTEGRAÇÃO DO MISSIONÁRIO APÓS O REGRESSO


Ajudar seu missionário a integrar-se, acontece em dois níveis: imediato e a longo prazo. INTEGRAÇÃO IMEDIATA

a) Faça com que seu missionário seja recebido por pessoas da igreja no aeroporto. Não todo mundo, mas um bom grupo que diga: “Estamos contentes por você estar de volta!”.

Ouvi de uma comissão de boas vindas que foi para o aeroporto dois dias depois que o missionário chegou. Felizmente, pelo menos seus pais tinham confirmado o dia certo da sua chegada e estavam lá para recebê-lo!

b) Prepare um lugar para ele ficar: “Paulo e Barnabé ficaram ali muito tempo com os discípulos” (Atos 14.28)! É digno de nota que, das doze palavras gregas que traduzimos por “ficar” , a que é usada aqui significa “esfregar, gastar pelo uso”. Em outras palavras, sua estada com os discípulos em Antioquia foi longa o suficiente para limpar seu relacionamento de todo sentimento estranho.

Quando você mora com alguém, você sabe onde as lâmpadas de reserva são guardadas. Você não está apenas acampado no hall de entrada. O lugar em que o missionário irá ficar, seja com amigos, familiares ou num lugar próprio, precisa estar preparado antes que ele venha. E ele precisa estar preparado para as acomodações que você está providenciando para ele.

Numa igreja que recentemente trouxe para casa seu primeiro missionário com sua família, o pastor de missões disse: “A máquina de lavar e a secadora estão conectadas na rede elétrica, os eletrodomésticos estão no lugar, a geladeira está forrada e o telefone está ligado. Creio que estamos prontos!”

c) Tenha pronto um meio de transporte para eles: um carro emprestado ou um carro barato que pode ser novamente vendido quando eles retornarem ao campo.

Uma missionária que retornara disse: “Eles não apenas tinham um carro confortável à minha espera, mas também um crédito ilimitado de gasolina no posto!” É importante que o missionário que voltou para um período de reciclagem, visita e férias tenha independência e liberdade para se locomover.

d) Providencie refeições para os primeiros dias. Convide-os, leve pratos prontos. Abasteça a dispensa deles. Inclusive com algumas guloseimas. Leve-os para comer no restaurante favorito deles. Mas seja sensível. Não dificulte para eles a possibilidade de dizerem “NÃO”.

Alguns missionários dizem: “Mal posso esperar voltar para o campo. Não terei de comer tanto!”

e) Vá fazer compras com eles. Eles podem não saber o que está na moda e sair andando por aí com aparência estranha sem mesmo sabê-lo!

f) Talvez eles tenham feito exames médicos completos antes de partir do campo. Se não os fizeram, pergunte se eles gostariam que você marcasse as consultas com médicos, dentistas, oculistas – de graça, com desconto, ou pagas pela igreja?

g) Depois de alguns dias de descanso, marque uma reunião – talvez um junta-panela – em que o missionário possa encontrar várias pessoas ao mesmo tempo. Um chá das mulheres é muito bom para que as missionárias se atualizem e novamente se sintam parte do lugar. Repito, porém: seja sensível. Nos primeiros dias da semana os missionários podem querer ficar sozinhos.

INTERAÇÃO A LONGO PRAZO

Ajude os missionários retornados a integrar lentamente sua identidade e estilo de vida no novo ambiente. Eles têm a oportunidade e o desafio de ser agentes positivos de mudanças – pessoas que podem ajudar de modo concreto todos vocês em casa a ver o mundo mais e mais da perspectiva de Deus.

Esteja aberto para suas novas idéias e maneiras de fazer as coisas.

Procure por maneiras criativas de ajudar seu missionário a trazer uma perspectiva global para os seus amigos. Quais grupos de pessoas poderiam estar interessados em ouvir seu relatório? A assistência do culto de domingo? As classes de escola dominical? Os grupos familiares? Grupos de oração? Escolas públicas e particulares? Outras igrejas? Programas de rádio e televisão? Um artigo no jornal? Vale a pena escrever um livro sobre a sua história? Deixe o gênio criativo de Deus ampliar sua visão das maneiras em que seu missionário pode compartilhar suas experiências. Você pode, com isso, facilitar as entrevistas com eles.

Paulo e Barnabé, ao voltarem para Antioquia, tiveram a oportunidade de “reunir a igreja e relatar tudo o que Deus tinha feito por meio dlees e como abrira a porta da fé aos gentios” (Atos 14.27).

O texto bíblico diz em seguida que Paulo e Barnabé permaneceram em Antioquia por algum tempo, ensinando e pregando a Palavra de Deus (Atos 15.35).

Em outras palavras, chegou a hora de retornar o ministério em que eles tinham estado engajados antes. No devido tempo – se ele não retornar ao campo – assumir um ministério na igreja deve ser um objetivo para seu mensageiro transcultural. Isso pode ser na área em que serviam antes.

Mas também pode ser que sua experiência de ministério da sua igreja com pessoas de outras nacionalidades que vivem por perto. Ou para preparar os novos candidatos para a obra missionária. Ou para desenvolver um ou muitos aspectos de uma equipe enviadora forte.

COMO PERSONALIZAR O APOIO NA VOLTA DO MISSIONÁRIO

Os vários membros da família podem ter preocupações especificas na reentrada:

1. O marido pode precisar de ajuda Quando a família volta do campo, o marido sente a pressão e a ansiedade da responsabilidade como provedor:

O sustento financeiro pode ter diminuído porque eles não estão mais no campo. Porém as despesas provavelmente são maiores aqui em casa. Tome a iniciativa de falar sobre dinheiro. Talvez você possa ajudar financeiramente, talvez não. Mas você ajudou a “tirar o assunto do armário”. Deixe-o verbalizar as necessidades da sua família. Só isso já pode ajudar a definir prioridades. E o Espírito Santo pode inspirar uma solução totalmente inesperada. Vá devagar com isso, mas há de chegar a hora em que será preciso ajudá-lo a falar sobre os planos futuros. “Que meio de vida você pensa em procurar?” “Você está pensando em voltar a estudar?” “Em voltar para o campo?”

2. Por trás de todo grande homem há uma grande mulher! No campo ela provavelmente tinha um papel muito mais ativo no ministério do que agora. Providencie oportunidades em que ela possa compartilhar as suas experiências. Se as reuniões públicas da igreja não são apropriadas, marque encontros em sua casa.

Com freqüência a esposa do missionário suportou muitas pressões para equilibrar o ministério e administração da casa, e sua necessidade de compartilhar é igualmente válida. Ela está contente com a casa que a igreja alugou para eles, acarpetada, com três quartos e dois banheiros. Mas não sabe como limpá-la! É provável que no campo ela tivesse uma ajudante que cozinhava para ela. Ajude-a a readquirir a habilidade de usar os equipamentos da casa. Ofereça-se para lhe dar uma mão por algum tempo.

3. Os filhos dos missionários são crianças comuns. Os filhos de missionários que moraram no Japão, no Congo, no Egito ou em Hong Kong freqüentemente não sabem onde se encaixam! Aqui é sua terra natal, mas talvez nunca tenha sido o seu lar. Um menino de catorze anos, voltando para o campo depois de um ano em seu país, escreveu uma redação, na sala de literatura do primeiro ano do segundo grau, com o título: “O que eu gostaria de dizer às pessoas lá em casa”.

“Quero responder algumas perguntas que me fizeram. Não, não moramos em casas de pau-a-pique. Não, não comemos comidas “estranhas”. A comida é comum. “Filhos de missionários não são perfeitos. Somos humanos e temos falhas e virtudes como todo mundo. Quando vocês, consciente ou inconscientemente, nos tratam como se fôssemos perfeitos, nos sentimos pressionados por vocês (que não têm esse direito) e então pelos nossos pais. “Não, os filhos de missionários não são super-homens. Os poucos que agem assim quando estão de férias em casa provavelmente estão tentando ocultar o choque cultural pelo qual estão passando. Só porque você é filho de missionário não quer dizer que você conheça sua Bíblia melhor que os outros.

Enquanto estive em casa, constantemente alguém me perguntava versículos e coisas na Bíblia das quais eu nunca tinha ouvido falar. Ai ficavam chocados e cochichavam nas minhas costas. “Não, filhos de missionários não costumam andar descalços, vestindo trapos. A dona Fulana viu uma foto minha com uma camiseta rasgada cheia de manchas de uma tinta e concluiu que eu não tinha nada melhor para vestir. Por favor, mandem mais dinheiro!

O dinheiro enviado aos missionários nunca é suficiente. Mesmo se às vezes parece que meus pais não estão fazendo nada, eles estão! Nossos amigos daqui podem lhes confirmar isso.” Como kjvocê pode dar apoio a um filho de missionário que volta para a sua terra:? Com todo carinho, compreensão, tato, sabedoria e paciência que você dedica aos seus pais que estão retornando.

