"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quinta-feira, 28 de março de 2013

MODISMO E MISSÕES




Por Oswaldo Prado

Todos nós sabemos que a Igreja foi estabelecida para espalhar a glória de Deus por toda a Terra. Nada mais, nada menos que isso. Exatamente por isso temos hoje, em solo brasileiro, a semente do Evangelho de Cristo, que foi plantada aqui, especialmente a partir de meados do século 19.

O processo mais natural seria que esta Igreja Evangélica Brasileira, plantada por missionários forâneos, se tornasse, a partir de então, um agente promotor da glória do Senhor.

Mas não foi exatamente isso o que aconteceu. Esse Evangelho chegou até nós, igrejas foram plantadas, vidas foram transformadas, mas a visão da missão da Igreja ficou bem aquém daquilo que deveria ter acontecido.

Ou seja, o Evangelho avançou muito, mas priorizando sempre as próprias denominações e estruturas eclesiásticas, e também as suas posturas apologéticas.

Algo aparentemente inusitado veio a acontecer na década de 80, com um despertamento missionário entre muitas igrejas do nosso Brasil.

Proliferaram as conferências missionárias e muitos jovens e casais foram chamados e enviados para muitos lugares deste mundo. Nosso país passou a ser visto como "celeiro de missionários" e não mais como "campo missionário".

Tendo liderado por 10 anos uma agência missionária transcultural, pude ver com meus próprios olhos o que Deus fez em nosso meio. Passamos de pouco mais de 800 missionários transculturais na década de 80 para mais de 2000 nos anos 90!

Quem poderia imaginar algo assim?

Mas o tempo passou... Hoje estamos, já, no século 21 e muita coisa aconteceu de lá para cá, especialmente no que ser refere ao compromisso missionário de nossas igrejas.

Existem vários fatores que têm se tornado em obstáculos para o avanço do labor missionário. Mas, a meu ver, um dos fatores que tem capitaneado esta lista têm sido os modismos que vem e vão, mas estão sempre presentes em nosso meio.

Somos um povo evangélico que já deu provas suficientes que busca e persegue os modismos. A história da nossa geração tem o estigma do descartável, portanto, da mesma forma que algum tempo atrás estávamos imersos em algum tipo de liturgia ou hinologia em nossas igrejas, hoje iremos notar que muita coisa mudou.

E como não poderia deixar de acontecer, esses modismos vieram comprometer, especialmente nestes últimos anos, o avanço missionário brasileiro iniciado 20 anos atrás.

Mas, o que são esses "modismos"?

São movimentos cíclicos que surgem no meio da Igreja e que, na verdade, são modelos que nascem muitas vezes fora do nosso contexto nacional, mas são vistos como um grande recurso para o crescimento e sucesso de nossas igrejas.

Certamente muitos deles tem sua validade. No entanto, a pergunta que deveria ser feita é a seguinte: "Estes movimentos ou modismos tem ajudado o avanço da obra missionária (mono e tranculturalmente) ou apenas tem levado nossas comunidades a 'crescerem dentro delas mesmas'?.

Quantas de nossas igrejas hoje têm uma estrutura formada para servir a missão?

Nossa adoração têm nos levado a estar não somente diante do trono, mas também diante do perdido e do oprimido? Nossas mensagens têm sido direcionadas a alimentar nosso rebanho e também a desafiá-lo a servir "fora das portas"? Nossas reuniões administrativas têm servido para simplesmente gerenciar os negócios da igreja ou para servir melhor aqueles que não fazem parte de nossa comunidade? Os recursos que tem entrado têm sido usados prioritariamente para manutenção da estrutura funcional da igreja ou canalizados para sustentar missionários e obreiros para plantação de novas igrejas?

Se estas perguntas nos levarem a conclusão de que estamos servindo muito mais a nós mesmos do que aqueles que não conhecem o Evangelho do Reino, então certamente estamos imersos em algum tipo de modismo, que tirou nosso foco da missão da Igreja.

Nesse caso, o melhor de tudo é parar para refletir, orar e voltar ao caminho que Jesus nos propôs: servir aos que não fazem ainda parte do Seu Reino.





domingo, 24 de março de 2013

O QUE A IGREJA E MISSIONÁRIOS PRECISAM SABER ANTES DE PARTIR PARA O CAMPO



Pr. Jairo de Oliveira.

