"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

segunda-feira, 29 de julho de 2013

VOCACIONADOS

Autor: Ronaldo Lidório A vocação de Deus é incontestável e irresistível. Incontestável, pois Ele, ao vocacionar, o faz de forma clara e nada mais enche o coração. Irresistível pela abordagem, pois quando Deus vocaciona, tudo nos impele a segui-Lo. Chamado e vocação são termos correlatos na Palavra de Deus e derivam da expressão kaleo - chamar. Em todo o Novo Testamento vemos que Ele chama para a salvação (2 Pe 1.10), para a liberdade (Gl 5.13), para sermos de Jesus Cristo (Rm 16) e para a ceia das bodas do Cordeiro (Ap 199). Todo chamado se dá segundo o Seu propósito (Rm 8.28) e somos encorajados a permanecer firmes no chamado (1 Co 7.20), andar de forma digna da nossa vocação (Ef 4.1) e a vivê-la junto com outros igualmente chamados em Cristo (Ef 4.4). O chamado de Deus não é uma prerrogativa do Novo Testamento. Deus, ao longo da história, chamou o Seu povo para o Seu propósito. Israel é chamado para ser bênção entre as nações (Gn 12.2) e para anunciar a salvação e a glória do Senhor (Sl 96.3). Em Isaías, o Senhor fala sobre “todos os que são chamados pelo meu nome”, também menciona que foram criados “para a minha glória” (Is 43.7). Antes de tudo, é preciso compreender que, em Cristo Jesus, todos somos vocacionados (1 Pe 2.9-10). A Palavra deixa isso bem claro ao expor que somos vocacionados para a salvação, para as boas obras, para a santidade e para a missão. Ou seja, nascemos em Cristo Jesus com um propósito. Não estamos neste mundo de forma aleatória e descomprometida. Fomos salvos em Cristo para fazer diferença – sendo sal e luz - e cumprir o chamado de Deus. E, dentre todas, a nossa maior vocação é glorificar o nome de Deus Pai (Rm 16.25-27). Encontramos também na Palavra de Deus a vocação ao ministério, para uma função específica no Reino do Senhor. Trata-se daqueles que são separados por Deus para uma ação específica e funcional em Sua igreja. Escrevendo aos Romanos, Paulo se apresenta como “servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus” (Rm 1.1), expressando que é servo de Cristo, porém, com um chamado ministerial específico: ser apóstolo. Ele afirma ser “servo” – doulos – escravo comprado pelo sangue do Cordeiro, liberto das cadeias do pecado e da morte e, apesar de livre, cativo pelo Senhor que o libertou. Afirma também ser chamado para ser “apóstolo”, demonstrando que alguns servos podem ser chamados ao apostolado, porém, não há apóstolos que não sejam primeiramente servos. Em Efésios 4:11, entendemos que o Senhor Jesus chama, dentre todos na igreja, “alguns” para serem apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres, ou seja, para funções específicas de trabalho. Quem nós somos - nosso chamado em Cristo - é mais determinador para nosso ministério do que para onde iremos. Não há na Palavra um chamado geográfico (para a China, Índia ou Japão), ou mesmo étnico (para os indígenas, africanos etc.), mas um chamado funcional, para se fazer alguma coisa. Na exposição aos Efésios, Paulo afirma que alguns foram chamados para ser apóstolos, ou “a pedrinha lançada bem longe”, na expressão de John Knox. São aqueles que vão aonde a igreja ainda não chegou. Há os profetas, que falam da parte de Deus e comunicam Sua verdade. Há os chamados para serem pastores, que amam e cuidam do rebanho de Cristo, que amam estar