4. Solteiro e satisfeito! Esse título de um livro pode lembrar aos enviadores que os solteiros também precisam de apoio especifico na reentrada. Poucas pessoas casadas compreendem as necessidades do ministe´rio de um missionário solteiro. Poucos casais percebem a falta de sensibilidade e até grosseria não intencional que os adultos solteiros enfrentam mesmo em círculos cristãos.

Às vezes a reentrada é mais difícil para um solteiro. Pelo menos os membros de uma família têm uns aos outros para conversar. Solidão, perplexidade, incapacidade para se relacionar com outros solteiros de hoje, e o desejo de continuar a vida podem atolar a missionária que retornou na areia movediça da alienação e da depressão. Você precisa estar a seu lado para salvá-la disso! Esteja presente para ouvir e servir como sua “unidade de tratamento intensivo.

Nós somos o corpo de Cristo. Somos uma comunidade de crentes. Precisamos uns dos outros. Que Deus possa desafiar você a ser parte de um grupo de apoio na reentrada. Isso faz parte da missão de enviar”.

Texto extraido do Livro "Missão de Enviar" Como sustentar o seu missionário. Neal Pirolo. Ed. Descoberta.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

CUIDADOS A SEREM OBSERVADOS NO REGRESSO DO MISSIONÁRIO


“Meu pai foi um missionário de carreira. Minhas irmãs, meus irmãos e eu nascemos no campo missionário. Nossa vida foi lá. Papai fazia um bom trabalho dirigindo um seminário teológico que atendia boa parte do leste do país. Mamãe estava fiel ao seu lado. Nossa educação veio tanto de observar a vida deles quanto das lições em sala de aula.

Durante os anos eles tinham passado por todo tipo de tempestades que atingem os missionários. Cada uma lhes proporcionava um grau maior de compromisso com o Senhor Jesus e com a causa da formação de liderança nacional. As tensões entre os cristãos nacionais e os missionários eram freqüentes. Meu pai, porém, era um pacificador. Ele sabia andar pelo caminho estreito da sensibilidade cultural.

A falta de recursos era tão comum que todos sabíamos o que queria dizer “apertar o cinto”. O desânimo com alunos nacionais “promissores” que deram as costas ao ministério cristão apenas reforçava a determinação de papai de gastar sua vida com outras pessoas. “Provavelmente a experiência mais difícil que papai e mamãe enfrentaram foi sua prisão durante um golpe militar, em que eles estiveram entre a vida e a morte. Com todos os detalhes de um filme de guerra, os soldados invadiram nossa casa e levaram papai preso. Eles tinham certeza de que ele tinha “contatos secretos com os inimigos do povo”. “O golpe falhou. Após três semanas papai foi solto e retomou seu trabalho no seminário. “Voltamos para o nosso país. Os filhos estão todos crescidos agora. Vários são casados, alguns voltaram pessoalmente como missionários para o campo.

“No último verão papai nos convocou para um encontro de família. O convite era tão lacônico e insistente em que todos estivéssemos presentes, que podíamos sentir que algo estava errado. Mas nem em mil anos teríamos sonhado com o que aconteceria. A reunião foi breve e direta. Resumindo. “Filhos, quero lhes dizer em primeira mão que estou me separando da mãe de vocês. Planejo me casar com Sue.” “Sue era mais nova que o filho mais velho e suas palavras de despedidas foram: “Mais uma coisa: não tenho nem certeza se Deus existe!”.

Até no mundo secular se está dizendo: a reentrada pode ser a parte mais difícil de uma experiência no exterior, e não deve ser ignorada.
Há problemas inesperados ao voltar para casa. Familiares que viveram em outra cultura precisam aprender a vencer as dificuldades do lugar de trabalho, da convivência na comunidade e do ambiente escolar. No âmbito cristão se está dizendo que até 50% dos missionários de primeira viagem voltam para casa mais cedo ou não retornam para um segundo período. Essas pessoas feridas precisam identificar e processar a dor e a raiva do fracasso – para começar a reconstruir sua vida, a recuperar a saúde emocional e espiritual.

Nos seminários sobre missão se está dizendo, como um conferencista de destaque enfatizou: “Não tenho ministrado nenhum seminário sobre a necessidade premente de ajuda na reentrada sem que algum missionário viesse até mim dizendo: “Eu pensava que eu é que estava errado. Não podia falar a ninguém sobre o que eu estava sentindo. “Obrigado por me mostrar que é comum sentir-se um pouco desconfortável ao voltar para casa.”

“Recentemente, logo após terminar a parte de reentrada de um seminário, uma senhora na primeira fila começou a chorar e depois soluçar incontrolavelmente. Finalmente, em meio às lagrimas, ela gaguejou: “Voltei da Indonésia há três meses. Tudo o que o senhor falou, estou experimentando. Por favor me ajude!

COMO É A REENTRADA

Há um choque inicial ao voltar para casa. Prédios velhos foram derrubados e outros erguidos em seu lugar. Um parque em que o missionário gostava de passear foi ocupado pelo entroncamento de duas rodovias. A cadeira de balanço da vovó está vazia. Provavelmente ele soube dessas coisas quando elas aconteceram. Mas agora que ele está em casa e as vê pessoalmente, ele fica abalado. Todavia, como acontecem com um choque elétrico, esses fatores são gradualmente absorvidos e aceitos.

O stress de voltar para casa é outra questão. A mente é submetida a um esforço muito grande ao ter de incorporar idéias novas nas antigas – que também não são mais antigas, pois estão estranhamente diferentes.

Há certa pressão espiritual causada pela lembrança constante das necessidades do mundo perdido no pecado e do que estamos ou não estamos fazendo em relação a elas.

Há muita tensão física quando pessoas bem intencionadas entopem seus missionários recém-retornados com comidas inúteis da nossa cultura. “Você está tão magrinho: coma mais um pouco”.

Há emoções estranhas, como, por exemplo quando seu missionário tenta justificar o novo guarda-roupa de 1.000 reais que lhe foi presenteado. Dias antes de deixar o campo, seu parceiro nacional se recusara a receber uma camisa dele, com as palavras: “Tenho uma camisa para usar enquanto lavo a outra. Uma terceira seria um exagero!”. Sim, o cenário e casa, com suas pessoas, lugares e coisas – tudo o que você representa – mudou. O mais dramático, porém, é que seu amigo missionário mudou: social, emocional, mental, física e, acima de tudo, espiritualmente. E como essas mudanças aconteceram a vocês dois de forma tão gradual, vocês mesmos mal se aperceberam delas. Ao se encontrarem, as mudanças no outro são tão drásticas! Nem é necessário dizer que quanto mais tempo seu mensageiro transcultural esteve fora, mais acentuado será o choque cultural ao chegar em casa.

Entretanto, mesmo trabalhos curtos podem causar mudanças muito grandes. A vida inteira do apóstolo Paulo foi mudada em questão de minutos na estrada de Damasco!

Em muitas situações de necessidade no mundo de hoje, Deus pode abrir instantaneamente os olhos do seu missionário para carências gritantes de ministério.

Professores que treinam missionários de curto prazo relatam. “Com a simples finalidade de expô-los a outra cultura, temos levado candidatos através da fronteira para o México e visto Deus partir o coração deles de compaixão pelos perdidos e carentes desse mundo, em apenas uma tarde”.

Há outro fator que precisa ser considerado no apoio na reentrada: a negação. Alguns missionários se preparam para o retorno negando que enfrentarão algum stress na reentrada. Iludem a si mesmos com a atitude de que “isso não vai – não pode acontecer comigo”. A negação pode ser suicídio, emocional, espiritual, mental. Até mesmo suicídio literal, físico, tem acontecido como conseqüência do choque e stress de reentrada de alguns missionários. Seu amigo que retorna pode pensar. “Tive tanta facilidade em me ajustar à nova cultura no campo. Qual é o problema? Só estou voltando para casa!”

Veja alguns pontos cegos nessa afirmação:

1) A adaptação provavelmente não foi assim tão fácil como ele recorda agora.

2) Os meses (talvez anos)de expectativa antes de ir, lhes deram sempre para se ajustar.

3) Os residentes de outro país provavelmente estavam acostumados a estrangeiros e sabiam como ajudá-lo a se adaptar.

Em muitas culturas as pessoas são muito gentis e não são exigentes com missionários perdoando-lhes as gafes. Nenhum desses fatores atenuará sua reentrada quando ele volta para casa.

Talvez seus amigos despreparados em casa ecoem as mesmas palavras: “Qual é o problema? Ele só está voltando para casa!” Como muitos deles não se aventuraram para fora da zona de conforto do seu próprio mundo, eles não têm idéia do que um missionário experimenta ao viver e ministrar em uma segunda cultura.