Olá amados !!!
Apresentamos alguns pontos importantes e que acreditamos que ser de grande valia, pois lhe ajudará a conhecer o que acontece na vida dos missionários, antes do envio, com pontos importantes que precisam ser preparados no inicio do trabalho no campo missionário, como também situações e desafios durante a permanência e retorno do campo.

Choque Cultural

• O choque cultural ou choque transcultural, como alguns preferem, é um daqueles obstáculos que o missionário, ou qualquer outra pessoa enfrenta, quando é introduzido em uma nova cultura. Diariamente ele será apresentado a novas situações que aos poucos vão gerando desgaste emocional.

• O missionário Hans Ulrich Reifler define choque cultural da seguinte maneira: O Choque cultural pode ser descrito como falta de orientação e estabilidade psíquicas diante da realidade do novo e de sentir-se diferente diante da estranheza da nova cultura.

• Esse conflito entre modelos culturais é bastante previsível e superável. É bom que o missionário saiba disso antes de sair do seu país, pois, ele precisará se preparar para transpor, com certa naturalidade, mais esse desafio.

• Ao adentrarmos em novo ambiente cultural, é verdade que não precisamos, e até nem devemos, ser coniventes com tudo. Porém, um estrangeiro que chega em uma nova cultura é um visitante e como tal ele deve se comportar respeitando o povo e os costumes locais.

• Portanto, não cabe, de forma alguma, a missionário desrespeitar os nacionais e tentar implantar modelos culturais do seu país de origem.

Uso das Mãos

• Para o povo Fur do Sudão a mão esquerda nunca é usada para comer(lá se come com os dedos) ou para oferecer alguma coisa a alguém.

Em regiões com costumes semelhantes, a principal orientação que se dá aos novos missionários é: nunca cumprimente alguém com a mão esquerda! Pois, alguém que vai ao restaurante e come com a mão esquerda pode provocar risos aos que se encontram ao redor.

Porém, na hora de pagar a conta, utilizar a mesma mão para entregar o dinheiro ao comerciante soará como um gesto extremamente ofensivo.

Choque cultural reverso

• Alguns estudiosos chegam a afirmar que a volta ao país de origem, depois de algum período vivido em realidades tão adversas, pode ser pior do que os problemas enfrentados no campo.

• Por isso, o apoio ao missionário na reentrada é de suma importância. Recebe-lo bem, providenciar um lugar adequado para sua hospedagem ou moradia, dar tempo de descanso, auxilia-lo nas suas despesas, ouvi-lo e ser atencioso com ele fará muita diferença para que se adapte e, no momento oportuno, retorne são ao campo, para mais uma jornada de trabalho.

Superando os Mal-entendidos

• Diante da pluralidade encontrada nas línguas e culturas ao redor do mundo, é preciso reconhecer que o trabalho missionário transcultural é, incontestavelmente, um grande desafio. Sendo assim, mesmo de posse de todo preparo necessário para enfrentá-lo é preciso crer que somente a graça de Deus é capaz de realmente nos capacitar e nos fazer superá-lo, um dia após o outro.

Escola para os filhos

• É preciso termos consciência do preço que se paga quando alguém assume o desafio de alcançar os perdidos com o evangelho.

E além do desafio de conseguir uma escola para os filhos estudarem, às vezes simples para nós no contexto urbano, é importante destacar também que os custos na educação dos filhos de um missionário são altíssimos.

Boa parte do que os pais recebem de sustento são utilizados para este fim. Portanto, o apoio da igreja, em todas as áreas, será sempre fundamental para amenizar as dificuldades enfrentadas por aqueles que renunciaram a tudo a fim de que a glória de Deus seja proclamada a todas as nações.

Que Deus nos dê a graça de sermos fiéis, pois o fracasso nos nossos filhos será também a nossa.

O desafio lingüístico.

"Assim acontece com vocês. Se não proferirem palavras compreensíveis com a língua, como alguém saberá o que está sendo dito? Vocês estarão simplesmente falando ao ar" (1 Coríntios 14:9).

• O aprendizado de uma língua é sempre algo demorado e emocionalmente desgastante, principalmente para o missionário brasileiro, pois somos um povo monolíngüe e aprender um segundo idioma é experiência reservada para poucos.

