"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

domingo, 18 de março de 2012

IMPLICAÇÕES EMOCIONAIS NA CARREIRA MISSIONÁRIA

PRIMEIRA PARTE
Mis: Jairo de Oliveira
“Nós porém, irmãos, privados da companhia de vocês por breve tempo, em pessoa, mas não no coração, esforçamo-nos ainda mais para vê-los pessoalmente, pela saudade que temos de vocês” (I Tessalonicenses 2.17)

Considerando somente os desafios que já foram abordados até aqui, já teríamos motivos suficientes para supor que o trabalho missionário é campo fértil para lidarmos com grande sorte de dificuldades emocionais e acumularmos alto nível de estresse.

Embora o missionário procure viver na dependência de Deus, suas emoções e a dinâmica da vida no campo, com constantes transformações, mudanças e adaptações podem, ao longo do tempo, sobrecarrega-lo emocionalmente.

Sem sombra de dúvidas, o missionário antes de seguir para o campo de trabalho, precisa saber que, tal como sua fé, suas emoções serão, também e com frequência, postas à prova. De fato, surgirão momentos de crises em que suas convicções hão de ser intensamente testadas, produzindo sentimentos de profunda incapacidade, questionamentos quanto a sua identidade e, até mesmo, dúvidas quanto ao seu chamado. Surgirão, ainda, ocasiões em que o obreiro se sentirá indigno por não estar correspondendo a todo investimento feito por parte daqueles que mantêm seu ministério e insignificante ao se comparar com outros missionários (talvez, aqueles “heróis” que o inspiraram no processo de caminhada para o campo).

Ao se deparar com estas situações, em que suas emoções se encontram abaladas, será difícil o obreiro reconhecer que as crises possuem seu valor de importância. Não obstante, elas desempenham papel fundamental em nosso processo de amadurecimento cristão. Em virtude de sua complexidade, o campo missionário se torna lugar propício para encarnarmos a nossa identificação com a morte de Jesus, a fim de que Cristo viva em nós e por meio de nós: “Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2.20).

Definitivamente, as crises nos levam a repensar as convicções que sustentam a nossa vocação, sugerindo-nos olhar para o que Deus já fez e nos oferecendo a chance de ouvir novamente a sua doce voz, reafirmando no presente o que já foi dito no passado.

É bom que se diga que as crises não são de exclusividade de uma minoria ou propriedade privada dos inexperientes. Apesar de tais crises não serem comumente trazidas ao conhecimento público, elas fazem parte da carreira de todo missionário e costumam se manifestar com frequência num ambiente transcultural.

Saber que elas fazem parte da jornada missionária nos dá uma visão correta de nossa carreira. Ainda, traz-nos certo conforto nesses momentos de conflito interior em que pensamos que somos os únicos debaixo de tão grande nuvem de provação. A missionária no Senegal, Ronalda Lombardo Garcez, da APMT, compartilha conosco acerca desses momentos:
Existem momentos de lutas dificuldades e pressões em que nos sentimos desanimados e tristes. Às vezes, sentimos tanta falta de uma palavra de encorajamento, de consolo... Então, pensamos em nossas igrejas, parentes e amigos e, por estarmos longe, já foi bastante tempo, muitos deles têm-se esquecido de nós.(1)

O grande problema é quando os conflitos emocionais não nos conduzem a experiências de amadurecimento e resultam apenas em sobrecarga emocional. Aí é preciso ter cuidado redobrado. Ao percebermos que um ciclo de acúmulo de tensão está-se formando, precisamos interrompê-lo. Do contrário, o resultado pode comprometer tanto a nossa saúde emocional quanto a física, a ponto de nos incapacitar totalmente no desenvolvimento do trabalho. O ex-missionário Myron Loss chama atenção para a estreita relação entre a sobrecarga emocional e o surgimento de doenças físicas:

Ao longo dos últimos vinte anos, muitos estudiosos têm comprovado a influência que o estresse exerce em problemas como dores de cabeça, artrites, dores de coluna, pressão alta e vulnerabilidade para acidentes. O estresse também pode criar frigidez, impotência e ouras irregularidades sexuais, como perda da menstruação, por exemplo. Muitos médicos acreditam que as alergias são deterioradas, senão causadas pelo estresse. Mais e mais pesquisas estão chamando a atenção também para a influência que o estresse pode ter no surgimento de câncer. (2)

As crises que dão origem à condição de estresse ou a emocional podem ocorrer quando enfrentamos diversos fatores, como, por exemplo, saudade, preocupações, desconforto, opressão, instabilidades, falta de dinheiro, solidão, ameaças, conflitos, fraquezas, enfermidades, frustração, perdas etc. Tudo isso pode nos levar a aborrecimentos com o povo, com os colegas de equipe, com a organização missionária e, inclusive, com a igreja em nosso país.

(1) Revista Alcance. P. 19
(2) Culture Shock: Dealing with Stress in Cross-cultural. Living: p.17

(Este texto é de autoria de Jairo de Oliveira, e foi publicado no Livro “Vida, ministério e desafios no campo missionário” uma abordagem contemporânea sobre missões da Editora Abba. S.P.2011).

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