"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quarta-feira, 4 de abril de 2012

UM MERGULHO NAS CULTURAS

Considerado o principal antropólogo cristão da atualidade, o Dr. Paul Hiebert, que também já foi missionário, e professor de antropologia em diversos seminários da Europa. É autor de vários livros sobre antropologia missionária, entre eles. O Evangelho e a Diversidade das Culturas (Editora Vida Nova). Tem viajado ao redor do mundo dando palestras e cursos sobre missões.Na entrevista que se segue podemos aprender sobre a multiforme graça de Deus ao redor do mundo.

REPÓRTER: QUAL É A IMPORTÂNCIA DA ANTROPOLOGIA PARA A OBRA MISSIONÁRIAʔ


PAUL HIEBERT: Creio que o missionário precisa pelo menos de duas coisas: Estudar as Escrituras (aprendendo teologia bíblica e teologia sistemática) e estudar as pessoas, para saber como se comunicar com elas. A antropologia é importante para nos ajudar a entender as pessoas. Muitos missionários não conhecem o povo, a cultura e a antropologia é essencial para para que sejamos bons missionários. A antropologia, pode, também, ajudar-nos a estudar as Escrituras, porque pela antropologia podemos entender as pessoas envolvidas nas Escrituras.


REPORTER: QUAIS SÃO OS PERIGOS E OS BENEFÍCIOS DA CONTEXTUALIZAÇÃO DAS SAGRADAS ESCRITURAS NA PREGAÇÃO TRANSCULTURALʔ


PAUL HIEBERT: O perigo da contextualização é quando colocamos a mensagem na língua local e na cultura do povo, porque a língua e a cultura do povo podem destruir, mudar a mensagem, ou afastá-la da verdade. Se não tivermos cuidado, o evangelho pode ser convertido à cultura. Mas há um grande perigo em não contextualizar, não teremos testemunha, nem mensagem, nem evangelismo. Em ambas as partes, há perigo, mas o perigo de não contextualizar é maior do que o perigo de contextualizar.
Precisamos contextualizar criticamente pensando e sabendo o que estamos fazendo, não só adotar tudo ou rejeitar tudo, mas fazer isso com critério.


REPORTER: QUANDO FAZEMOS ALGUMA CONTEXTUALIZAÇÃO, OU USAMOS A ANTROPOLOGIA PARA A PREGAÇÃO E O ENSINO, NÃO CORREMOS O RISCO DE DEIXAR AS ESCRITURAS EM SEGUNDO PLANOʔ


PAUL HIEBERT: Eu diria que o perigo é colocar a nossa teoria acima das Escrituras, a teoria social que usamos para estudar as pessoas, porque o evangelho é para ganhar as pessoas, então não podemos colocar as pessoas contra as Escrituras. O evangelho é para as pessoas. Mas também há o mesmo perigo na teologia sistemática e na teologia bíblica, porque usamos métodos humanos para estudar as Escrituras.


REPORTER: O SENHOR PODE CITAR ALGUM EXEMPLO NA BÍBLIA EM QUE JESUS USOU A CONTEXTUALIZAÇÃO EM SEUS ENSINOSʔ

PAUL HIEBERT: Todas as parábolas são contextualizações locais. Hoje, devemos usar parábolas, não somente as parábolas bíblicas, mas também as situações reais do nosso dia-a-dia.


REPÓRTER: O SENHOR DEVE SABER QUE A IGREJA BRASILEIRA FOI INFLUÊNCIADA, EM SUA FORMAÇÃO E AO LONGO DO TEMPO, PELAS CULTURAS EUROPÉIA E AMERICANA, QUE IMPLANTARAM SEUS COSTUMES COMO SENDO “OS COSTUMES CERTOS”. É POSSÍVEL À NOSSA IGREJA HOJE RESGATAR A SUA PRÓPRIA IDENTIDADE CULTURAL, E APLICÁ-LA A UMA TEOLOGIA NOS MOLDES BRASILEIROSʔ