Além do mais, aprender uma nova língua é expor-se, é colocar em jogo o orgulho, é como voltar à infância.

• É importante destacar que o desafio que permanece diante do missionário não é apenas aprender a língua do povo. Na maioria dos casos, ele te a responsabilidade de lecionar, testemunhar e pregar.

A difícil espera por resultados

• Além do conflito que essa espera por resultados causa nos missionários, parece que existe ainda um problema maior diante dessa situação. Trata-se da cobrança por números imposta pelas igrejas enviadoras e mantenedores, que, em sua maioria, desconsideram que o trabalho missionário é uma proposta a ser desenvolvida em longo prazo. "Porque, nisto é verdadeiro o ditado: Um é o que semeia, e outro, o que ceifa" (João 4:37).

• O que a história de missões transculturais tem comprovado é que muitos resultados rápidos desaparecem com a mesma velocidade que surgem, principalmente pela falta de compreensão adequada do povo acerca do que realmente é o evangelho. Abandono da igreja que enviou

• Quando um missionário é abandonado por sua igreja no campo, eles têm que retornar, pois sem sustento torna-se difícil atender as necessidades básicas da família: alimentação, moradia, vestuário, educação dos filhos e assistência médica.

• Segue o questionamento de uma missionária: Gasta-se dinheiro com tudo o que se pode imaginar e a tudo se chama de "reino".

O missionário com suas necessidades pessoas, não é o "reino". Sua roupa ainda não está surrada o suficiente, seu carro não precisa de conserto, ele não precisa de plano de saúde. Estamos sustentando a "obra", o "reino", ou seja, o tempo, as coisas, mas não a pessoa do missionário por que ele não é o reino.

• Algumas igrejas, por qualquer motivo, mudam sua ênfase missionária e, então, como se tratasse apenas de uma mudança de opções de investimento, mandam avisar ao velho missionário que ele não se encaixa na "nova onda", portanto, não receberá mais nada da igreja. E ninguém pergunta ao missionário sobre o transtorno que se abaterá sobre a sua vida a partir dessa mudança de fogo.

O cuidado de Deus

• O verdadeiro missionário é aquele que não tem dúvidas sobre sua convocação e não negocia por nada o chamado. O seu coração é movido por uma forte convicção da vontade específica de Deus e nessa certeza ele prossegue, conforme o testemunho do apóstolo Paulo: "Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus" (Romanos 1:1).

• O que faz um filho de Deus tornar-se um missionário, ao ponto de deixar a própria terra para fazer o evangelho conhecido em outras etnias, é uma profunda convicção do chamado de Deus para essa tarefa e a promessa de Sua constante presença.

• Pessoalmente posso testemunhar que a decisão mais sábia que fiz na vida cristã foi dizer sim ao chamado específico que Deus revelou-me.

Com muita alegria posso dizer que tem sido um grande privilégio investir no reino de Deus o melhor da minha saúde, o melhor da minha força, o melhor dos meus sonhos, enfim, o melhor dos meus dias.

Provar o cuidado de Deus em cada área da minha vida tem sido uma experiência que não trocaria por nada, tampouco pelas glórias que esse mundo pode oferecer. Como os povos vêem os Brasileiros É hora de aprofundarmos a reflexão sobre o nosso comportamento, pois, no que se refere a missões, os brasileiros são muito astutos na intenção, mas ingênuos na atuação.

Após uma pesquisa com estrangeiros de 10 nações, segue algumas virtudes dos brasileiros:

• Superficialidade nos relacionamentos.

• Conformismo com os erros.

• Falta de pontualidade.

• Insubmissão às regras (jeitinho brasileiro).

• O desejo de querer levar vantagens.

• Forte desejo de competição.

• Certa malícia disfarçada em conversas de duplo sentido.

Dez erros que um obreiro iniciante não deve cometer no campo missionário:

O fator principal que ajuda prevenir os erros mais graves é o preparo.

O que a prática missionária tem provado é que missionários que são enviados ao campo sem terem se submetido ao preparo (teológico, missiológico e linguístico), chegam em desvantagem em relação aos missionários que investiram tempo se preparando. Pois o preparo, entre outros fatores, oferece ao candidato as devidas ferramentas para desenvolver um trabalho sério no campo, uma visão prévia do que o enfrentará e a maneira como deve se comportar em um novo contexto cultura.