Muitos mantenedores pensam que não pode haver nada demais em voltar para casa. Ter uma noção dos fatores da reentrada pode preparar você para ser um amigo que dá apoio forte no difícil processo de “voltar para casa”.

O DESAFIO DA REENTRADA

Ao ajudar na reentrada, você precisa manter olhos e ouvidos abertos para sinais de choque cultural no retorno. O missionário que volta do campo é quem está menos preparado para encarar a situação. Ele sabe que alguma coisa não está certa! Solidão, desapontamento, desânimo, sensação de isolamento e de estar no lugar errado, a velocidade estonteante de tudo ao lredor podem fazê-lo clamar em silêncio. “Mais de vagar! Mais devagar!” Mas não adianta. Você é quem tem de tomar a iniciativa. Você precisa ser a “unidade de tratamento intensivo” do retorno do seu missionário.

Ele enfrentará desafios de reentrada em uma ou mais das seguintes áreas: 1. Profissão e trabalho Depois da aventura de uma experiência no exterior, voltar para o trabalho antigo pode ser muito tedioso. Igualmente atordoante é a síndrome do “peixe grande no lago pequeno”.

Ao voltar o missionário de uma hora para outra “um peixe pequeno ou médio num lago muito grande”. Ele pode se lamentar “A luz do meu testemunho era muito mais brilhante quando eu estava lá fora no escuro!” É possível que ele sinta que suas habilidades experiências de campo estejam sendo subutilizadas.

Ele também pode sentir a perda da independência que tinha antes, agora que está sob o olhar atento do novo empregador. Ou a sensação de ter voltado à roda viva da competição pode começar a assombrá-la.      

Em algumas áreas de trabalho, depois de um ano ou dois fora, o antigo emprego pode ter ficado obsoleto. Uma mulher que trabalhava com computadores constatou isso durante seu treinamento antes de ir para um prazo curto para o campo. A ajuda que recebeu nessa área de stress antes de sair tomou a volta mais fácil para ela. De fato, quando voltou, ela disse: “Não quero mais trabalhar com computadores. Vou trabalhar num lar de idosos. Vejo isso como um ministério agora, e o curso de medicina que estou fazendo vai abrir novas oportunidades para mim quando eu sair novamente para onde for necessário.

2. BENS MATERIAIS E FINANÇAS

O país para o qual o seu missionário está retornando ficou, em termos gerais, bem mais caro. Isso não quer dizer que um pão francês necessariamente custa mais. Significa que nós gastamos muito mais dinheiro em coisas do que as pessoas da cultura da qual ele está retornando. Ao retornar para essa situação seu mensageiro transcultural pode ficar estressado!

Ao ver uma adolescente abrir seu armário cheio de roupas e chorar: “Não tenho nada para vestir!”, ele lembrará das tantas horas em que quebrou a cabeça pensando em como pedir ao pessoal lá de casa, por mais algun

s reais para alimentar e vestir as crianças da sua vizinhança. Um missionário que voltou recentemente disse: “`É muito difícil lidar com a riqueza desde país, ainda mais difícil para mim é lidar com a riqueza da igreja”.

Outro missionário contou: “Com minha esposa acontecera o seguinte, alguns meses depois de voltarmos de Moçambique, ela estava andando pelos corredores de um supermercado, escolhendo ponderadamente uma e outra coisa das prateleiras. De repente ela sentiu um grande peso em sua alma. “Há escolhas demais aqui. Preciso sair daqui!”. Ela abandonou o carrinho de compras pela metade, correu até o carro e foi para casa!”.

Uma outra missionária recorda: “No país em que estávamos trabalhando, devido às condições econômicas diferentes e ao nosso ministério, as posses pessoais ficaram em segundo plano em nossa mente.

Quando voltei para casa, comecei a trabalhar com um rapaz que estava usando uma caneta Bic de ponta porosa. Elas não existiam ainda quando eu tinha ido para o exterior. Ele me deixou usá-la. Comentei com ele como gostei da suavidade da caneta e como a escrita ficava bonita. “No dia seguinte ele me deu uma: “Tome esta é sua!” Por vários dias, eu me flagrei seguidas vezes olhando para o meu tesouro de um real: “É minha! É realmente minha!”, eu pensava comigo mesma.” “Ridículo!”, você talvez pense: Sim, mas é exatamente dessa maneira que o stress cultural do retorno se manifesta. A diferença em termos de posses pode iniciar o stress até antes que seu missionário deixe o campo.

As crianças são suscetíveis a ele tanto quanto os adultos. Bill e Alice, por exemplo, eram os pais substitutos num internato para filhos de tradutores da Associação Wycliffeno norte das Filipinas. Seu filho William teve a oportunidade de passar uma semana em uma aldeia tribal. Algum tempo depois de ele retornar para o internato. Alice o viu parado diante do seu guarda-roupa. Ele estava chorando. Lembrando de como ela mesma se sentia às vezes diante do pouco que eles tinham em comparação com seu estilo de vida em casa, ela foi consolá-lo. Depois de várias tentativas que ele recusava, ela disse: “Não, mãe. Estou vendo que eu tenho demais em comparação com os meus amigos na tribo”.

3. CULTURA

Nosso mensageiro que retorna vem com novas crenças, valores, atitudes e comportamentos. Talvez ele tenha se ajustado a uma cultura que funciona em um ritmo mais lento, uma atmosfera mais tranqüila, uma ênfase maior em pessoas e relacionamentos, alimentos mais saborosos, siesta depois do almoço... As diferenças culturais às quais o missionário pode se apegar são incontáveis.

E quando as agendas e atitudes das pessoas aqui em casa não têm espaço para elas, ele fica irritado e estressado! Uma grande expectativa da maioria dos que retornam é que as pessoas se interessarão por suas experiências. “Tinhamos sido convidados para jantar na casa deles”, escreveu um misionário retornado. Imaginamos que seria uma ocasião para compartilhar nosso entusiasmo com nossas experiência missionária.

Depois de uma refeição deliciosa durante a qual conseguimos encaixar alguns comentários, fomos convidados para a sala de estar. “Agora é nossa vez”, eu pensei. Mas nosso hospedeiro ligou a TV, e disse “Eu imagino que você deve estar ansioso para assistir à final do campeonato em nossa nova televisão de 29 polegadas. “Eu fiquei arrasado!”.

Como é diferente a história que se conta da igreja de Antioquia dando as boas vindas aos seus missionários que voltavam cansados da viagem. “De Atália navegaram de volta a Antioquia, onde tinham sido recomendados à graça de Deus para a missão que agora haviam completado. Chegando ali, reuniram a igreja e relataram tudo o que Deus tinha feito por meio deles e como abrira a porta da fé aos gentios” (Atos 14. 26-27).

4. VIDA SOCIAL

Muitas pessoas põem uma auréola de santidade sobre os missionários. Ele é exaltado como se fosse mais próxima de Deus. “Como podemos nos relacionar com alguém que foi missionário”, eles perguntam. “Sobre o que vamos falar?”. Alguns temem que os missionários sejam contagiosos! “Se nós convidarmos para o jantar, será que meus filhos pegarão alguma doença exótica?”. Pior ainda: “O entusiasmo deles por missões pode pegar em nós!”

O missionário que retorna pode ficar com a impressão de que todo mundo está sempre correndo de um lado para outro. Depois de passar algum tempo aqui, um estrangeiro observador disse: “Na América, todo mundo tem relógio, mas ninguém tem tempo. Em meu país poucos têm relógio, mas todo mundo tem tempo!”. Comparada com o resto do mundo, a vida nas nossas cidades é extremamente corrida.

Quando o seu missionário foi para o campo, seus amigos fecharam a brecha que foi aberta em suas vidas com a partida dele. Os laços sociais podem ter ficado soltos com o tempo. Os antigos amigos das crianças fizeram novas amizades. Famílias queridas mudaram para outros lugares.

Se a comunicação entre o missionário e sua igreja não era boa ou se sua igreja é muito grande, talvez não tenham nem mesmo sentido a sua falta!

Uma missionária que passara dois anos na Europa fazendo um bom trabalho foi saudada pela diretora do seu conselho missionário: “Bem vinda, Fulana! Como foi no Hawai?”

Um missionário de curto prazo, voltando de um ministério de cinco semanas. Foi saudado na igreja. “Fulano! Que bom que você está de volta! Pensamos que você tinha se desviado!”. Foi um golpe para o missionário que voltava, pois isso basicamente significa que a igreja não estava orando por ele durante a sua missão.

