"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sexta-feira, 20 de abril de 2012

BLOG VISÃO MISSIONÁRIA: CUIDADO INTEGRAL DO MISSIONÁRIO

BLOG VISÃO MISSIONÁRIA: CUIDADO INTEGRAL DO MISSIONÁRIO: Amados, Nos dias 19, 20 e 21 de outubro de 2012, será realizado o Encontro do Cuidado Integral do Missionário (CIM - AMTB) em parceria com ...

CUIDADO INTEGRAL DO MISSIONÁRIO


Amados,
Nos dias 19, 20 e 21 de outubro de 2012, será realizado o Encontro do Cuidado Integral do Missionário (CIM - AMTB) em parceria com a Juvep. Solicitamos que estejam orando por esse evento e divulgando. Em breve, estaremos enviando maiores informações sobre este evento que acontecerá pela primeira vez no Nordeste.

Eis os preletores e temas das palestras e simpósios:

Preletores:
Pr. Cloi Marques (CIM): Devocionais

Pr. Sérgio Victalino (Igreja Presbiteriana das Graças): O pastoreio do missionário pela igreja local: mantendo um relacionamento vivo ?

Bill Bacheller (CIM): As Crises dos Missionários: dando nome aos bois

Bill Bacheller: Conflito em Equipe
Antonia Van der Meer (Tonica - CIM): A vida da solteira no campo missionário
Alícia Macedo (CIM): Cuidando dos filhos de missionários
Verônica Farias (Pioneiros): Perfil psicológico do Missionário
Márcia Tostes (CIM): Questões da família missionária
João Marcos (CIM): Avaliando o candidato a missões
Antonia Van der Meer (Tonica): Prevenindo o Retorno Precoce
João Marcos: Cuidando da Saúde Emocional do Missionário
Local:

Igreja Batista de Tambaú
Rua Bezerra Reis, 42 - Manaíra
João Pessoa - PB
Público alvo: Pastores e líderes de agências e conselhos missionários

Claudiane Aguiar

Missão Juvep
cuidadointegraldomissionario@juvep.com.br

quarta-feira, 4 de abril de 2012

UM MERGULHO NAS CULTURAS

Considerado o principal antropólogo cristão da atualidade, o Dr. Paul Hiebert, que também já foi missionário, e professor de antropologia em diversos seminários da Europa. É autor de vários livros sobre antropologia missionária, entre eles. O Evangelho e a Diversidade das Culturas (Editora Vida Nova). Tem viajado ao redor do mundo dando palestras e cursos sobre missões.Na entrevista que se segue podemos aprender sobre a multiforme graça de Deus ao redor do mundo.

REPÓRTER: QUAL É A IMPORTÂNCIA DA ANTROPOLOGIA PARA A OBRA MISSIONÁRIAʔ


PAUL HIEBERT: Creio que o missionário precisa pelo menos de duas coisas: Estudar as Escrituras (aprendendo teologia bíblica e teologia sistemática) e estudar as pessoas, para saber como se comunicar com elas. A antropologia é importante para nos ajudar a entender as pessoas. Muitos missionários não conhecem o povo, a cultura e a antropologia é essencial para para que sejamos bons missionários. A antropologia, pode, também, ajudar-nos a estudar as Escrituras, porque pela antropologia podemos entender as pessoas envolvidas nas Escrituras.


REPORTER: QUAIS SÃO OS PERIGOS E OS BENEFÍCIOS DA CONTEXTUALIZAÇÃO DAS SAGRADAS ESCRITURAS NA PREGAÇÃO TRANSCULTURALʔ


PAUL HIEBERT: O perigo da contextualização é quando colocamos a mensagem na língua local e na cultura do povo, porque a língua e a cultura do povo podem destruir, mudar a mensagem, ou afastá-la da verdade. Se não tivermos cuidado, o evangelho pode ser convertido à cultura. Mas há um grande perigo em não contextualizar, não teremos testemunha, nem mensagem, nem evangelismo. Em ambas as partes, há perigo, mas o perigo de não contextualizar é maior do que o perigo de contextualizar.
Precisamos contextualizar criticamente pensando e sabendo o que estamos fazendo, não só adotar tudo ou rejeitar tudo, mas fazer isso com critério.