No entanto, embora seja fundamental, o preparo não é garantia de sucesso e mesmo o missionário mais bem preparado estará sujeito a cometer erros no seu ministério.

1. Julgar que sua cultura é superior a do povo em que está trabalhando.

2. Desrespeitar os nacionais.

3. Comparar constantemente a cultura local ou o país adotivo com a própria cultura ou o país de origem.

4. Desvalorizar o estudo diário da língua e da cultura.

5. Ser inflexível às mudanças e quebras de paradigmas.

6. Desrespeitar as leis ou normas do lugar (povo, país ou instituições).

7. Pensar que tem todas as soluções para todos os problemas no campo e irá resolvê-los.

8. Achar que os que estão no campo já mais tempo sabem menos.

9. Desprezar o trabalho em equipe e o relacionamento com os outros missionários.

10. Se ofender com os erros cometidos.

Como escolher uma agência missionária?

Critérios para avaliação de uma agência missionária.

• Quais os requisitos necessários e o tipo de preparo que a agência exige dos candidatos?

• Qual a razão, pessoa ou grupo que originou a agência?

• Quais os padrões doutrinários que a agência defende?

• Qual o foco missionário da agência?

• Qual a experiência que a agência tem no envio de missionários?

• Que tipo de suporte a agência dá aos seus missionários?

• Há uma identificação no foco da Missão com o trabalho que o candidato pretende desenvolver?

• Há alguma identificação do candidato com a agência?

• A agência tem boa reputação diante das igrejas e de outras organizações?

• Qual o relacionamento da agência com as igrejas locais?

• Que tipos de parcerias a agência está disposta a realizar com outras organizações?

• Irei trabalhar sozinho ou com uma equipe, e como será esse relacionamento?

• Como funciona o sistema de liderança da agência?

• A missão presta contas a uma diretoria ou a outra organização?

• Como é realizada a administração das finanças?

• A organização se preocupa com o planejamento e atualização?

• Qual tem sido a média de permanência dos missionários da agência no campo?

• Qual o principal motivo no número de baixas de missionários da organização?

• De quanto em quanto tempo o missionário tem direito de retornar do campo em férias e de que maneira a agência interfere em sua agenda quando está de volta ao Brasil ou à sua cidade?

• O que dizem os ex-missionários sobre a seriedade e o trabalho da agência?

Filhos da terceira cultura - Third Culture Kids (TCK



Hoje conversamos sobre os desafios que uma família em transição enfrenta em criar filhos entre culturas. Qualquer mudança é uma fase cheia de caos e conflitos. Porém mudando de ambiente aonde o conhecido foi deixado para trás e o novo ainda é totalmente estranho é um grande desafio. Crianças tem emoções que vão aos extremos durante essa fase, desde o medo à excitação mas é esperado assim que ele chega ao novo endereço ele logo tem que mostrar que é forte e capaz de se ambientar quase que imediato num ambiente que é para todos os efeitos para ele estranho. Entrando em uma escola nova, ambiente novo ainda com sentimentos de isolamento, tentando definir novas fronteiras, descobrindo onde é sua casa, a procura de novos amigos, como também tentando compreender a nova cultura ao seu redor, tudo isso provoca excesso de ansiedade.



Esse assunto pode ser novidade para muita gente e ao mesmo tempo ser um assunto cotidiano em muitas famílias, pelo fato de que hoje empresas de capacidade multinacional carregam famílias pelo mundo afora criando uma cultura de expatriados, ou como nós, missionários que somos levados para onde o nosso Senhor Jesus quer, levando as boas novas do evangelho, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra. Atos 1:8b. Muitas vezes os pais são militares, diplomatas, engenheiros, executivos, missionários, pastores ou até mesmo refugiados. Todos vivendo uma vida fora de seu país natalino. Os filhos passam alguns anos aqui nessa cultura e alguns anos ali em outra, porém sempre fora da pátria natalina dos pais. Para algumas famílias esse estilo de vida é uma aventura e para outras um pesadelo, apesar das aparências de uma vida cheia de muitas viagens.