Há situações reais que podem causar stress, mas também há situações imaginárias que podem ser igualmente estressantes. Uma família voltou recentemente para sua igreja, que tinham sempre mantido bem informada da sua missão. O marido disse: “Meus melhores amigos passavam direto por mim, quase sem dizer: “Bom dia”, como se eu apenas tivesse estado fora para um fim de semana. Eu fiquei perplexo. Não entendi nada!” Sem amigos não pensavam em fazer-lhe mal. Mas a rejeição imaginária pode ter as mesmas conseqüências da que é real.

5. A LINGUA

Seu missionário que retorna provavelmente aprendeu outra língua – ou, pelo menos algumas frases. Há muitas línguas no mundo que são bem mais descritivas do que a nossa. Pode ser que ele tente expressar-se em nosso vocabulário limitado e se sinta estranho. Stress! Ele pode ter “esquecido” algumas palavras da nosa língua – o que pode ser engraçado ou sem problemas para a maioria dos que o ouvem. Stress! Algumas das suas respostas podem vir automaticamente na outra língua. Mais stress! Além disso, a linguagem popular e a gíria mudaram.

Os adolescentes que retornam podem se sentir especialmente estressado por não saberem qual palavra é legal usar e qual não – ou até se “legal” ainda se usa! Se você vê uma expressão perplexa no rosto do seu amigo que voltou, pode ser de stress por não entender a nossa língua!

6. NAÇÃO E POLÍTICA

Novas lideranças podem produzir novas leis. Você consegue imaginar seu missionário, que partiu quando o limite de 80 km de velocidade por hora era rigidamente imposto nas estradas, e que passou muitos anos só andando de bicicleta, voltando para casa e vendo a velocidade louca das nossas rodovias hoje em dia?

O americano que visitou as cataratas do Iguaçu vai voltar para casa e achar que as quedas do Niágara não passam de uma cascata! O que acontece com nosso orgulho nacional quando descobrimos que a televisão européia tem uma imagem bem mais nítida que a nossa? Ou quando o sistema de transporte de massa das grandes cidades do mundo faz nossos engarrafamento e nossa poluição parecerem uma desgraça? Stress!

Depois de ver o outro lado da nossa política extena, a oportunidade do seu missionário sobre a política do seu país pode ter mudado. É possível que seu mensageiro tenha gostado mais do governo do país onde morou. Cingapura, por exemplo, é uma nação muito mais tranqüila e agradável do que a nossa. Quem morou em países mais socialistas, que proporcionam mais benefícios sociais aos seus cidadãos, pode estranhar o capitalismo que impera aqui. Só de ler no jornal os temas que preocupam a nossa sociedade, o missionário retornado pode ficar estressado! É nessas horas que você, como especialista em apoio na reentrada, precisa estar com os olhos e os ouvidos abertos!

7. EDUCAÇÃO

Os padrões formais e informais de educação são diversos no mundo. Filhos de missionários podem ter sido educados em casa ou em um internato durante anos, nesse caso longe dos pais. Agora que eles têm de ir a uma grande escola pública, é compreensível que os pais fiquem preocupados. As próprias crianças podem sentir que estão numa situação potencialmente destrutiva, tanto em termos educacionais quanto sociais.
___________
Texto de autoria de Neal Pirolo. Publicado no livro "Missão de Enviar - Como Sustentar o seu Missionário. da Editora Descberta Ltda. Londrina. 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

QUEM É O CONTRIBUINTE DE MISSÕES NO BRASIL?



Vamos agora conhecer o perfil do contribuinte de missões no Brasil, suas motivações, envolvimento e expectativas.


Existe um texto no primeiro livro do profeta Samuel, em que o Rei Davi esclarece que tanto os que desceram à peleja quanto os que ficaram guardando a bagagem “receberão partes iguais” (3021-24), afinal, todos contribuíram para que a vitória contra o inimigo ocorresse.

A exemplo das Sagradas Escrituras, entendo que o “contribuinte” de missões também é um missionário e tanto o que tem o ministério de ficar, quanto o que tem o ministério de ir, receberão sua parte ou galardão. É aquela velha história: um vai, outro financia e o outro ora. De qualquer forma TODOS são comissionados.


A pergunta é qual a minha parte nessa história toda? Um dia, ouvi, aliás com muita propriedade, uma pessoa dizer que na Igreja você se enquadra em uma das duas únicas categorias de pessoas que existem: ou você é um missionário ou então, um “campo missionário”. E eu, feliz da vida, só pude dizer: AMÉM!


Ainda sobre esse assunto, há uma frase famosa e muito difundida no nosso meio, cujo autor é o renomado missionário inglês William Carey, que diz: “Existem dois tipos de missionários, aquele que desce o poço e o que segura a corda”.


Agora que já sabemos que todos os homens e todas as mulheres que um dia foram lavados e remidos pelo sangue do Cordeiro são missionários, fica mais fácil darmos continuidade ao assunto. Contudo, em detrimento da conclusão que acabamos de ler, os crentes, de uma forma geral, se enquadram em certas categorias quando falamos sobre àquele que contribui.


Veremos então essas categorias:


O AMIGO – é aquele que contribui com o missionário porque é amigo pessoal dele. Já o conhecia antes de ir ao campo, já se relacionavam, sabe de sua seriedade e compromisso. Acima de tudo o considera seu grande amigo.

O FRUSTRADO – é o que contribui porque ele mesmo gostaria de ser um missionário. Contudo as coisas não saíram como ele queria e contribuindo ele sente que tal missionário está sendo missionário no lugar dele.


O VISIONÁRIO – esse contribuinte quer ver o propósito de Deus sendo cumprido no mundo e sente-se responsável por isso. Seu pressuposto está em Mateus 28.19.

O CONSTRANGIDO – esse aqui sente desconforto em dizer “NÃO” quando é desafiado a se envolver num ministério.

O APAIXONADO – é motivado pelo amor que sente por Jesus. Além disso, acha que dando ao missionário está dando também a Deus.

O SOLIDÁRIO – esse contribuinte é sensível à grande necessidade mundial do conhecimento de Cristo. Ademais, ele se sensibiliza com a miséria, menores abandonados, epidemias, guerras, etc. Ele também poderia ser chamado de o “empático”.


O PAIZÃO – geralmente são pessoas idosas, que resolvem “adotar” o missionário e trazê-lo guardado no coração como um filho. Pode ser também a mãezona.


O ABENÇOADO – esse aqui contribui porque recebe bênçãos as quais atribui ao fato de ter ofertado.


O TRANSVISIONÁRIO – ele já é um missionário atuante e por admirar o ministério de alguém quer abençoá-lo financeiramente.


O ESCLARECIDO – contribui por saber que o trabalho que determinado missionário realiza é em última instância, um trabalho de Deus.


O CORPORATIVO – esse aqui nem sequer conhece o missionário, mas conhece a missão ou organização a que ele pertence e a admira muito, por isso, contribui.


O INTERESSEIRO – contribui para poder deduzir do importo de renda.

O PARENTE – esse contribui por ser parente do missionário. Ele pode nem ser crente mas deseja participar daquele “trabalho”.


O VAIDOSO – esse quer ver seu nome publicado no jornal da denominação ou na lista dos contribuintes de determinado ministério


O ANÔNIMO – em contrapartida, há aquele que deposita a oferta para alguém sem jamais se identificar, crendo que o importante mesmo é Deus saber sobre seu ato e suas intenções.


O ARTICULAR – é aquele que, além de contribuir, movimenta a igreja, faz campanha e incentiva outras a contribuírem.


O INDECISO – é aquele que a cada mês envia a oferta para um missionário diferente.


O PAPAI NOEL – aquele que só contribui em dezembro.


O OPORTUNISTA – só manda a oferta quando está bem financeiramente, sem dívidas, ou com algum dinheiro sobrando.

O OVELHA – só contribui para os projetos ou missionários autorizados pelo pastor da igreja.


Observando essa lista, vemos que alguns contribuintes são mais louváveis e outros nem tanto. Um desafio para nós, missionários, seria passar paulatinamente a visão correta para nossos contribuintes, não nos esquecendo de negar todo esse processo com muita oração.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

MISSÕES E CUIDADO EM CONTEXTOS DE RISCO E DE SOFRIMENTO

Graduada em Letras com Mestrado em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo e Doutorado em Missiologia pela Asia Graduate School of Theology, Filipinas. Serviu por 10 anos como Missionária em Angola. É professora e Coordenadora de Desenvolvimento da Escola de Missões do Centro Evangélico de Missões.


O sofrimento faz parte da carreira missionária dos que seguem os passos e o ministério de Jesus. Foi assim com nosso Mestre. Ela nos advertiu de que também sofreríamos e nos chamou a calcular os custos para ver se estamos dispostos a servir e perseverar até ao fim. (Lc 9.23, 57-62; 14. 25-33).