REPORTER: QUANDO FAZEMOS ALGUMA CONTEXTUALIZAÇÃO, OU USAMOS A ANTROPOLOGIA PARA A PREGAÇÃO E O ENSINO, NÃO CORREMOS O RISCO DE DEIXAR AS ESCRITURAS EM SEGUNDO PLANOʔ


PAUL HIEBERT: Eu diria que o perigo é colocar a nossa teoria acima das Escrituras, a teoria social que usamos para estudar as pessoas, porque o evangelho é para ganhar as pessoas, então não podemos colocar as pessoas contra as Escrituras. O evangelho é para as pessoas. Mas também há o mesmo perigo na teologia sistemática e na teologia bíblica, porque usamos métodos humanos para estudar as Escrituras.


REPORTER: O SENHOR PODE CITAR ALGUM EXEMPLO NA BÍBLIA EM QUE JESUS USOU A CONTEXTUALIZAÇÃO EM SEUS ENSINOSʔ

PAUL HIEBERT: Todas as parábolas são contextualizações locais. Hoje, devemos usar parábolas, não somente as parábolas bíblicas, mas também as situações reais do nosso dia-a-dia.


REPÓRTER: O SENHOR DEVE SABER QUE A IGREJA BRASILEIRA FOI INFLUÊNCIADA, EM SUA FORMAÇÃO E AO LONGO DO TEMPO, PELAS CULTURAS EUROPÉIA E AMERICANA, QUE IMPLANTARAM SEUS COSTUMES COMO SENDO “OS COSTUMES CERTOS”. É POSSÍVEL À NOSSA IGREJA HOJE RESGATAR A SUA PRÓPRIA IDENTIDADE CULTURAL, E APLICÁ-LA A UMA TEOLOGIA NOS MOLDES BRASILEIROSʔ


PAUL HIEBERT: Num certo sentido, a igreja católica trouxe o catolicismo da península ibérica: Portugal e Espanha, fixando aqui o catolicismo ibérico. Os protestantes trouxeram seus costumes mais do norte da Europa e dos Estados Unidos. Minha pergunta é: “Qual é a identidade brasileiraʔ” Porque aqui há uma influência ibérica muito grande. Depois veio a influência da Europa e dos Estados Unidos. Também temos a influência árabe e a influência dos índios nativos e dos negros africanos... É uma grande mistura. Por isso vejo no Brasil um bom modelo de integração transcultural. Todos esses detalhes devem ser estudados para se estabelecer qual é a “identidade brasileira”.
Os estudiosos precisam trabalhar exatamente a nova contextualização cristã brasileira nessa questão de identidade, ou seja, precisam juntar essas partes, porque isso pode se tornar um modelo na evangelização tribal, nos vilarejos e, inclusive, na evangelização urbana. Não existe só uma identidade brasileira, existem muitas influências de tudo quanto é lugar. Não podemos pegar somente uma identidade – aquela que achamos correta – e aplicar ao evangelho. A nossa identidade é muito mais complexa do que pensamos. Creio que a igreja evangélica no Brasil pode ajudar a formar essa identidade brasileira, mas, antes, terá de avaliar todas as influências que vieram dos Estados Unidos e da Europa e não somente aceitá-las como se fossem a resposta.