O termo “Filhos da Terceira Cultura” (Third Culture Kids) ou TCK foi criado para se referir às crianças que acompanham seus pais para fora de seu pais natal. Com o passar do tempo esses jovens indivíduos podem sofrer uma falta de identificação de uma só cultura, ou a falta de raízes, colecionando elementos de outras culturas e a integrando à sua própria, criando assim uma terceira cultura, uma que só pertence a ele. Os TCKs podem ter dificuldades em identificar qual cultura, entre as tantas que a conhecem que define melhor sua identidade



Os filhos de uma terceira cultura (TCk) tendem a ter mais em comum entre si que com crianças de sua cultura natal, independentemente de sua nacionalidade. Esses nômades globais muitas vezes são multilingues e altamente abertos para aceitar outras culturas.



Segue abaixo um vídeo com vários testemunhos de TCKs:



Claro que toda experiência de vida enriquece e abre a mente para que podemos entender o mundo tão diferente e ao mesmo tempo tão igual ao nosso, e o bom é que hoje comunidades pelo mundo afora estão se tornando mais culturalmente mistas. Com a ajuda da Internet, há meios de alcançar e em ajudar esses indivíduos que são expostos a tantas experiências cross-culturais, dando-lhes opções valiosas, conselhos e treinamento e as vezes até programas especializado de repatriamento. Eu diria que antigamente o sofrimento pela distancia da família pela falta da tecnologia era muito maior.



Os pontos abaixo são úteis na identificação de algumas características de um TCK:

• Viajar é um modo de vida.

• Uma vida de alta mobilidade – TCK conhece melhor um aeroporto do que a maioria das pessoas.

• Eles dominam mais de um idioma e tem a habilidade em pensar e sentir em vários.

• Capacidade de estabelecer relacionamentos rapidamente – as vezes até cortando níveis iniciais que leva em uma formação de um relacionamento considerado normal.

• Preferência em socializar com outros TCK quando ele entram na maturidade – muitas vezes ele também se tornam expatriados.

• Conversa bem com adultos.

• São socialmente maduros e independentes.

• Adolescentes são mais maduros que a média mas tendem a demorar mais para sair da adolescência.

• Entendem diferenças culturais e são menos preconceituosos.

• Capacidade em adaptar-se rapidamente à países e pessoas estranhas.

• Mais acolhedor a recém-chegados em uma comunidade.

• Alto sucesso acadêmico.

• Vivem mais no momento

• Eles servem como grande pontes culturais – eles têm múltiplos quadros de referência.

• Eles são excelentes observadores de outras pessoas muito atentos e bem sensíveis.

quinta-feira, 21 de março de 2013

João Wycliffe (1330-1384)




João Wycliffe nasceu na terra natal de Occam, na Inglaterra, aproximadamente na mesma data em que o exilado excomungado morreu de peste em Munique. Embora chegassem a muitas conclusões idênticas no tocante à igreja, Wycliffe e Occam divergiam grandemente nas abordagens básicas da filosofia e da teologia. Wycliffe era realista em relação às proposições universais, mas acreditava, assim como Occam, que o papa era corrupto e que a igreja deveria ser governada pelo povo de Deus com seus respectivos representantes e não pela estrutura hierárquica clerical.



Wycliffe nasceu por volta de 1330 em Lutterworth, no condado de Yorkshire, na Inglaterra. Morreu ali em 1384 como pároco, depois de ter sido afastado da Universidade de Oxford pelos seus colegas e pelos líderes eclesiásticos, devido aos seus ensinos radicais. Ainda jovem, Wycliffe tornou-se mestre no Balliol College da Universidade de Oxford, alcançou rapidamente posição de destaque e adquiriu grande reputação como erudito e forte defensor de reformas na igreja.