com o povo de Deus e se realizam ministerialmente cuidando desse povo. Há os evangelistas, que são aqui os “modeladores” do Evangelho, ou seja, os discipuladores. São os irmãos que fazem um trabalho nos bastidores, de discipulado, extremamente relevante para o Reino, o crescimento e amadurecimento da igreja. Por fim os mestres, que ensinam a Palavra de forma clara e transformadora, são os que leem a Palavra e a expõem de forma tão clara que marcam vidas e corações. Na dinâmica do chamado há certamente uma direção geográfica. Se alguém possui convicção de que Deus o quer na Índia, isso significa que há uma direção geográfica de Deus, não um chamado ministerial. Mas, notem: a direção geográfica muda, e mudou diversas vezes na vida de Paulo. O chamado, porém, permanece. Paulo foi chamado para os gentios, como por vezes expressa (At.13:1-3). Era uma força de expressão para seu perfil missionário, pois, com exceção dos judeus, todo o mundo era gentílico. Assim, ele expressa em Romanos 15.20 a prioridade geográfica do ministério da Igreja: “onde Cristo ainda não foi anunciado”. Na época, prioritariamente entre os gentios. Hoje, porém, pode ser perto e pode ser longe. Uma pessoa, de qualquer língua, raça, povo ou nação, que ainda não tenha ouvido as maravilhas do Evangelho, é a prioridade de Deus para a obra missionária. Percebo algumas crises entre os vocacionados no Brasil. As principais talvez sejam de compreensão, discernimento e ação. A crise de compreensão se estabelece à medida que não entendemos, na Palavra de Deus, que somos todos vocacionados para servir a Cristo. Assim, relegamos o trabalho aos que possuem um chamado ministerial específico. Outras vezes, por associarmos o chamado puramente a títulos ou posições eclesiásticas, esquecendo que fomos todos chamados em Cristo para a vida no Espírito e para o trabalho na missão. A crise de discernimento nasce quando não fazemos clara distinção entre o chamado universal e o chamado ministerial específico. Podemos passar a vida frustrados em qualquer lado do muro se não buscarmos discernimento vocacional. Esse discernimento é encontrado primeiramente na Palavra, estudando o que a Bíblia nos ensina sobre vocação. Em segundo lugar, caso haja uma convicção de chamado ministerial específico, associando-nos ao trabalho da igreja e passando nossa vocação pelo crivo dessa experiência. Por fim, precisamos buscar ao Senhor em oração especialmente para saber qual será o próximo passo. Deus, geralmente, só nos mostra o próximo passo. A terceira crise que percebo é de ação. Há um número grande de irmãos e irmãs com clara compreensão bíblica sobre a vocação, claro discernimento sobre os passos a serem dados, mas nunca os dão. Para alguns, esse passo é um envolvimento maior com o ministério da igreja local. Para outros, é seguir para um centro de treinamento bíblico e missionário ou participar de um estágio ministerial. O importante é perceber que, em algum momento ao longo da convicção de um chamado ministerial, é preciso dar um passo. Somos, portanto, todos vocacionados em Cristo para servir a Deus e glorificar o Seu Nome. Alguns são vocacionados, também em Cristo, para funções específicas – ministeriais – para o encorajamento da igreja e expansão do Evangelho no mundo. Em qualquer situação, a nossa vocação é um privilégio. Na verdade, talvez seja o nosso maior privilégio, bem como o nosso maior desafio.