REPÓRTER: BRUCE OLSON, EM SEU LIVRO POR ESTA CRUZ TE MATAREI, COMENTA QUE QUANDO ESTAVA ENSINANDO OS INDIOS SOBRE A QUESTÃO DE “CONTRUIR SUA CASA SOBRE A ROCHA” ELES NÃO CONSEGUIAM ACEITAR ESSA PARTE, POIS NÃO CONHECIAM ESSES MÉTODOS DE CONSTRUÇÃO E ERGUIAM SUAS CASAS (OCAS) APOIADAS EM ESTACAS FINCADAS NA AREIA, ENTÃO, BRUCE OLSON INVERTEU OS FATOS BIBLICOS PARA QUE OS INDIOS COMPREENDESSEM: ENSINOU QUE O HOMEM SÁBIO EDIFICOU SUA CASA SOBRE A AREIA. O QUE O SENHOR ACHAʔ
ELE CONTEXTUALIZOU CORRETO AO INVERTER OS FATOS BIBLICOSʔ


PAUL HIEBERT: Antigamente pensava-se que tal coisa não era possível, porque a Bíblia não diz isso. A tradução teria de ser literal. Desse jeito, não havia contextualização. Depois começaram a dizer: “Não temos de contextualizar”. Então, foram para outro extremo. Nesse caso, Bruce Olson, representa o outro extremo. Ele tentou corrigir o modelo antigo, porque estava errado. Talvez, as pessoas entendessem melhor dessa forma, mas não é o que as Escrituras estão dizendo. Agora, estamos mais próximos da contextualização critica, porque temos de manter a Bíblia como foi escrita. Depois, se quisermos, podemos colocar notas no rodapé, com explicações. É mais fácil agir desta forma com as p arábolas, porque não são literais. Quanto aos ensinamentos de Jesus, temos de ter muito cuidado, para não mudarmos os originais. Compreendo o que Bruce Olson fez, mas não faria dessa forma. O que eu faria era o seguinte: traduziria como está no texto sagrado, mas colocaria uma nota de rodapé, explicando o que isso significa na nossa cultura.


REPÓRTER: DENTRO DA MESMA QUESTÃO, GOSTARIAMOS DE SABER O SEGUINTE: ELE PODERIA TER ENSINADO OS INDIOS O MÉTODO DE EDIFICAÇÃO SOBRE A ROCHAʔ
SE ELE FIZESSE ISSO, ESTARIA ADULTERANDO A CULTURA DOS INDIGENASʔ


PAUL HIEBERT: O que eu acho que ele poderia ter feito era dizer: “Isso é o que a Biblia diz. Jesus disse: “Façam suas casas sobre a rocha”. Depois, nas notas de rodapé, escreveria um comentário dizendo o que isso significa para a cultura indígena. Esse procedimento não mudaria a cultura, mas explicaria o que Jesus, de fato, estava dizendo. Um exemplo simples do que estou falando seria o dinheiro. A Biblia pode dizer que eram “trinta siclos”. Podemos até traduzir como trinta siclos, mas ninguém vai entender quanto valia essa quantia. Alguém diria: “Temos de traduzir isso como quinhentos dólares. Agora, sim, todos vão compreender”. A questão é que, na ´´epoca, não existiam dólares. Então, com a inflação, o valor muda e, na próxima edição, a tradução sairia como setecentos ou novecentos dólares. Devemos traduzir como trinta siclos e colocarmos uma nota de rodapé explicando que esse valor corresponde a mais ou menos tantos dólares. Dessa forma, ficaria fácil mudar a nota de rodapé porque todos sabem que o rodapé é uma explicação e não o texto em si.


REPÓRTER: O SENHOR CONCORDA COM A AFIRMAÇÃO DE QUE O MISSIONÁRIO É UM DESTRUIDOR DE CULTURAS. COMO DIZEM OS ANTROPOLOGOSʔ QUANDO ISSO É VERDADEʔ