Enquanto dava aulas em Oxford, assim como muitos outros catedráticos, Wycliffe era funcionário do rei da Inglaterra de quem recebia proteção contanto que suas opiniões concordassem com as da realeza. Serviu de mediador entre a igreja e a corte real nas disputas a respeito dos bens imóveis da igreja, impostos e de outras questões conflitantes entre a igreja e o estado e escreveu dois grandes livros sobre a teoria governamental: On divine lordship [Do senhorio divino] e On civil lordship [Do senhorio civil]. Escreveu, também, On the king's office [Do papel do rei], On the truth of the Holy Scriptures [Da veracidade das Sagradas Escrituras], On the church [Da igreja], On the power of the pope [Do poder do papa], On the eucharist [Da eucaristia] e On the pastoral office [Sobre o cargo pastoral]. Defendia a tradução da Bíblia inteira para a linguagem do povo para que todos os cristãos pudessem lê-la e estudá-la por conta própria. Graças a isso, é lembrado no nome da maior sociedade de tradução bíblica do mundo.



Wycliffe não era nada diplomático ou flexível em questões que envolviam suas fortes convicções. Censurava a corrupção e abusos dentro da igreja e condenava duramente os papas de sua época por causa da secularidade e obsessão pelo poder e dinheiro. Um exemplo de sua invectiva contra o papa oferece uma amostra de sua inclinação à polêmica: “Portanto, o papa corrupto é anticristão e maligno, por ser a própria falsidade e o pai das mentiras”6. Chamou os ubíquos frades de seu país de “adúlteros da Palavra de Deus, que usam as vestes e véus coloridos das prostitutas”7. Wycliffe antecipou os ataques de Lutero contra a corrupção da igreja de forma mais veemente em sua crítica às indulgências. As indulgências eram documentos de absolvição do castigo temporal (como o purgatório) dos pecados vendidos por agentes dos papas. Wycliffe condenou severamente essa prática, assim como Lutero o fez em seus dias. A respeito das críticas que o teólogo de Oxford fez contra a igreja, um biógrafo moderno de Wycliffe escreve: “Um ataque como esse foi necessariamente o prelúdio para a Reforma e uma contribuição importante de Wycliffe. De fato, pode-se dizer que o ataque de Wycliffe foi tão direto, tão devastador que poupou os reformadores do século XVI o trabalho de realizar a tarefa sozinhos”8.



Em 1377, dezoito “erros” de Wycliffe foram condenados pelo papa a pedido de alguns de seus colegas em Oxford. Ele foi intimado a comparecer diante dos bispos da Inglaterra para se defender. Nessa ocasião, conseguiu evitar a confrontação apenas porque a rainha-mãe o defendeu firmemente. Em 1378, Wycliffe começou a criticar o Grande Cisma do Ocidente, no qual dois homens e, posteriormente, três alegavam ser papas. Suas críticas, no entanto, não se restringiram ao papado. Elas se estenderam às doutrinas católicas essenciais como a transubstanciação, que se tornou dogma semi-oficial da igreja no tocante à eucaristia no Quarto Concílio Laterano em 1215. A família real apoiou e protegeu Wycliffe até 1381, quando ele simpatizou abertamente com a revolta dos camponeses. Sofrendo grandes pressões do corpo docente de Oxford e dos bispos da Inglaterra, Wycliffe voltou à sua paróquia natal em Lutterworth, onde passou o resto de seus dias escrevendo e organizando uma sociedade de pregadores leigos pobres, conhecidos como lollardos. Morreu de derrame enquanto conduzia o culto no último dia de 1384 e foi condenado como herege e oficialmente excomungado pelo Concílio de Constança em 1415; ali também foi queimado na fogueira seu dovoto seguidor boêmio, João Huss. Os restos mortais de Wycliffe foram exumados, queimados e jogados no rio Swift pelo bispo de Lincoln em 1428.







Diferentemente de Occam, Wycliffe era um ardoroso realista no tocante às proposições universais. Nessa questão, assim como também em muitas outras, ele recorreu à tradição cristã platônica da igreja primitiva e de Agostinho e se posicionou com Anselmo. Empregava a lógica escolástica, mas dava pouco valor ao aristotelismo de Aquino e ao nominalismo de Occam. O realismo de Wycliffe manifestou-se em várias áreas da sua teologia, mas em nenhum outro lugar com tanta força quanto em sua crítica à doutrina da transubstanciação. Segundo ela, quando o sacerdote pronuncia as palavras da consagração na celebração da missa, o pão muda de substância e torna-se verdadeira e fisicamente a carne de Jesus Cristo enquanto o vinho torna-se de fato seu sangue. Os “acidentes” ou qualidades exteriores do pão e do vinho permanecem os mesmos, mas a substância interior é transformada de tal maneira que, segundo a doutrina, a pessoa que participa da eucaristia realmente come e bebe o corpo e sangue de Cristo. Embora essa doutrina da eucaristia não tenha se tornado um dogma definitivo e formal – já não mais passível de debate – antes do Concílio de Trento no século XVI, ainda na época de Wycliffe chegou a ser crença e doutrina aceita pela Igreja Católica Romana. Wycliffe lutou com ferocidade contra essa doutrina e usou o realismo como aliado.