Resenha - Introdução à Antropologia Missionária


- Autor: Ronaldo Lidório LIDÓRIO, Ronaldo. Introdução à Antropologia Missionária. São Paulo: Vida Nova, 2011. 208 p. Mineiro de Nanuque, Ronaldo Lidório nasceu em 1966 em uma família evangélica e engajada no trabalho missionário brasileiro. Aos 18 anos iniciou sua vida acadêmica, teve contato com diversas culturas e se dedicou ao estudo teológico e antropológico aplicado à sua responsabilidade missional. É bacharel em Teologia, habilitado em Missiologia e pós-graduado em Antropologia cultural e intercultural. Durante nove anos, ele e sua esposa Rossana trabalharam entre o povo Konkomba em Gana, desenvolvendo projetos sociais e evangelísticos, como a grafia da língua Limonkpeln e tradução do Novo Testamento, a organização de uma clínica, estabelecimento de escolas e perfuração de poços, além do plantio de várias igrejas. Hoje, trabalham com a equipe Amanajé entre os indígenas do Brasil, coordenam o Instituto Antropos e prestam consultoria a diversas organizações missionárias nas áreas de Missões e Antropologia. Ronaldo Lidório é membro da APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais) e também da Missão AMEM (A Missão de Evangelização Mundial). É consultor do CONPLEI (Conselho Nacional de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas), da WEC International e da World Evangelical Alliance. Também coordena a área de pesquisa do Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB (Associação de Missões Transculturais Brasileiras). É membro da American Anthropological Association desde 2001. Com um livro que transita por uma área pouco explorada na literatura brasileira, o autor trata dos encontros e desencontros que acontecem há anos entre antropólogos e missionários e, consequentemente, suas respectivas áreas. Sua proposta é abordar a Antropologia aplicada às ações missionárias de forma histórica, conceitual e prática, oferecendo uma base para os desdobramentos que envolvam encontro de culturas e evangelização. O primeiro capítulo introduz o livro no enfoque histórico da Antropologia, afunilando um pouco sobre os conceitos teóricos da Antropologia Cultural aplicada às atividades missionárias. No segundo capítulo, o autor começa a trabalhar, também historicamente, as interações já ocorridas entre antropólogos e missionários, esclarecendo que por meio da coleta, organização e distribuição dos dados etnográficos obtidos através da convivência, o missionário pode (e o fez durante anos) contribuir de forma relevante para a pesquisa antropológica. As considerações sobre o ambiente de animosidade entre antropólogos e missionários aparecem no capítulo três. Os pontos de vista de cada um são explicados, bem como os desencontros a partir de suas funções e visões na sociedade. Enquanto antropólogos primam por processos que promovem a pesquisa, missionários se debruçam no desenvolvimento de relações diretas com a sociedade. Assim, não raras vezes, antropólogos taxam missionários de nocivos intervencionistas e missionários classificam antropólogos como socialmente estéreis. Apesar disso, Lidório diz que a quebra de preconceitos e um ajuntamento desses segmentos seria bastante proveitoso tanto cientificamente quanto socialmente, pois a metodologia da pesquisa científica de um lado complementaria a aproximação social mais integral do outro. O quarto capítulo traz nomes dos missionários-antropólogos que têm tido expressiva relevância nas diversas ações de treinamento, conscientização e formação missionária, bem como na sólida produção literária. Em breve revisão bibliográfica, o quinto capítulo aponta teóricos que influenciaram em maior escala a formação da Antropologia Missionária e segue com a apresentação do roteiro de análise de sistemas culturais desenvolvido pelo próprio autor e denominado Método Antropos, o qual tem por pressuposto servir como guia na observação e estudo em situação de encontro cultural, além de aproveitar os dados coletados na viabilização de ações missionárias. Os conceitos de intervenção e mudança que tanto produzem tensão entre antropólogos e missionários voltam no capítulo seis para uma visão mais detalhada. O autor defende uma abordagem equilibrada tendo como crivo os princípios de autonomia e liberdade para assegurar que as mudanças (que ocorrem por diversos fatores) aconteçam por iniciativa interna, não imposta, além de serem cônscias e almejáveis pelo grupo que as experimentam. Lidório expõe no capítulo sete sobre catequese e evangelização, mostrando especialmente as diferenças (metodológicas e conceituais) entre as ações. A catequese – cristã ou não cristã, católica ou evangélica – tem por base a comunicação dos conceitos por meio dos códigos de quem transmite, sem a devida atenção ao receptor. É, assim, uma ação imposicionista. Já a evangelização é dialógica e relacional, utiliza os códigos e processos do ouvinte para conversa e exposição, baseando-se nos critérios de sensibilidade e compreensão cultural. No capítulo oito, o autor começa a tratar do uso da Antropologia nos campos missionários com ênfase etnográfica. A comunidade missionária tem como pontos fortes a vivência de campo e a coleta de dados, mas ainda lhe falta a metodologia etnológica. E esta é, possivelmente, uma das maiores necessidades: transpor-se da etnografia para a etnologia, da coleta de dados culturais para o exame e compreensão do seu significado. Lidório avalia que, no Brasil, a formação missionária tem deixado a desejar no preparo antropológico ao dar pouca ênfase às disciplinas da área, bem como à sua aplicação nas ações missionárias. A importância dos processos de comunicação que intencionam inteligibilidade, aplicação e contextualização da mensagem é abordada no nono