PAUL HIEBERT: Os missionários destroem culturas, o comércio destroem culturas o governo e a educação têm destruído culturas. A Coca-Cola tem destruído culturas, a Mercedes Benz tem destruído culturas. As culturas estão sempre mudando. Não existe cultura extática.
O comércio e o governo tem destruído as culturas muito mais que os missionários. A questão sobre mudança é a mudança é boa ou ruimʔ Queremos ajudar as pessoas a agirem da seguinte forma conservar em suas culturas aquilo que for bom e se desfazer daquilo que for ruim. Não queremos olhar para as pessoas que estão morrendo de fome e lhes dizer que isso faz parte da cultura. Não queremos que as pessoas morram de pragas ou doenças se temos os remédios e podemos ajudar . Como missionários, devemos ajudar as pessoas a manterem suas culturas. Mas devemos também ajudar as pessoas a transforma-las para que sejam melhores.
Muitos antropólogos acusam os missionários falsamente de destruírem culturas, mas o sistema educacional moderno destrói mais culturas do que os missionários. Cientistas, sociólogos... Todos estão tentando fazer mudanças culturais, por meio de programas de desenvolvimento, além de outros. Os antropólogos, no entanto, não querem que as culturas mudem. Então, nesse caso, o antropólogo é colonialistas, porque decide. As culturas não podem mudar, mesmo que alguém queira. Se sair um novo modelo de computador, o antropólogo quer um. Mas se um nativo desejar ter um computador, o antropólogo diz que não, que eles (os nativos) não podem ter. O antropólogo deve ter muito cuidado, porque, às vezes, ele não muda culturas, mas se transforma em um colonialista tão mau quanto aqueles que mudam as culturas.


REPÓRTER: NO BRASIL, OS ANTROPÓLOGOS NÃO QUEREM QUE OS MISSIONÁRIOS ENTREM NAS TRIBOS INDIGENAS, DIZENDO QUE ESSAS TRIBOS DEVEM CONTINUAR COM SUA CULTURA ORIGINAL. SERÁ QUE ISSO NÃO É REMORSO PELO QUE O PRÓPRIO PAÍS FEZ COM O ÍNDIO NO PASSADO, DESPREZANDO SUA CULTURA E SUA GENTEʔ
PAUL HIEBERT: Os antropólogos estão tentando nos lembrar que não devemos destruir as culturas de forma maléfica. Como missionários, devemos ser sensíveis ao que as pessoas das tribos estão falando. Mas se os antropólogos de fato querem ser honestos, deveriam falar muito mais alto contra os grandes empreendimentos cujo objetivo é cortar todas as árvores. Onde os missionários foram, acabaram traduzindo a Biblia para a língua nativa. Ao fazermos isso, estamos mostrando respeito pela cultura. Quando o governo diz para os índios que eles devem aprender o português, em verdade, esta destruindo a cultura. Muitas vezes, os missionários têm ajudado as tribos a se modernizarem, mas sempre procurando manter a sua cultura dentro do “mundanismo”. E isso é uma ponte entre o tradicional e o moderno. Muitos anntropologos querem que os índios permaneçam tradicionais, mas o povo quer os remédios, quer os computadores e dizemos. “Não, não pode”. Mantemos essas pessoas como animais num zoológico, para que possamos estudá-las e ganhar dinheiro com elas. Se os antropólogos gostam tanto dos índios, por que, então, não vão viver com elesʔ
Não, eles não querem isso, antes, querem viver em suas casas grandes. Os antropólogos não amam essas pessoas, não morrem por essas pessoas, não vivem toda a sua vida lá, com essas pessoas.
O que eles querem de fato é estudar essas pessoas como se fossem animais. Você compreendeʔ
Dizem “vamos preservar essa cultura”, mas não amam essas pessoas. Caso contrário, iriam até onde elas estão e tentariam ajudá-las. Um mundo moderno, não haverá pessoas afetadas pelo modernismo, porque as pessoas tribais, na primeira oportunidade que tiverem, vão sair e comprar lanternas, facões, facas, ou até mesmo armas de fogo, porque éisso que elas querem. Ao podemos forçá-las a ser modernas, e muito menos a permanecerem num estado tradicional. Devemos fazer duas coisas deixar que elas mesmas tomem essa decisão e estar lé, perto delas, para ajudá-las da melhor maneira possível. É por isso que eu acho que os antropólogos nem sempre são amorosos.