Na obra On the eucharist, Wycliffe levantou muitas objeções contra a doutrina da transubstanciação e até mesmo a rotulou de “fantasias infiéis e infundadas” e argumentou que ela levava à adoração idólatra dos alimentos. Mas seu argumento mais forte baseava-se na metafísica realista. A referida doutrina subentende que uma substância, como o pão e o vinho, pode ser destruída e que “acidentes” podem existir sem que haja nenhuma relação com a substância. Segundo Wycliffe, essa crença desonra a Deus que é o autor de todas as substâncias. Além disso, viola as regras básicas da metafísica e da lógica. Em qualquer metafísica realista, quando uma substância ou proposição universal é destruída, seus acidentes também são destruídos. Pelo menos, assim ele acreditava e argumentava.



De qualquer forma, Wycliffe apresentou seu próprio conceito da eucaristia como alternativa ao que chamava de “heresia moderna” da transubstanciação. Segundo seu conceito, as substâncias do pão e do vinho permanecem enquanto o Espírito do Deus vivo estiver nelas, de modo que contêm a “presença real” de Jesus Cristo, embora continuem sendo pão e vinho. Em suas próprias palavras: “Assim como Cristo é duas substâncias, a saber, terrena e divina, também esse sacramento é o corpo do pão material e o corpo de Cristo”9. Wycliffe rejeitava a ideia de que qualquer sacramento funcionasse ex opere operato. Nessa questão, rompeu com seu amado pai da igreja, Agostinho, e insistiu que, para que o sacramento fosse verdadeiro e transmitisse graça, devia existir a presença da fé. A visão de Wycliffe sobre os sacramentos – especialmente da refeição eucarística – foi prenúncio do pensamento dos grandes reformadores protestantes magisteriais: Lutero e Calvino. Sua doutrina da presença real de Cristo por meio do Espírito Santo antecipa, sobretudo, a de Calvino.



A rejeição de Wycliffe à doutrina e à prática católica romana medieval ia muito além da crítica à transubstanciação. Seus conceitos sobre ministério e autoridade foram ainda mais importantes para sua luta por reforma. O teólogo de Oxford argumentava que a responsabilidade básica do ministro cristão – o sacerdote – era proclamar o evangelho e esse dever sobrepujava todos os demais. “Pregar o evangelho é infinitamente mais importante do que orar e administrar os sacramentos. […] Difundir o evangelho produz um benefício maior e mais evidente; é, por isso, a atividade mais preciosa da igreja. […] Portanto, os que pregam o evangelho devem realmente ser consagrados pela autoridade do Senhor”10.



Como eles deviam ser escolhidos e consagrados? Wycliffe chegou a recomendar que os membros de cada paróquia escolhessem seu próprio sacerdote – uma ideia bastante radical para a época. Ele estava profundamente desiludido com o poder, as riquezas, a corrupção e os abusos de autoridade por parte dos líderes da igreja e voltou sua atenção para o povo de Deus como a voz da vontade de Deus no governo eclesiástico. Embora fosse realista, sua eclesiologia converge, em certos aspectos, para a de Occam. Assim como o nominalista de Munique, Wycliffe defendia reformas radicais do clero e até a abolição do papado em qualquer forma reconhecível.