PAUL HIEBERT: Num certo sentido, a igreja católica trouxe o catolicismo da península ibérica: Portugal e Espanha, fixando aqui o catolicismo ibérico. Os protestantes trouxeram seus costumes mais do norte da Europa e dos Estados Unidos. Minha pergunta é: “Qual é a identidade brasileiraʔ” Porque aqui há uma influência ibérica muito grande. Depois veio a influência da Europa e dos Estados Unidos. Também temos a influência árabe e a influência dos índios nativos e dos negros africanos... É uma grande mistura. Por isso vejo no Brasil um bom modelo de integração transcultural. Todos esses detalhes devem ser estudados para se estabelecer qual é a “identidade brasileira”.
Os estudiosos precisam trabalhar exatamente a nova contextualização cristã brasileira nessa questão de identidade, ou seja, precisam juntar essas partes, porque isso pode se tornar um modelo na evangelização tribal, nos vilarejos e, inclusive, na evangelização urbana. Não existe só uma identidade brasileira, existem muitas influências de tudo quanto é lugar. Não podemos pegar somente uma identidade – aquela que achamos correta – e aplicar ao evangelho. A nossa identidade é muito mais complexa do que pensamos. Creio que a igreja evangélica no Brasil pode ajudar a formar essa identidade brasileira, mas, antes, terá de avaliar todas as influências que vieram dos Estados Unidos e da Europa e não somente aceitá-las como se fossem a resposta.


REPÓRTER: BRUCE OLSON, EM SEU LIVRO POR ESTA CRUZ TE MATAREI, COMENTA QUE QUANDO ESTAVA ENSINANDO OS INDIOS SOBRE A QUESTÃO DE “CONTRUIR SUA CASA SOBRE A ROCHA” ELES NÃO CONSEGUIAM ACEITAR ESSA PARTE, POIS NÃO CONHECIAM ESSES MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO E ERGUIAM SUAS CASAS (OCAS) APOIADAS EM ESTACAS FINCADAS NA AREIA, ENTÃO, BRUCE OLSON INVERTEU OS FATOS BIBLICOS PARA QUE OS INDIOS COMPREENDESSEM: ENSINOU QUE O HOMEM SÁBIO EDIFICOU SUA CASA SOBRE A AREIA. O QUE O SENHOR ACHAʔ
ELE CONTEXTUALIZOU CORRETO AO INVERTER OS FATOS BIBLICOSʔ


PAUL HIEBERT: Antigamente pensava-se que tal coisa não era possível, porque a Bíblia não diz isso. A tradução teria de ser literal. Desse jeito, não havia contextualização. Depois começaram a dizer: “Não temos de contextualizar”. Então, foram para outro extremo. Nesse caso, Bruce Olson, representa o outro extremo. Ele tentou corrigir o modelo antigo, porque estava errado. Talvez, as pessoas entendessem melhor dessa forma, mas não é o que as Escrituras estão dizendo. Agora, estamos mais próximos da contextualização critica, porque temos de manter a Bíblia como foi escrita. Depois, se quisermos, podemos colocar notas no rodapé, com explicações. É mais fácil agir desta forma com as p arábolas, porque não são literais. Quanto aos ensinamentos de Jesus, temos de ter muito cuidado, para não mudarmos os originais. Compreendo o que Bruce Olson fez, mas não faria dessa forma. O que eu faria era o seguinte: traduziria como está no texto sagrado, mas colocaria uma nota de rodapé, explicando o que isso significa na nossa cultura.


REPÓRTER: DENTRO DA MESMA QUESTÃO, GOSTARIAMOS DE SABER O SEGUINTE: ELE PODERIA TER ENSINADO OS INDIOS O MÉTODO DE EDIFICAÇÃO SOBRE A ROCHAʔ
SE ELE FIZESSE ISSO, ESTARIA ADULTERANDO A CULTURA DOS INDIGENASʔ


PAUL HIEBERT: O que eu acho que ele poderia ter feito era dizer: “Isso é o que a Biblia diz. Jesus disse: “Façam suas casas sobre a rocha”. Depois, nas notas de rodapé, escreveria um comentário dizendo o que isso significa para a cultura indígena. Esse procedimento não mudaria a cultura, mas explicaria o que Jesus, de fato, estava dizendo. Um exemplo simples do que estou falando seria o dinheiro. A Biblia pode dizer que eram “trinta siclos”. Podemos até traduzir como trinta siclos, mas ninguém vai entender quanto valia essa quantia. Alguém diria: “Temos de traduzir isso como quinhentos dólares. Agora, sim, todos vão compreender”. A questão é que, na ´´epoca, não existiam dólares. Então, com a inflação, o valor muda e, na próxima edição, a tradução sairia como setecentos ou novecentos dólares. Devemos traduzir como trinta siclos e colocarmos uma nota de rodapé explicando que esse valor corresponde a mais ou menos tantos dólares. Dessa forma, ficaria fácil mudar a nota de rodapé porque todos sabem que o rodapé é uma explicação e não o texto em si.