O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO EM UM CONTEXTO DE DIVERSIDADE CULTURAL




“A mulher samaritana lhe perguntou: Como o Senhor, sendo judeu, pede a mim, uma samaritana, água para beberʔ (Pois os judeus não se dão bem com os samaritanos)” (João 4.9).

As sociedades são bastante distintas. Cada povo demonstra particularidades em suas manifestações étnicas e responde de maneira peculiar ao universo ao seu redor. Como resultado, encontramos uma abundância de diferenças culturais entre os povos, enriquecendo o nosso planeta e se revelando em vários aspectos, tais como hábitos alimentares, gestos, vestimentas, cerimônias, organização comunitária, entre outros.



Apesar de heterogêneo, culturalmente falando, o mundo em que estamos inseridos caminha cada vez mais conectado em razão do fenômeno da globalização. Como jamais visto na história da humanidade, distâncias são encurtadas e relacionamentos aproximados. E isso de maneira veloz e surpreendente. Dessa forma, tanto o mensageiro transcultural quanto cada individuo da sociedade – principalmente nos grandes centros urbanos – vive cada vez mais exposto ao diferente e, por conta disso, em plenos centros urbanos e forçado a conviver com diversidades culturais, o que, geralmente, causa surpresa.



Sam Daries, uma professora sul-africana, ficou perplexa durante uma visita à Atenas. Sabe por qual motivo ʔ Porque lá o papel higiênico não é jogado no vaso sanitário, mas em uma lixeira destinada especificamente para este fim. Esse procedimento lhe causou surpresa e admiração porque na África do Sul as pessoas não agem dessa forma. Ou seja, o papel higiênico sujo é jogado diretamente no vaso sanitário. Já a presença da referida lixeira nos banheiros da Grécia fez Sam questionar o padrão de higiene do lugar.



Se em sua opinião essa não foi uma experiência tão grotesca, o que dizer da experiência da missionária Glória Mendes da missão Povos Muçulmanos Internacional ʔ



Tendo vivido em diferentes países da Ásia ela descreve sua perplexidade diante de alguns comportamentos curiosos encontrados por lá: Começando na Turquia, o primeiro choque desagradável que experimentei foi ver os homens urinando na beira das calçadas. Este costume é comum também no Irã e muito mais freqüente ainda no Paquistão e na India. Nesses dois últimos países as roupas dos homens, por serem mais soltas, permitem que urinem e defequem ao agachar-se. É comum isso acontecer a qualquer hora do dia nas ruas.



O missionário Júlio Quirino, da Missão para o Interior da Africa, igualmente comenta com surpresa a respeito de um comportamento curioso evidenciado no Quênia. “Entre os Massai aqui no Quênia, cuspir na face de alguém pode significar bênção. Se você tiver a sorte de se tornar amigo de um deles, poderá receber umas boas cuspidas no rosto para que fique comprovado que você realmente faz parte da família”.

ESTEJA PREPARADO
De fato, quem pretende visitar outro país ou se relacionar com um povo culturalmente diferente, precisa, como matéria obrigatória, obter e estudar o maior número possível de informações a respeito de tal povo e estar preparado para aprender os códigos de conduta e assimilar as formas de raciocínio. Uma vez que as surpresas no contato com outros povos podem se tornar desagradáveis, ou até mesmo perigosas, precisamos nos preparar devidamente para esse relacionamento.



Considere os sérios problemas que uma mulher pode ter, principalmente se for solteira, ao desembarcar no mundo árabe sem que esteja vestida de acordo com os padrões de decência local. Em alguns casos, mostrar o cotovelo, em outros, descobrir a cabeça pode ser considerado pelos nacionais como um gesto imoral e criar inúmeras dificuldades para a recém-chegada. De fato, a maneira como nos comportamos no novo ambiente irá contribuir para fechar ou abrir as portas para a nossa permanência.