capítulo. Considerando a comunicação como um fato social que inclui as partes, o autor afirma que ela deve ser dialógica, relacional, inteligível, ética e aplicável, e se concentra em tratar da metodologia de transmissão de uma mensagem. Ele deixa claro que uma comunicação fiel e relevante só será possível se houver, da parte do comunicador, o compromisso com a análise cultural e ampla compreensão da cosmovisão do grupo com quem se trabalha, para isso pontua dicas práticas para o bom relacionamento e aprendizado (da língua e cultura) com o grupo. O capítulo dez é conceitual, uma introdução aos termos: Antropologia – como consequência histórica das notas, acontecimentos e conceitos reunidos em torno da identidade humana em seus diversos agrupamentos sociais -, cultura – baseando-se na observação de Paul Hiebert como os princípios um tanto agregados em conceitos, emoções, importâncias e padrões que são vivenciados por pessoas organizadas em torno do que raciocinam, sentem e fazem - e homem – como um ser em cultura, determinado por sua história, seus conceitos e sua inclusão na sociedade. Três padrões de observação cultural são expostos no capítulo 11: o ético – com a aproximação, análise e conceituação de um fato antropológico a partir da interpretação e perspectiva cultural do observador –, o êmico – com a análise de um fato antropológico a partir da interpretação de quem vivencia a cultura experimentadora do acontecimento – e o êmico-teológico – com o padrão de observação cultural êmico, a partir de quem o vivencia, somado à aplicação dos princípios bíblicos supraculturais. A análise sociocultural é apontada por Lidório como uma das mais importantes contribuições da Antropologia à comunidade missionária, por isso, no capítulo 12, apresenta as bases de estudo que utilizou na elaboração do Método Antropos, denominando-as dimensões: histórica, ética, étnica e fenomenológica. Há também o método de desenvolvimento de pesquisa em contexto urbano, o Urbanos. Porém, o autor ressalta que, independente do método utilizado, é muito importante que o pesquisador/missionário atente para o modo pelo qual desenvolverá a pesquisa, priorizando o contato, aprendendo a partir de relações e observação, registrando, organizando e refletindo sobre tudo o que for coletado e aplicando o que foi avaliado nos processos de comunicação. Seguindo a perspectiva antropológica, nos capítulos 13 a 16, Lidório começa a tratar dos quatro temas que considera indispensáveis na construção do pensamento religioso de uma sociedade, quais sejam: magia, ritos, mitos e totemismo. O autor conceitua, descreve utilidade, identifica elementos de formação e as categoriza. O capítulo 17 é proposto para discutir o processo da evangelização de forma contextualizada. O autor lembra que dois limitadores desse processo são a insuficiência de compreensão do outro e do próprio Evangelho (mensagem). Sobre isso, há o perigo da imposição – com a tendência humana de aplicar ao outro seu próprio padrão cultural -, o perigo do pragmatismo – com a postura simplesmente prática, baseada em resultados – e o perigo sociológico – com a postura simplesmente humanista, baseada em solucionamentos. O autor esclarece que a contextualização não possui valor por si só, mas pelo conteúdo a ser contextualizado, por isso ele propõe alguns princípios bíblicos para uma boa contextualização da mensagem do Evangelho e segue com exemplos bíblicos do modelo paulino de exposição do Evangelho. Em suas últimas considerações, Lidório faz alguns apontamentos sobre os interesses e finalidades da Antropologia Missionária, recapitula o que tratou no desenvolvimento do livro e expõe que o maior desafio ao tratar dessa área é a efetiva comunicação da mensagem, ou seja, ser fiel ao conteúdo e, ao mesmo tempo, inteligível e relevante ao ouvinte. A obra traz ainda cinco apêndices: (1) O Manifesto do DAI/AMTB – 2009, sobre a presença e atuação missionárias entre os povos indígenas do Brasil; (2) A Declaração de Manaus, um manifesto assinado pelos alunos da primeira turma do curso de pós-graduação em Antropologia Intercultural da UniEvangelica e Instituto Antropos, reconhecendo a relevância da área estudada, a importância da aproximação do científico antropológico e das ações missionárias e se comprometendo com a produção reflexiva das ciências propostas, visando a defesa dos interesses dos povos entre os quais trabalham; (3) Uma breve descrição sociocultural da sociedade brasileira e a apresentação do Método Urbanos; (4) Uma compilação de estudos de caso e algumas sugestões de como utilizá-los; (5) O questionário direcionador do roteiro de análise de sistemas culturais, denominado Método Antropos. Fazendo jus ao aspecto introdutório, o autor trabalha muito bem a historicidade da Antropologia Cultural, seus expoentes e influência na Missiologia, dando base à aplicabilidade científica no campo missionário. Os capítulos são curtos, mas cheios de informações e bem divididos. Lidório não se esquece de conceituar, classificar, exemplificar e aplicar o que propõe. Cada nova informação traz um estudo de caso aplicável que contribui para a fixação. Além de uma excelente introdução e direcionamento para o estudo acadêmico e consolidação da perspectiva antropológica-missionária, o livro também é um importante meio de estímulo para a quebra de preconceitos entre os representantes das áreas abordadas, sabendo que uma posição equilibrada é benéfica a todos, especialmente às necessidades dos grupos que são alvo de estudo e atuação de antropólogos e missionários. A obra em questão recebeu o prêmio Areté 2012, promovido pela ASEC (Associação de Editores Cristãos), na categoria missão / nacional. Lidório, na mesma cerimônia, recebeu o prêmio de autor / nacional.