Talvez o principal trabalho de Wycliffe na teologia tenha sido sua defesa da autoridade suprema das Escrituras para tudo que tem relação com a fé e a vida. A Igreja Católica medieval chegou a considerar que a tradição tinha a mesma autoridade das Escrituras. A palavra do papa era considerada, por muitos sacerdotes e bispos, a palavra de Deus, embora a teologia católica não exigisse necessariamente essa crença. O dogma da infalibilidade papal só foi promulgado oficialmente no século XIX, mas na prática, as palavras e ações dos papas medievais eram respeitadas como autoridade absoluta. Wycliffe rejeitava totalmente essa ideia e depois de 1380 começou a chamar os papas de anticristos. Até o papa precisava obedecer ao “padrão evangélico” de ensino e prática derivado inteiramente das Escrituras e, à medida que o papa deixava de ser verdadeiramente evangélico, deixava mesmo de fazer parte da verdadeira igreja de Jesus Cristo e não devia ser considerado seu senhorio temporal ou espiritual.



Wycliffe escreveu o tratado chamado De veritae Sacrae Scripturae [Da veracidade das Sagradas Escrituras] em 1378, ano em que começou o Grande Cisma Ocidental. Nele, apresentou a tese de que as “Sagradas Escrituras são a suprema autoridade para todo o cristão e o padrão de fé e de toda a perfeição humana”11. Afirmou, também, a infalibilidade das Escrituras, que se interpretavam a si mesmas e o papel do Espírito Santo em iluminar a mente dos leitores enquanto as lêem e estudam. Em outras palavras, assim como os principais Reformadores protestantes de tempos posteriores, Wycliffe rejeitava a necessidade do magisterium autorizado – o ofício da igreja no ensino e interpretação das Escrituras. A Bíblia, a Palavra inspirada de Deus, assume esse ofício e está acima de todas as agências eclesiásticas.



Wycliffe rejeitava, também, o sistema medieval penitencial da salvação. Nos séculos subsequentes a Gregório Magno, a igreja ocidental e, especialmente, os monges desenvolveram um sistema meticuloso e exigente de penitências, ou atos de contrição, que os cristãos tinham que seguir para conquistar mérito perante Deus. Embora Wycliffe não chegasse a aceitar plenamente o evangelho protestante da justificação unicamente pela graça, antecipou Lutero e Calvino e outros reformadores do século XVI ao condenar todas as práticas humanas que visavam conquistar méritos diante de Deus. Sem nunca criticar ou abandonar as genuínas obras de amor como parte integrante da vida cristã, Wycliffe atribuía todo o mérito somente a Cristo e enfatizava a graça e a fé de maneira que não se ouviu falar na igreja durante séculos. Além disso, endossava com firmeza a crença na predestinação e tendia ao monergismo no seu conceito da intervenção de Deus em relação à atuação humana. Baseava-se nas Escrituras e não na metafísica escolástica ou na teologia natural.



Muitas razões justificam a reputação de Wycliffe como precursor da Reforma protestante. Nenhuma delas é mais importante, entretanto, do que a sua ênfase à Bíblia como infinitamente superior, em veracidade e autoridade, a qualquer tradição ou ofício humano. “Cento e cinquenta anos antes daqueles tempo [da Reforma protestante], Wycliffe agarrou-se à única autoridade adequada à Reforma, concedeu-lhe posição de destaque em sua obra e não poupou esforços para torná-la conhecida pelo povo, graças à tradução e à insistência na pregação da Palavra”12.



Nos anos finais, em Lutterworth, organizou o grupo de evangelistas e pregadores leigos, posteriormente chamados de lollardos, que ajudaram a preparar a Reforma na Inglaterra. Além disso, lutou pela tradução da Bíblia para a língua inglesa e seus esforços produziram entre seus seguidores a primeira Bíblia em inglês, chamada Bíblia de Oxford. Seus livros e ensinos chegaram à cidade de Praga, na Boêmia, onde o grande pregador e reformador João Huss usou-os para estabelecer ali um movimento permanente pré-protestante. Posteriormente, Lutero aproveitou os trabalhos tanto de Hus quanto de Wycliffe em sua luta bem-sucedida para reformar a teologia e a vida eclesiástica na Europa.



Notas



6 Apud John Stacey, John Wyclif and Reform (Philadelphia, Westminster Press, 1964, p.21).

7 Ibid., p. 42.

8 STACEY, op. cit., p. 52.

9 Apud Stancey, op. cit., p. 107.

10 Matthew SPINKA, org., Advocates of Reform: from Wyclif to Erasmus, Philadelphia, Westminster Press, 1953, p. 49. (The Library of Christian Classics 14)

11 Ibid., p. 26.

12 STACEY, op. cit., p. 156.