Jesus não facilitou a vida de seus seguidores, buscando os pregadores, os cultos, os programas e o louvor que mais nos agradam e o lugar onde podemos “obter” mais bênçãos com o menor custo. Nossa tendência é a de rejeitar qualquer coisa que exija um pouco de sacrifício. Esta não é a forma de tomar a cruz e renunciar a nós mesmos. Jesus nos convida a andar no seu caminho, seguindo seus passos. Para que o Reino de Deus venha e a sua vontade seja feita (como oramos no Pai Nosso), precisa-se de pessoas dispostas a lutar contra as trevas, e ser sal e luz em meio à maldade, dor e desesperança.

SERVIR A DEUS EM CNTEXTOS ATUAIS DESAFIADORES

Devemos reconhecer qual é a realidade da maioria dos campos missionários mais carentes e menos alcançados em nossos ldias. São países em povos onde há guerras, conflitos tribais e perseguição religiosa crescente, regiões dominadas por enfermidades tropicais ou contextos urbanos empobrecidos e violentos. Além disso, têm-se tornado mais freqüentes grandes catástrofes naturais, causando mortes e sofrimento a milhares. Essas realidades abrem novos campos para nosso serviço de amor e exigem de nós uma adaptação especifica, com coragem sabedoria e sensibilidade, para aproveitarmos as oportunidades de darmos nosso testemunho cristão ao povo.

Não buscamos intencionalmente o sofrimento, entretanto, se queremos alcançar os perdidos menos alcançados, teremos de servir em selvas, entre grupos que vivem distantes dos grandes centros ocidentais, onde nossa presença será questionada – teremos inimigos simplesmente por estarmos ali em nome de Cristo. Serviremos entre povos fundamentalistas, orgulhosos de sua cultura e de sua religião as quais representam sua identidade, e entre grupos que sofreram com a imposição de políticas colonialistas e exploratórias. Serviremos entre povos que sofrem os horrores da guerra e que perderam seus entes queridos: crianças traumatizadas que presenciaram a morte violenta dos pais, pessoas que foram física e emocionalmente estraçalhadas. Teremos de servir em lugares onde o simples interesse em ler ou ser uma Biblia já pode causar intensa oposição ou mesmo a morte.

Temos de reconhecer que algumas reações negativas vêm pela maneira com que a missão é feita, todavia, a razão maior da resistência ao Evangelho não é a questão da cultura e sim o fato de existir uma batalha espiritual, a resistência do próprio Satanás querendo impedir que povos ou grupos de pessoas sem Deus e sem esperança venham a descobrir as alegres e boas-novas do amor de Cristo.

Além disso, temos de aprender línguas complicadas, mudar nossa forma de viver para outras formas que nos são estranhas, permitir que nossos filhos integrem uma cultura que talvez não nos agrade. Podemos estar servindo com toda dedicação e fidelidade e ser mal interpretados, questionados ou ver nossa presença ser ressentida simplesmente porque somos estrangeiros.

Depois vêm as saudades da pátria, da família, da igreja, dos amigos, a preocupação com os pais que estão ficando mais idosos e precisam de nossa presença e a preocupação constante com a vida, com os estudos dos filhos e com o futuro deles. Será que estamos prejudicando-os ao obrigá-los a partilhar a vida missionária conosco? Vem a solidão e a necessidade de alguém que nos entenda. Acabamos sendo duplamente estrangeiros, no campo e, talvez, ainda mais quando voltamos ao lar – é aí que percebemos quanto mudamos. Mesmo nossa família os líderes de nossa igreja e nossos melhores amigos não entendem as coisas que mais ardem em nosso coração, nossa dor e nossa desorientação.

Será que vale a pena enfrentar tudo isso? Eu creio que vale a pena em primeiro lugar, porque é muito limitada a resposta aquilo que o Senhor da glória fez para nos salvar e nos tornar filhos amados do Deus Pai, segundo porque nossa vocação é aquilo que no fundo mais satisfaz nosso ser, é aquilo para que fomos criados. Causa-nos imensa satisfação e alegria estar no centro da vontade de Deus. É ainda: cada pequeno fruto ou broto ou sinal de vida quanta alegria nos trazem.

Como foi bom, quando eu estava em Angola, depois de meses de debates difíceis com um ou outro marxista convencido, poder perceber como a luz de Deus penetrava sua mente e mudava sua perspectiva e o transformava em filho de Deus, em testemunho do amor lde Jesus que o alcançou. Visitando os hospitais cheios de doentes com pouquíssimos recursos e feridos da guerra, encontrei muito desespero e falta de vontade de continuar a lutar e viver e vi como o amor de Jesus transformava a vida dessas pessoas, dando-lhes nova coragem, nova razão para viver, para lutar pelo que é bom e poder servir aos outros. Vi pessoas que conheci como estudantes secundaristas ou universitários, servir a Deus e ao próximo com sabedoria, alegria e dedicação... Vi o ministério entre deficientes físicos que comecei a sonhar há anos, sendo desenvolvido sacrificialmente pelos próprios deficientes, com fervor, luta perseverante e amor. Sim, valeu a pena!
 _________
O texto é de autoria da Missionária Antonia Leonora van der Meer. Publicado no Livro Cuidado Integral do Missionário. Publicado pela Editora Betal Publicações – João Pessoa, PB. 2011 paginas 67-69.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

SE O SEU DEUS É TÃO GRANDE, POR QUE ELE NÃO FALA A MINHA LÍNGUA?


Uma relevante reflexão sobre a importância da tradução da Bíblia para línguas indígenas

“Tohô niîmikã, Jesu Cristore ?ho peótirã de’ró weé akobohóse s?ri boósari? K??? yeé kitire t?’otímirã, de’ró weé naâ ?ho peó boosari? Naâre wererã? marikã?, de’ró weé naâ tee kitíre t?’o boósari? Õ’âk?h? ? werê dutig? o’ôo’tikã, ãpêrãre werêrã wa’âti boosama. Õ’âk?h? ? yee kiti ohâka p?rip? niîro nohota a’tîro niî? 'Ãpêrã marîre ãyuró ehêri põ’ratise kitire, apêye Õ’âk?h? ? yee kitire mii ehákã, p?ûro e’katí', niî ohâ no’o.” (Romanos 10.14-15 – Língua Tukano)

“Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas.” (Romanos 10.14-15.)

Essas palavras impactaram a vida de um missionário chamado Cameron Townsend. Palavras proferidas por um indígena Cakchiquel da Guatemala, indignado com o missionário por lhe oferecer uma Bíblia em espanhol.

Naquele momento, Cameron Townsend percebeu que Deus estava lhe chamando para trabalhar na tradução da Bíblia para aquele povo. Ele deixou o que estava fazendo e foi morar com os Cakchiquel, para aprender sua língua e, posteriormente, traduzir a Bíblia para aquele idioma.

Foi este mesmo homem que, mais tarde, fundou a Wycliffe Bible Translators (Sociedade Internacional dos Tradutores de Bíblia) que já auxiliou na tradução da Bíblia em mais de 700 idiomas e tem hoje mais de 1500 traduções em andamento em quase 100 países diferentes. Mas o clamor ainda continua ecoando. Das 6.900 línguas existentes no mundo, apenas 451 contam com a Bíblia completa.

Hoje, existem 2.200 línguas que não possuem sequer um versículo das Escrituras e que juntas somam mais de 350 milhões de falantes. Isso quer dizer que mais de 350 milhões de pessoas não têm o mesmo privilégio que você tem.

Nós podemos ouvir a Deus em nossa própria língua a hora que quisermos. Tudo o que precisamos fazer é pegar uma Bíblia de nossa estante e abri-la. A Palavra Eterna do Deus eterno, a única capaz de saciar a fome espiritual do ser humano, está ao nosso alcance, em nossa própria língua.

Mas ainda não está ao alcance deles. E, por incrível que pareça, estes povos não estão tão longe de nós. Só no Brasil, existem mais de 180 línguas indígenas, das quais apenas três possuem a Bíblia inteira.

Até mesmo no interior do nosso estado existe uma língua indígena, a língua Maxakali, que conta apenas com o Novo Testamento. O que já é uma grande bênção, haja visto que a grande maioria, mais de 140 línguas, não possui sequer o Novo Testamento.

Diante dessas coisas, fica a pergunta: o que faremos?

Em primeiro lugar devemos orar para que mais pessoas deem ouvidos ao clamor desses povos. Que, assim como o apóstolo Paulo, existam outros dispostos a deixar o caminho que seguem e atender o clamor que diz: “Passa à nossa aldeia, e ajuda-nos!”

Que o mesmo Espírito que impulsionou os discípulos em Pentecostes a falar nas línguas maternas dos ouvintes, também incline o coração da Igreja para as línguas que ainda carecem de tradução das Escrituras.