domingo, 28 de julho de 2013

MISSÕES – OS LUGARES MAIS DIFÍCEIS DE SEREM ALCANÇADOS SÃO AS IGREJAS



Falar sobre Missões nas igrejas evangélicas de nossos dias é bater em ferro frio. É lidar com pastores indiferentes, rebanhos idem. É remar contra a maré (às vezes a má fé).

Encontros, Conferências, Simpósios e outros movimentos sobre o tema geralmente se transformam numa espécie de desabafo coletivo de missiólogos, missionários, mobilizadores, líderes de juntas e agências e demais interessados pelo assunto. Independente dos temas abordados naqueles eventos, o que ouvimos são repetidas reclamações negativas, referentes à inércia das igrejas; ao clamor por mais verba; à falta de candidatos e à indiferença dos institutos bíblicos e seminários (estes, em sua maioria, são cada vez menos eficientes quanto as questões vocacionais) – já estou farto de tudo isto!

Vergonhosamente somos uma população que, segundo projeções do IBGE, já beira 50 milhões de crentes, com pouco mais de 3 mil missionários brasileiros transculturais ativos atualmente– não é escandaloso isto?! Digo vergonhosamente por não haver nada que justifique esta brecha gigantesca.

Dia destes um pastor amigo disse em sua preleção (em cerimônia de ordenação de novos pastores) que os pastores estão se tornando “um povo não alcançado”. Concordei! Muitos pastores têm corações extremamente duros para missões. Exemplo disto é que muitos deles são extremamente benevolentes e altruístas quando o assunto é aumento de seus próprios salários, mas quando se fala em manter missionário... Então, como vale a máxima “tal pastor, tal rebanho”, as igrejas acabam se tornando redutos de resistência a todo e qualquer expediente voltado para Missões.

Há ocasiões em que os pastores nem sequer se dão ao luxo de se envolverem e participarem dos eventos missionários patrocinados por suas próprias igrejas, ficando totalmente indiferentes, se escondendo sob frases escapistas do tipo “deixa o povo trabalhar” (vale lembrar que os tais eventos missionários realizados nas igrejas são quase sempre um fardo jogado nos ombros de pequenos grupos, que enfrentam até mesmo fortes oposições de obreiros e demais lideranças locais).

Outros pastores nem percebem o quanto são patéticos quanto arriscam a falar do tema, sem nenhum conhecimento ou paixão – tá na cara, tá na fala.

Não quero ser ingênuo, nem simplista, mas se quisesse explicar ou resumir a incompetência da igreja brasileira no que tange as questões em torno de Missões, diria que há um terrível tripé que compõe e sustenta a Igreja brasileira, e que dificilmente deixará de fazer parte de seu “DNA”:

1. A história de paternalismo, escrita pelos missionários estrangeiros que aqui aportaram – nos deram o peixe e não nos ensinaram a pescar.

2. A cultura “subespiritualizada”, na qual a compreensão de que somos apenas recipientes de benção, ao invés de instrumentos abençoadores, é a regra.

3. A herança católica de um cristianismo frouxo e sem expressão, que descarta o caráter sacerdotal e apostólico de cada crente.

Termino com um apelo aos pastores e crentes em geral:

"Convertam-se a Missões! Tornem vossa inércia em ação pelos povos sem Cristo!

Arrependam-se dos pecados da omissão e da indiferença pelos perdidos!

Chorem e pranteiem por vossos corações duros e insensatos!

Parem de roubar o dinheiro que deveria ser investido para alcançar nações, o qual tem sido gasto em vaidosos templos e luxos pessoais insignificantes!".