É preciso ter em mente também que as diferenças culturais não se manifestam apenas entre os grupos étnicos distantes, em outros países e continentes. Para a nossa surpresa, comportamentos reconhecidos com um significado entre determinado povo podem ter significados totalmente diferentes entre os grupos étnicos vizinhos. É preciso estar atento. Exemplificando, consideremos a condição dos povos indígenas nas Jamamadi e Mura-Pirahã, ambos localizados no Estado do Amazonas, região norte do Brasil. A despeito de serem vizinhos, apresentam diversidades lingüística e cultural, o que faz deles povos distintos.



Outra descrição interessante se encontra na exposição feita pelo antropólogo William A. Haviland sobre três diferentes lpovos em Papua Nova Guiné:



- Entre os Arapesh, tanto as mulheres quanto os homens são dóceis e brandos.



- Entre os Mundugamor, homens e mulheres são nervosos e agressivos.
- Entre os Tchambuli, os homens decoram o corpo, são vaidosos e interessados em arte, teatro e fofocas. As mulheres, diferentemente, não se enfeitam nem festejam, porque têm muitas tarefas durante o desenvolvimento dos filhos.



Os exemplos citados revelam a importante verdade de que não são as barfreiras geográficas que determinam as diversidades entre os povos e as implicações étnicas no trabalho missionário. Logo, estar próximo ou distante da terra natal não significa necessariamente para alguém proximidade ou distância de sua cultura de origem. Essa análise revoga a falsa idéia de que missionário transcultural é somente aquele que deixa o próprio país, cruza suas fronteiras geográficas e desembarca numa terra distante e desconhecida. ilustrando essa afirmação, poderíamos pensar em um brasileiro que trabalha nos EUA, entre os imigrantes de Lingua Portuguesa. Tal individuo tem diante de si um desafio cultural de menor intensidade do que aquele que trabalha no Brasil entre uma sociedade indígena, tendo a necessidade de aprender a cultura e a língua local para poder se comunicar.



O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO
Quando minha esposa e eu chegamos à Africa do Sul as gafes e os pedidos de perdão eram quase que diários nas primeiras semanas. Sorrir dos próprios erros era a maneira divertida que utilizávamos para aliviar a tensão. Lembro-me que um dia, no afã de lermos as notícias do país e compreendermos melhor o contexto sul-africano, acabamos comprando o jornal errado. Fomos enganados ao supor que o jornal com maior número de páginas possuía também o maior número de notícias. Que ingenuidade! No momento em que chegamos à casa foi que nos demos conta de que o jornal não estava em inglês, mas em africaner. Num país com tantas línguas (das 32, 11 são oficiais) um estrangeiro precisa ter bastante atenção para não se decepcionar.


Inicialmente, as compras no mercado duravam bastante tempo, sobretudo, por não conhecermos bem os produtos e por não entendermos as informações escritas nas embalagens. Minha esposa sofreu um pouco até aprendermos que tempero colocar na comida. Uma excelente alternativa foi vencer o constrangimento e levar o dicionário para o mercado.



Esta fase de intensas descobertas e de ajustes a uma nova atmosfera cultural é o processo de adaptação no qual o nosso corpo, a nossa mente e as nossas emoções sofrem para se ajustar às condições em que nos encontramos. Alguns dos sintomas evidenciados nesse período são receio de se relacionar, frustração por não conseguir se comunicar, vergonha por não corresponder de maneira apropriada na cultura local, dentre outros.



Quanto maior a afinidade entre a cultura receptora e a nossa, menor será o esforço empreendido no processo de adaptação. O contrário também é verdade. Entretanto, mesmo em sociedades com maior proximidade cultural existe a necessidade de adaptação e esse processo pode representar um grande desafio.



No treinamento de missionários autóctones na Africa, percebe-se que muitos africanos, nem todos, enfrentam também enormes dificuldades de adaptação entre grupos vizinhos. Não obstante a proximidade geográfica há admiráveis barreiras étnicas entre eles: “Em muitos casos, a língua é totalmente diferente, a comida é revoltante, os novos costumes são estranhos e parecem repulsivos”.