Você pode orar: Pela visão 2025 da Wycliffe Bible Translators, que é a visão de até 2025 ter uma equipe de tradutores trabalhando em todas as línguas que ainda precisam de tradução.

E abra seus ouvidos, meu amado irmão. Pois, Deus pode querer usar você como resposta de oração.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

OS RELACIONAMENTOS AJUSTADOS PELA ORAÇÃO



Missionária Durvalina Bezerra
Sempre haverá divergências de opinião numa equipe missionária pela diversidade cultural, tipos de prsonalidade e questões doutrinárias, tensões às vezes até conflitantes. Isso é normal, porquanto o Criador, versátil em suas obras nos fez bem distintos uns dos outros, mas nos limites da humanidade. Aqui está a beleza da diversidade que deve ser expressa na unidade como os matizes de uma mesma cor. Aceitar e respeitar as diferenças são atitudes imprescindiveis para a comunhão cristã e para o desenvolvimento do trabalho missionário.

Sabedor dessa verdade, o Senhor Jesus intercedeu pela unidade de seus discipulos. "A fim de que todos sejam um", no modelo da Trindade. (...) Para que o mundo creia que tu me enviaste". (João 17.21).
Oração produz interação entre as pessoas e promove a unidade do corpo. É necessário orar pela unidade da equipe, mas é também necessário exercitar a vigilância e o perdão para se manter a unidade, tratando-se as questões divergentes com o amor cristão.
A Palavra declara que o Espírito Santo nos ajuda em nossas fraquezas porque não sabemos orar como convém (Rm 8.26. Durante a oração ele nos ajuda a perceber as pessoas nas suas virtudes e nos seus limites - a vulnerabilidade humana. Ninguém está isolado neste mundo. A pessoa que faz parte do contexto em que oramos é objeto do amor de Deus, como também o somos. É uma graça poder ver a pessoa pelos olhos de Deus e não pela falha cometida. às vezes rotulamos uma pessoa por causa de um simples deslize e rejeitamos outra em sua forma de ser. Na oração, o Espírito nos faz perceber as pessoas nos seus limites e fraquezas, e nos faz lembrar que ninguém é perfeito. Ele nos conduz a um novo julgamento da questão, nos dá luz para observá-la por vários ângulos, pois nenhum problema deve ser visto só por um prisma, seja o da racionalidade ou o da sensibilidade. É imprescindível levar em conta as diferenças. Ninguém é suficiente em si mesmo. Só Deus a si mesmo se basta!
Se fossemos capazes de ver o outro nos limites da humanidade, não discriminaríamos ninguém, porque somos todos iguais e a cruz nos niveis como pecadores necessitados da graça. Jesus provou a nossa humanidade e nos conhece profundamente. O evangelista afirma: "É não precisava de que alguém lhe desse testemunho a respeito do homem, porque ele mesmo sabia o que era a natureza humana". (João 2.25). A oração nos faz ver como Deus nos vê através do seu amor. Ao percebermos quem somos na presença de Deus, vemos também o outro, que faz parte da nossa humanidade. É através do amor exercitado na oração que podemos ver o outro como Deus nos vê.

À medida que Deus revela seu amor por nós e nos dá espaço "para sermos nós mesmos", o trabalho e a alegria da vida humana passam a ser a de compreender, afirmar e amar o outro como outro, quer seja homem ou mulher".

Exercer a compaixão quando o outro falha é uma atitude cristã. Jesus nos advertiu: "Amarás o Senhor, teu Deus (...) Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mt 22.37-39).Jesus nos ordena a amar o outro porque ele sabe quanto nós nos amamos.
A psicologia humanista tem estimulado as pessoas a buscar uma autoestima elevada, confundindo amor-próprio com egoismo. Esse estimulo tem prejudicado as relações interpessoais temos negado o perdão ou nos abstemos de pedir perdão e reconhecer as nossas falhas diante do outro. Isto gera raiz de amargura que, brotando, nos perturba e, por meio dela, muitos são contaminados (cf. Hb 12.15). Paulo não hesitava em oferecer perdão: " (...) também eu perdoo (...); para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os designios" (2Co 2. 10-11) Há momentos em que sentimos que há uma oposição a uma pessoa sem razão nenhuma, por isso, devemos buscar o discernimento espiritual para perceber a malignidade que vem impedir a comunhão com o colega.

Deixar vencer é recusar-se a perceber e identificar as manifestações das obras das trevas. É ignorar seus esquemas, todos eles inspirados por uma forma de elevadissima inteligência maléfica".

Buscar a oração como fórmula divina para o exercício da fraternidade e da amizade, para se quebrarem as barreiras e sermos curados das nossas mazelas, é o melhor caminho. Na oração paulina, o apóstolo pede que compreendamos as dimensões do amor de Deus, mas deixa claro que essa compreensão se processa na interação com todos os santos. Nunca isolados, mas interagindo como corpo de Cristo, usando a oração como expressão de amor reciproco, teremos entendimento do amor divino e seremos tomados de toda a plenitude de Deus, conforme o texto de Efésios 3. 1-19).

Este texto é de autoria da Missionária Durvalina Bezerra, e foi publicado no Livro Perspectiva do Cuidado Missionario, paginas 196-198 pela Editora Betel Publicações. João Pessoa, PB. 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A EFICÁCIA DA ORAÇÃO NO CUIDADO MISSIONÁRIO

“Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio” (Jo 20.21)
Como seguidores do Senhor Jesus, tendo-o por nosso supremo exemplo, queremos compreender a maneira com que ele se utilizou do exercício da oração como forma de cuidar de si mesmo e manter-se fiel ao Pai e aos objetivos da missão a que foi enviado.


A ORAÇÃO ENTENDIDA COMO UM ESTADO DE PRESENÇA VENCE A SOLIDÃO.


O cristão se fortalece com a presença divina percebida mediante a vida de oração. Deus nos proporciona um estado de sua presença que vence a solidão humana.
Como homem o Senhor Jesus enfrentou lutas e necessitou de cuidados como qualquer enviado. A sensação da solidão foi vencida pela continua presença do Pai na sua vida: “Aquele que me enviou está comigo, não me deixou só...” (Jo 8.29). Jesus vencia a solidão pela conversa constante com o Pai. Os evangelhos registram que ele sempre buscava um lugar onde pudesse estar a sós com o Pai. Para isso, despedia as multidões e subia o monte a fim de orar (Mt 14.23). A oração era uma prática pessoal, que Ele ensinou, dizendo: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). A solidão pode ser vencida nesses momentos de comunhão intima com Deus, quando a alma interage com a pessoa divina e em intimidade com o Senhor usufrui a sua presença.
Creio que o tempo gasto diariamente perambulando pela presença de Deus é um grande antídoto para o esgotamento e outras enfermidades decorrentes do estresse, quando gastamos tempo com Deus, somos capazes de fazer como se diz em 1 Pedro 5.7 [...]. Descobri o grande livramento que vem ao entregar conscientemente os nossos fardos a Deus.

A oração comunitária é indispensável, freqüentar as reuniões de oração é salutar, mas nada substitui a oração a sós com Deus. É necessário o momento solitário, porque ali abrimos a alma para expressar o que ninguém mais precisa ouvir. Quem nos entende perfeitamente senão o nosso Pai? Quem conhece as incoerências da nossa alma senão o divino Criador? Nesses momentos solitários, não devemos ser interrompidos por ninguém nem buscar companhia. Deve-se fugir às interferências, a exemplo de Moisés, que costumava tomar a tenda e armá-la para si, fora do acampamento, e lhe chamava a tenda do encontro. E quando Moisés entrava na tenda, o Senhor falava com ele “face a face, como lquem fala a seu amigo” (cf. Ex 33. 7-11). Esse é um tempo de concentração reservado para a alma entrar em profunda comunhão espiritual, usando uma linguagem que só os céus podem discernir.
Esse momento de enlevo espiritual e comunhão profunda experimentaram os grandes homens de Deus em toda a história do Cristianismo. É nesse tempo de comunhão que se dá a percepção mais profunda e a interiorização da presença do Ser divino na perspectiva singular e pessoal daquele que, ao se encontrar com Deus, percebe-se a si mesmo no ser de Deus. É nessa hora que o céu desce à terra e a terra é céu. Há uma interação entre o divino e o humano. Há uma comunicação aberta cuja linguagem perpassa o código da comunicação humana. Cientistas dos E.U.A fizeram experiências com pessoas em oração e descobriram em certo momento de êxtase que o cérebro alcança um nível que ultrapassa o plano comum da humanidade.
O Senhor Jesus sempre se sentia na presença do Pai, ele tinha o Pai em constante presença pela oração. A mente e o coração estavam sempre ligados ao Céu. Foi refletindo nesse modo de orar que pode entender a ordem paulina: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). O Senhor Jesus veio revelar o Pai, ele nos ensinou a nos ver na face do Pai pela oração, numa relação constante. Ele nos deu exemplo, pois sua relação com o Pai pela oração deve ser seguida. Jesus fazia da oração um estilo de vida. A oração era a atmosfera da sua alma.
O missionário e pastor Ronaldo Lidório fez uma pesquisa com os missionários que estão em campo transcultural e constatou que a solidão é um grande desafio que os afeta e que eles precisam superar. Isto acontece não só com os solteiros, mas também com os casados, mesmo com os que trabalham em equipe, pelo fato de estarem longe dos seus familiares, numa cultura diferente, não podendo se comunicar na língua da alma, sua primeira língua, pelo distanciamento geográfico de seu povo, seus usos e costumes etc. Um agravante deste sentimento de solidão é a falta do senão da presença de Deus pela oração.
Com que freqüência temos estado na presença de Deus em oração? Não estou me referindo àquela prática que temos como dever cristão, orações já programadas, repetidas. Desfrutar a presença de Deus é tornar a oração um diálogo e desenvolver os sentidos e relacionar-se com Deus como um pai amoroso. A salmista expressa essa verdade: “Fiz calar e sossegar a minha alma, como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo” (Sl 131.2). É uma relação de dependência e confiança: “Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus senhores e os olhos da serva na mão de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor nosso Deus” (Sl 123.2).
O prazer da presença divina enche o coração de satisfação, faz suspirar a alma com desejo interno de desfrutar a presença que abriga, acolhe e preenche o vazio interior. É experimentar a existência num estado de presença, como o salmista que declara: “O Senhor, tenho-o sempre à minha presença; estando ele à minha direita, não serei abalado” (Sl 16.8). É suspirar por Deus para encontrar nele o sentido e a plenitude da vida.