REPÓRTER: O SENHOR CONCORDA COM A AFIRMAÇÃO DE QUE O MISSIONÁRIO É UM DESTRUIDOR DE CULTURAS. COMO DIZEM OS ANTROPOLOGOSʔ QUANDO ISSO É VERDADEʔ


PAUL HIEBERT: Os missionários destroem culturas, o comércio destroem culturas o governo e a educação têm destruído culturas. A Coca-Cola tem destruído culturas, a Mercedes Benz tem destruído culturas. As culturas estão sempre mudando. Não existe cultura extática.
O comércio e o governo tem destruído as culturas muito mais que os missionários. A questão sobre mudança é a mudança é boa ou ruimʔ Queremos ajudar as pessoas a agirem da seguinte forma conservar em suas culturas aquilo que for bom e se desfazer daquilo que for ruim. Não queremos olhar para as pessoas que estão morrendo de fome e lhes dizer que isso faz parte da cultura. Não queremos que as pessoas morram de pragas ou doenças se temos os remédios e podemos ajudar . Como missionários, devemos ajudar as pessoas a manterem suas culturas. Mas devemos também ajudar as pessoas a transforma-las para que sejam melhores.
Muitos antropólogos acusam os missionários falsamente de destruírem culturas, mas o sistema educacional moderno destrói mais culturas do que os missionários. Cientistas, sociólogos... Todos estão tentando fazer mudanças culturais, por meio de programas de desenvolvimento, além de outros. Os antropólogos, no entanto, não querem que as culturas mudem. Então, nesse caso, o antropólogo é colonialistas, porque decide. As culturas não podem mudar, mesmo que alguém queira. Se sair um novo modelo de computador, o antropólogo quer um. Mas se um nativo desejar ter um computador, o antropólogo diz que não, que eles (os nativos) não podem ter. O antropólogo deve ter muito cuidado, porque, às vezes, ele não muda culturas, mas se transforma em um colonialista tão mau quanto aqueles que mudam as culturas.


REPÓRTER: NO BRASIL, OS ANTROPÓLOGOS NÃO QUEREM QUE OS MISSIONÁRIOS ENTREM NAS TRIBOS INDIGENAS, DIZENDO QUE ESSAS TRIBOS DEVEM CONTINUAR COM SUA CULTURA ORIGINAL. SERÁ QUE ISSO NÃO É REMORSO PELO QUE O PRÓPRIO PAÍS FEZ COM O ÍNDIO NO PASSADO, DESPREZANDO SUA CULTURA E SUA GENTEʔ
PAUL HIEBERT: Os antropólogos estão tentando nos lembrar que não devemos destruir as culturas de forma maléfica. Como missionários, devemos ser sensíveis ao que as pessoas das tribos estão falando. Mas se os antropólogos de fato querem ser honestos, deveriam falar muito mais alto contra os grandes empreendimentos cujo objetivo é cortar todas as árvores. Onde os missionários foram, acabaram traduzindo a Biblia para a língua nativa. Ao fazermos isso, estamos mostrando respeito pela cultura. Quando o governo diz para os índios que eles devem aprender o português, em verdade, esta destruindo a cultura. Muitas vezes, os missionários têm ajudado as tribos a se modernizarem, mas sempre procurando manter a sua cultura dentro do “mundanismo”. E isso é uma ponte entre o tradicional e o moderno. Muitos anntropologos querem que os índios permaneçam tradicionais, mas o povo quer os remédios, quer os computadores e dizemos. “Não, não pode”. Mantemos essas pessoas como animais num zoológico, para que possamos estudá-las e ganhar dinheiro com elas. Se os antropólogos gostam tanto dos índios, por que, então, não vão viver com elesʔ
Não, eles não querem isso, antes, querem viver em suas casas grandes. Os antropólogos não amam essas pessoas, não morrem por essas pessoas, não vivem toda a sua vida lá, com essas pessoas.
O que eles querem de fato é estudar essas pessoas como se fossem animais. Você compreendeʔ
Dizem “vamos preservar essa cultura”, mas não amam essas pessoas. Caso contrário, iriam até onde elas estão e tentariam ajudá-las. Um mundo moderno, não haverá pessoas afetadas pelo modernismo, porque as pessoas tribais, na primeira oportunidade que tiverem, vão sair e comprar lanternas, facões, facas, ou até mesmo armas de fogo, porque éisso que elas querem. Ao podemos forçá-las a ser modernas, e muito menos a permanecerem num estado tradicional. Devemos fazer duas coisas deixar que elas mesmas tomem essa decisão e estar lé, perto delas, para ajudá-las da melhor maneira possível. É por isso que eu acho que os antropólogos nem sempre são amorosos.

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