Apesar dos desafios que carrega consigo, a adaptação transcultural é possível e deve ser o alvo daquele que é introduzido numa nova cultura. A fim de avaliar o desempenho, se o estrangeiro não se sente confortável na presença dos nacionais ao lidar com eles dentro do novo ambiente cultural é sinal de que ainda existe uma longa jornada pela frente.

MARCHANDO RUMO À ADAPTAÇÃO
Viver em uma nova sociedade e se tornar bicultural exige grandes doses de atenção, renúncia e flexibilidade. O bom senso e o reconhecimento dos próprios limites devem ser aliados de todos aqueles que encaram um processo de adaptação.



Em nossa missão de encarnação, ao lidarmos com a assimilação da cultura local nosso alvo jamais será o de perder a nossa identidade cultural ao longo do processo. Todo esforço será empreendido no sentido de mantê-la enquanto assimilamos a nova, combinando assim as duas.



É ser brasileiro e viver numa segunda cultura, assimilando a cultura local, sem deixar de ser brasileiro e ministrando em caminhos que o povo reagente é capaz de compreender. Por qual razão em que nos encontramosʔ Pela causa do evangelho!
Um dos passos decisivos nesse processo é sairmos da nossa “zona de conforto” e desenvolvermos o maior número possível de relacionamentos com os nacionais. Em vez de nos limitarmos somente às reuniões de oração entre missionários, devemos ampliar as nossas fronteiras e interagir com a comunidade. Como diz um provérbio africano. “Amizade se faz com os pés”!. Logo, se desejamos criar amigos no novo contexto, precisamos pôr o pé na estrada.



Um comportamento que tem facilitado bastante o processo de imersão cultural de missionários recém-chegados em seus campos de trabalho é o de morar temporariamente com uma família nacional. Essa experiência proporciona ao obreiro o privilégio de conhecer a cultura de perto favorecendo a observação de comportamentos, hábitos costumes e tradições do povo. Essa é uma ferramenta estratégica também para o rápido desenvolvimento do processo de aquisição lingüística.



É ponto pacífico entre missionários mais experientes que o segredo para causar impacto genuíno em determinada comunidade é se tornar parte dela. Sendo assim, caso desejemos realmente nos adaptar, conquistar o povo e influenciar o novo contexto cultural, a proximidade, o relacionamento e a integração com os nacionais devem ser o nosso alvo.



Os missionários com mais chances de serem bem sucedidos são aqueles que desenvolvem a capacidade de se entrosar, ou seja, de estar em contato com o povo e de fazer amigos facilmente.
Devemos empreender todo o nosso esforço em criar amigos entre os nacionais. Somente assim iremos nos divertir enquanto trabalhamos com eles. Devemos conhecê-los em suas casas e na igreja também. Devemos nos sentar com eles e conversar, desfrutando, dessa forma, da comunhão social. O envolvimento social ajuda no aprendizado da língua e evita aborrecimentos desnecessários.



Por outro lado, quando o missionário não se relaciona com o povo ele está se isolando em vez de se proteger e assumindo uma posição vulnerável. Sistematicamente, uma enorme barreira está sendo erigida entre as duas culturas e quem mais sofrerá nesse processo é o próprio missionário. Em lugar de se adaptar, de aprofundar seu conhecimento da língua e da cultura de desenvolver uma vida normal estará se afastando. Com isso, não terá uma rede considerável de amigos e padecerá de saudades excessivas do seu ambiente de origem.



Os relacionamentos na nova cultura são fundamentais e num primeiro momento o estrangeiro é o mais beneficiado por eles.
Durante a nossa segunda estada no Timor Leste, chegamos a conclusão de eu se não fosse por meio de relacionamentos não teria sido possível conquistar qualquer tipo de credibilidade para comunicar a nossa mensagem entre o povo local.



Se vivêssemos distante dos nossos vizinhos e amigos e somente visitássemos a comunidade de vez em quando, entendemos que não teríamos causado o mesmo impacto.