Texto de autoria da Missionária Durvalina Bezerra, publica no Livro “Perspectivas do Cuidado Missionário... paginas 185-188. Editora Betel Publicações. João Pessoa, PB 2011.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A COSMOVISÃO DE POVO E A PREGAÇÃO DO EVANGELHO

“Quando chegou a manhã, lá estava Lia. Então Jacó disse a Labão. Que foi que você me fez? Eu não trabalho por Raquel? Por que você me enganou? Labão respondeu. Aqui não é costume entregar em casamento a filha mais nova antes da mais velha” (Gênesis 29. 25.,26)

Mesmo tendo vivido por mais de sete anos na região de Padã-Arã, o texto bíblico parece indicar que Jacó não conhecia bem os aspectos da cultura local. Caso contrário, teria descoberto que era costume os pais oferecerem em casamento primeiro a filha mais velha. A mais nova só se casava depois que a primeira tivesse sido dada em casamento. O resultado do descompasso cultural foi que Jacó, além de permitir ser enganado, teve que trabalhar mais sete anos (um total de quatorze) para que pudesse pagar por Raquel, a filha mais nova. Em nossa jornada missionária, estamos sujeitos a tropeços semelhantes.
Principalmente se desconsideramos que comportamentos, crenças e valores de um povo são determinados por sua visão de mundo (cosmovisão). Essa visão de mundo é a leitura que é feita da realidade ou maneira que se enxerga e interpreta o universo à volta. Ela molda todos os aspectos da vida de determinada comunidade, define a realidade e estabelece padrões para o relacionamento com o material e o espiritual.
A maioria dos estudiosos sobre o assunto ilustra a idéia afirmando que em cada sociedde as pessoas aprendem a decodificar o mundo atravéds de lentes culturais. Isso acontece sem sequer se darem conta de que essas lentes existem.
Por essa razão, povos distintos observam cenários, pessoas e situações semelhantes, mas chegam a conclusões diferentes. Se não formos capazes de compreender a visão de mundo do povo no qual trabalhamos, jamais entenderemos seus padrões de comportamento.
Assim sendo, enfrentaremos inumeras dificuldades até entendermos as pessoas e sermos entendidos por elas. Nesses casos, não há dúvidas de que os relacionamentos serão prejudicados.

POR TRÁS DOS COMPORTAMENTOS
Para determinado povo, chegar 15 minutos antes do horário quando se recebe um convite para jantar é uma atitude educada, porque assim, além de evitar o atraso, numa eventualidade se pode, até mesmo ajudar a família a finalizar a preparação da mesa.
Já na visão de outro povo, a gentileza está em chegar 15 minutos depois, para não pegar a família ainda se preparando para a ocasião. Diante desses dois comportamentos poderíamos indagar¨”Qual deles é o mais apropriado?”. O nosso primeiro impulso pode ser o de responder a essa pergunta conforme os padrões estabelecidos em nossa sociedade.
Considerando sinceramente o dilema, podemos afirmar que os dois povos agem de forma adequada, de acordo com os seus padrões culturais. Portanto, os dois estão completamente corretos em sua maneira de agir.
Outro exemplo que aponta para a diversidade dos comportamentos culturais é a experiência da missionária que enfrentou grandes dificuldades com o povo que pegou sem autorização as roupas penduradas no varal.
Na concepção dela, o povo estava roubando seus pertences. Que absurdo! Na concepção deles, ninguém é dono de nada nesta vida e cada um deve compartilhar com o outro aquilo que administra. Principalmente, quando alguém possui mais de cinco objetos iguais ou com a mesma função... Interessante, não?
Antes de questionarmos a sociedade em contato e de sermos precipitados em apontar o dedo e promover julgamentos, precisamos fazer parte dela e conhecê-la em uma perspectiva étnica, ou seja, or meio de uma visão aprofundada de alguém que não é apenas um observador, mas parte do ambiente em que a cultura acontece.
Quando nos esforçarmos para aprofundar o nosso conhecimento sobre determinada cultura, precisamos, também, reconhecer que a pluralidade encontrada no comportamento dos povos é um reflexo de crenças em teorias formuladas a partir da leitura que se faz do universo ao redor. Em outras palavras, os comportamentos são moldados pela cosmovisão de cada povo, pois agimos de acordo com o que cremos.
Esse quadro sugere que o nosso empenho deve ir além de apenas observar a manifestação de comportamentos, antes, é fundamental tentarmos compreender o que está por trás deles.
Considerando em particular o contexto de alguns povos africanos, no leste da África, podemos afirmar kque somente observando suas crenças conseguiremos chegar a uma compreensão da manifestação de certos comportamentos. Em vez de condenar ou romantizar as culturas, a nossa tarefa é tentar enxergá-las com ponderação, a fim de compreendê-las. Do contrário, os comportamentos do povo não farão sentido e servirão como pontos de tensão em nosso relacionamento cotidiano.
Outra observação importante é que é preciso ter cuidado com pressuposições a respeito do contexto cultural em contato ou do povo que se deseja alcançar. Exemplificando no Brasil, é comum estabelecermos generalizações em relação aos africanos e olharmos para a Africa como se fosse apenas um país. Mediante esse comporftamento desc onsideramos a enorme heterogeneidade de um continente com 54 países, duas importantes sub-regiões a África Branca, ou Setentrional, e a Negra, ou Subsaariana, e riquíssima diversidade étnica.
Muitas pessoas imaginam que a África é um país onde tudo é igual, onde todas as pessoas falam a mesma língua e têm os mesmos costumes. Isso é um equívoco total. Para começar a África não é um país, mas, sim, um continente; continente enorme, com aproximadamente 30 milhões de km2, cerca de quatro vezes o tamanho do Brasil (que é um país de tamanho continental!).
Ao todo a África possui 54 países soberanos. Isto é, política e geograficamente independentes.
Portanto, a África é um vasto continente que exibe, uma intensa multiplicidade e complexidade sociocultural e econômica. É um verdadeiro mosaico de povos e culturas.
É um grave descuido verbal generalizar as informações, principalmednte quando se trata de lum continente com as dimensões e multiplicidades da África; apesar de existirem significativas semelhanças entre a maioria dos países, nem tudo que se vê em um país é exatamente a mesma coisa em outro. Imagine as dificuldades que o nosso missionário terá ao chegar a um país da África com uma visão equivocada do continente.
Será possível ter uma visão realista do campo que está inserido? E o que dizer a respeito do estudo da cultura e da compreensão da visão de mundo do povo em contato?

TORNANDO A MENSAGEM COMPREENSÍVEL
De fato, conheceremos uma sociedade quando formos capazes de entender a leitura que o povo faz do que está ao redor. Essa compreensão será fundamental para a apresentação do evangelho e para a edificação de uma igreja sadia. Se o povo demonstra medo dos espíritos e de outros poderes sobrenaturais, o en sino bíblico acerca desse assunto deve ser apresentado para que a visão de mundo da comunidade seja afetada e haja compreensão biblica a esse respeito.
As se estamos aplicando as Escrituras sem levar em consideração a cosmovisão local e tentando tratar problemas que não fazem parte do seu cotidiano, a mensagem jamais fará sentido, deixando de exerc er o seu poder de transformação. Pregar um sermão a respeito da instabilidade emocional do homem pós-moderno poe não ter qualquer conveniência para o povo Euê, em Togo.
Veja um problema enfrentado por missionários que não levam em consideração a visão de mundo do povo. Às vezes um sistema novo ou rival de crenças é introduzido, mas a cosmovisão não é confrontada e permanece sem mudar, de modo que os valores e o comportamento refletem o antigo sistema de crenças. Algumas vezes, as pessoas que compartilham o evangelho em situações transculturais deixam de levar em conta o problema da cosmovisão e ficam, portanto, desanimadas com a ausência de mudança genuína que deveria ser produzida por seus esforços. Compreender a visão de mundo de determinado povo é de fundamental importância. Sem essa compreensão, seremos incapazes de influenciar o mundo deles. Nesse caso, permitiremos qaue tanto as nossas indagações sobre a cultura quanto os seus questionamentos a respeito de Deus e do evangelho permaneçam sem respostas....

Autor: Jairo de Oliveira, publicado no livro Vida, Ministério e Desafios no Campo Missionário. Uma abordagem contemporânea sobre missões. Da Livraria Press Abba.

sábado, 5 de novembro de 2011

APRENDIZADO DE LÍNGUA NO CAMPO MISSIONÁRIO


“Diziam. Então diga: Chibolete. Se ele dissesse, Sibolete, sem conseguir pronunciar corretamente a palavra, prendiam-no e matavam-no no lugar de passagem do Jordão. Quarenta e dois mil efraimitas foram mortos naquela ocasião” (Juízes 12.6).

Oséias foi enviado para trabalhar como tradutor da Biblia para determinada língua, falada em uma das ilhas do Oceano Índico, na costa leste africana. Seu bom conhecimento de francês, em razão de sua descendência suíça, ajudou-o no princípio, quando as primeiras crises na adaptação surgiram. Mas, com o passar do tempo, sua habilidade com a língua oficial do país foi se tornando um obstáculo para aquilo que era um dos principais alvos do seu trabalho, o aprendizado da língua local e a produção de uma tradução bíblica que beneficiasse as comunidades isoladas no interior do país .

O problema começou a se agravar ao longo dos primeiros meses e anos porque seu comodismo jamais fora confrontado por uma liderança de campo que exigisse uma postura mais adequada ou algum tipo de relatório do seu desempenho lingüístico. Todos o consideravam hábil e o admiravam em sua capacidade de comunicação na língua francesa e até se beneficiavam do fato, transferindo para o jovem a maioria dos compromissos que envolviam a tarefa do ensino. Sete anos depois, sem ter aprendido o suficiente da língua local para ao menos, iniciar uma tentativa de tradução da Biblia para aquele idioma. Oséias arrumava suas malas para retornar ao seu país de origem.

Apesar de toda a sua preparação lingüística para servir como um tradutor da Biblia, ela estava desistindo de seu projeto, pois, além de não conseguir lidar com fortes sentimentos de frustração e fracasso, havia perdido totalmente o foco do seu trabalho. Encarar com seriedade o aprendizado da língua do povo que desejamos alcançar no campo missionário é assunto central em nossa ação transcultural. É verdade que o processo de aquisição lingüística não se trata de tarefa simples, porém, vital e inegociável. Foge ao escopo deste material alistar as razões (muitos outros já o tem feito com bastante propriedade), mas descrever o processo em si, sugerindo caminhos a serem trilhados por aqueles que corajosamente assumem tamanho desafio.

OS PRIMEIROS PASSOS
Ao desembarcarmos em um novo ambiente lingüístico, para que possamos nos comunicar com sucesso, temos que nos esforçar bastante em diversas áreas. Ao iniciarmos o processo de aprendizado de determinado idioma, devemos estar preparados para enfrentar experiências complexas que nos trarão alegrias e tristezas. É imprescindível sermos bem-humorados, perseverantes e dedicados nessa jornada. De outra forma, não iremos progredir. A dificuldade para entender o que se fala. O empenho para pensar na nova língua. As decepções quando não somos compreendidos ou quando a nossa pronúncia provoca gargalhada nos ouvintes. Tudo isso pode nos deixar abatidos, exaustos e, até mesmo, com vontade de desistir da tarefa. Nesse período, a sensação de que estamos sendo alfabetizados é constante.

Lembro-me que em nossa segunda semana vivendo no norte da África. Fomos comprar lâmpadas numa loja perto de casa. Como não tínhamos ainda habilidades suficientes para nos comunicar em árabe (nem mesmo para pronunciar os números), levamos um caderno de anotações para que o vendedor escrevesse o preço das lâmpadas. Ao chegarmos na loja, apontamos para o modelo da lâmpada na prateleira e, em seguida, para o caderno. Com isso, o vendedor entendeu que estávamos interessados em lâmpada e queríamos saber o preço. Prontamente, ele anotou o valor de 15 dirhams (moeda local), o que para nós parecia bastante razoável. Adiantei-me e fiz um sinal com as mãos, indicando que queríamos seis lâmpadas no total.

Para nossa surpresa o vendedor entendeu a mensagem errada e pensou que estávamos banganhando o preço da lâmpada, sugerindo que em vez de 15 dirhams pagássemos apenas 6 e veementemente demonstrou que não venderia por menos. Tudo bem! Balançamos a cabeça tentando demonstrar que estávamos satisfeitos com o preço apresentado e tentamos explicar que o número 6 representava apenas o número de lâmpadas que queríamos no total. Mais uma vez ele não entendeu a nossa linguagem não verbal e foi aí que o cenário ao nosso redor começou a ficar engraçado. Em poucos minutos, tínhamos um grupo de pessoas na porta da loja, algumas tentando ajudar, outras apenas dando risadas. Somente depois de muito esforço e com a intervenção de um segundo vendedor é que conseguimos comprar as seis lâmpadas.

Na verdade, durante as primeiras semanas e meses do processo do aprendizado de uma nova língua no campo, voltamos a nos sentir e a nos comunicar como crianças. O professor William Smalley descreve, com mais detalhes, essa fase de inabilidade na comunicação: “Quando um recém-chegado desembarca em um novo mundo, no qual não sabe nada da língua, ele assume novamente a posição de criança.

Mesmo depois de semanas de estudos, não é capaz de discorrer sobre outro tema, senão o valor do peso das batatas. Ele é incapaz de mostrar sua educação e inteligência, símbolos que deram a ele status e segurança em sua terra de origem. Ele encontra pessoas educadas e inteligentes, mas responde a elas como uma criança ou um tolo porque não é capaz de oferecer uma resposta melhor.”

ENCARANDO O PROCESSO

A perseverança no estudo da língua nos primeiros meses é de fundamental importância paa a nossa sobrevivência e permanência numa cultura diferente. De fato, precisamos nos dedicar seriamente, pois somente falaremos determinada língua se investirmos tempo no seu aprendizado. Do contrário tornar-nos-emos facilmente vulneráveis, restringiremos os nossos relacionamentos e nos sentiremos limitados para tornar viável a nossa tarefa.

Uma verdade encorajadora que cada missionário de ter em mente é a seguinte: quanto mais rápido ele aprender a língua local, mais rápido também irá superar o choque linguistiico e cultural. Sem nunhema dúvida, a parte mais difícil a ser enfrentada numa terra estrangeira é a habilidade para se comunicar. Isso é imperativo portanto, esse impedimento deve ser removido o mais rápido possível. A vida terá outra dinâmica quando se é capaz de conversas com amigos e vizinhos. Quando o novo missionário adquirir fluência suficiente que lhe permita começar a ensinar e pregar, estará desempenhando bem sua tarefa para superar o choque cultural.

Para alcançarmos esse objetivo é de fundamental importância lançar mão de algum método de aprendizado de língua que promova e coordene o nosso desempenho. Hoje em dia, há vários métodos à disposição. Saiba-se ainda que todo o esforço empregado para desenvolver habilidade na comunicação na língua dos nacionais é mais do que viabilizar a nossa tarefa de pregação ou superar o choque lingüístico, antes, é se identificar demonstrando respeito e apreciação pela cultura e, conseqüentemente, pelo povo que se deseja alcançar.

Nesse processo, aprendemos na prática, às vezes com sorrisos outras vezes com lágrimas, o quão importante é separar tempo para aprender a língua, a cultura e a cosmovisão do povo em contato. Se meses ou anos depois somos capazes de utilizar os nossos cinco sentidos para nos comunicar, compreender o povo e pôr de lado alguns pré-julgamentos é porque a dedicação no aprendizado no novo contexto não foi em vão...