Ao viver entre a comunidade local aprendemos a observar a v ida do povo em detalhes, ao mesmo tempo em que eles observavam a nossa. Privacidade foi um dos aspectos mais difíceis em nossa caminhada, mas, sem dúvida alguma, importante em nosso processo de adaptação e missão de proclamação.



Caso os tropeços culturais representem o principal motivo que esteja nos impedindo de avançar, será necessário investir tempo a fim de reconhecê-los e corrigi-los. Quando isso acontecer, as chances de sucesso futuro serão maiores. Mas se forem perpetuados por longa jornada, o povo nos verá sempre como estrangeiros e jamais como parte da sociedade local.



É importante lembrar a esta altura que o lugar onde servimos será apenas mais um lugar se ele não se tornar a nossa casa. Porém, se tornará a nossa casa ao desenvolvermos profundidade de relacionamentos. Uma vez que casa é o lugar onde estão os nossos amigos e a nossa família.



APROVEITANDO OS ASPÉCTOS FAVORÁVEIS
Viver numa diferente atmosfera pode produzir reações negativas no missionário, como a perda do apetite, surgimento de alergias, caspa, queda de cabelo, envelhecimento precoce, etc. Contudo, um comportamento sugerido em nossa tarefa de tornar o processo de adaptação possível é permanecermos atentos aos aspectos simpáticos no novo ambiente que despertam o nosso entusiasmo e nos fazem sentir confortáveis. Com o passar do tempo, esses aspectos vão se tornando mais evidentes.


Durante meus anos de ministério, tenho aprendido que, em cada país, não encontramos apenas pluralidades e surpresas, mais também inúmeras similaridades, vantagens e objetos de admiração. E esses aspectos positivos podem estar relacionados ao clima, à alimentação, à geografia, à cultura, dentre outras áreas da vida do povo. É importante observar e aproveitar as oportunidades.



Quando minha esposa e eu residimos no Timor Leste, aprendemos a admirar a generosidade do povo, fatos que, em pouco tempo, fez nascer em nosso coração o amor e o respeito por aquela terra. Um dia pegamos uma lotação que seguiu para o caminho errado. Ao percebermos que estávamos perdidos, explicamos o problema ao motorista. A forma como agiu nos surpreendeu, ele desviou do caminho, estacionou num ponto apropriado, parou outro veículo que ia para a direção correta e anda, pagou as nossas passagens. Não é imprescionanteʔ


EVITANDO PROBLEMAS DESNECESSÁRIOS
Outra atitude que trabalhará a nosso favor será evitar comparações. É verdade que até nos adaptarmos à nova culinária, por exemplo, será um árduo exercício (missão quase impossível) não comparar a comida local com a que estávamos acostumados em nossa terra natal: coxinha de galinha, ppão de queijo, pastel, feijoada, etc.



O contraponto é que, se as comparações não forem evitadas, sobretudo em público, corremos o risco freqüente de criar situações d constrangimento no relacionamento com o povo e de erigir barreiras emocionai perfeitamente dispensáveis, dificultando ainda mais o processo de adaptação.



Não há dúvidas a esse respeito ou o missionário procura se acomodar à cultura em contato ou ele vai viver uma vida confusa, entre dois mundos. Ele não se adapta bem ao novo contexto nem se desprende do que ficou para traz, aquele que, pelo menos temporariamente não faz mais parte do seu dia-a-dia.



Se alguém espera pensar e agir numa outra cultura da mesma maneira como o faz em sua cultura de origem, seria melhor permanecer em casa. As normas de vida são diferentes em outras culturas e precisamos estar preparados para aprender e utilizar o sistema do povo local.



Até atingirmos uma posição confortável no processo de adaptação e nos sentirmos parte da comunidade, é normal acumularmos alto nível de estresse, fator que, conseqüentemente, resulta em choque cultural.


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O texto está publicado no livro "VIDA, MINISTÉRIO E DESAFIOS NO CAMPO MISSIONÁRIO". de autoria do Missionário Jairo de Oliveira. Editora Abba Press. SP.