"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sábado, 7 de dezembro de 2013


O ENVIO MISSIONÁRIO – PARTE 1 Introdução Por Ronaldo Lidório Olhemos para a igreja em Antioquia como paradigma de envio, compromisso evangelístico e força plantadora de igrejas. A proposta é fazê-lo sonhar com esse modelo bíblico. Não foram Paulo e Barnabé que iniciaram esse grande movimento de plantio de igrejas entre os gentios, mas uma igreja, sensível ao Espírito, com a visão do Reino, temor à Palavra e pronta para servir. Igrejas plantam igrejas. Leiamos o texto de Atos 13, versos 1 a 3. 1 Ora, na igreja em Antioquia havia profetas e mestres, a saber: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes o tetrarca, e Saulo. 2 E servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. 3 Então, depois que jejuaram, oraram e lhes impuseram as mãos, os despediram. O versículo 1 enumera cinco líderes da igreja em Antioquia descritos sob a categoria de profetai kai didaskaloi (profetas e mestres). Profetes era aquele que falava em nome de Deus, também utilizado no grego ático tanto para pregador quanto para expositor das leis. O Didaskalos é o mestre (de didasko: ensino) aplicado para aquele que possui discípulos e, parece-me que nesse caso, esses didaskaloi estavam mais ligados à instrução dos novos convertidos em Antioquia. Nessa lista primeiramente é mencionado Barnabé, o qual era “natural de Chipre” (At. 4:36). Logo após Lucas cita Simeão, referindo-se provavelmente a um africano “Níger” (negro) e menciona Lúcio “de Cirene” provindo do norte da África. Também lista Manaém, colaço (syntrophos: irmão de leite) de Herodes e finalmente Saulo. O versículo 2 começa com uma ação coletiva: “e servindo eles ao Senhor…”. E as duas perguntas que devem ser aqui levantadas são: quem são “eles” e como serviam ao Senhor? Há três possibilidades para entendermos “eles”, já que o texto não o define: refere-se a toda a igreja em Antioquia; ou apenas aos cinco líderes do verso anterior; ou ainda especificamente a Paulo e Barnabé mencionados separadamente logo após. Por ausência de ligação textual creio que podemos excluir a “igreja em Antioquia”, restando-nos assim os cinco líderes do versículo 1 e Paulo e Barnabé do versículo 2. De qualquer forma, esses últimos são também mencionados na lista de líderes, portanto os utilizaremos como pressuposto para “eles”. Sigamos, portanto, para a pergunta principal: como serviam ao Senhor? Leitourgoi – Edificadores do Corpo de Cristo O verbo “servindo” (leitourgounton) utilizado aqui, aponta para aqueles que serviam ao Senhor como leitourgoi, servos. Lembremo-nos que havia três formas de alguém se apresentar como “servo” no contexto neotestamentário: Como doulos – o escravo. Nas palavras de Candus “Aquele que pessoalmente acompanha o seu Senhor para realizar os desejos do seu coração”. Portanto, doulos no contexto do Novo Testamento é aquele que tem um compromisso direto com Deus; que serve pessoalmente ao seu Senhor. Como diakonos – o mordomo. Aquele que serve ao seu Senhor através do serviço à comunidade. Na palavra o termo é usado para aqueles que, sensíveis à necessidade do Corpo de Cristo – física e espiritual – servem a Deus. Ou como leitourgos – o edificador. O termo, ligado à leitourgia (liturgia) não é restrito como o usamos hoje. Refere-se àquele que serve ao Senhor sendo usado por Ele para abençoar, edificar, o seu irmão. E essa é justamente a raiz do verbo que expressa que Paulo e Barnabé serviam ao Senhor, afirmando assim que eles eram, antes de tudo, abençoadores, ou edificadores do Corpo de Cristo em Antioquia. Eram uma bênção, como se pode falar hoje. Portanto, a primeira característica apontada pelo texto a respeito desses dois homens que iniciaram a obra missionária como a conhecemos hoje não foi a competência intelectual, o título ministerial ou a profundidade teológica, mas a fidelidade, e fidelidade de vida em relação aos de perto que os rodeavam em Antioquia. Uma aplicação objetiva do texto seria esta: não envie para longe aqueles que não são uma bênção perto. Aquele rapaz que diz possuir um claro chamado ministerial, se não tiver primeiramente um desejo ardente pelo ministério comprovado pelo serviço em sua igreja local, certamente não o terá em lugares distantes; ele não está pronto a ser enviado ao seminário ou ao campo. Aquela jovem que insistentemente afirma ter um claro chamado ministerial para a obra missionária em algum lugar distante, se não o demonstrar onde está com os ministérios e oportunidades locais, não o fará também do outro lado do mundo; ela não está pronta a ser enviada ao preparo ou ao campo. Aplicações do texto para a vida diária Já vimos que não devemos enviar para longe aqueles que não são uma bênção perto com base no verso 2. Spurgeon já falava, em 1885, que “nada é mais difícil do que se mostrar fiel aos de perto que bem lhe conhecem” e aqui três rápidas aplicações poderiam ser feitas. Pessoal. Não há nada mais perto de nós do que a nossa família. Aquele que não pode ser apontado pela esposa, esposo ou filhos como leitourgos no dia a dia de sua casa, dificilmente será uma bênção fora dela. Ministerial. Líderes e pregadores que se destacam nos púlpitos e salas de aula de igrejas e seminários, mas fracassam com a família, amigos e pessoas chegadas, não estão prontos para o ministério. Plantadores de igrejas que são exímios no que fazem, nas ruas, praças e templos, porém não têm testemunho de Cristo entre os seus, não estão qualificados ao envio. O ministério não define o próprio ministério. O caráter de Cristo em nós o faz. Eclesiástica. Não há nada mais perto da igreja do que a própria igreja, os irmãos com os quais nos encontramos a cada semana. Se uma comunidade cristã não demonstra ser leitourgos, abençoadora, para aqueles com a qual convive dia a dia, culto a culto, dificilmente conseguirá fazer diferença em outros lugares, seja perto, seja longe. Conclusão A Palavra de Deus segue uma lógica quase sempre crescente. O que for fiel no pouco será também no muito. Quem for uma bênção perto será também longe. É necessário entendermos que “no pouco” e “perto” encontramos oportunidades de aprendizado e crescimento. São ambientes onde podemos observar nossos próprios corações, vermos as áreas de limitação da vida e buscarmos quebrantamento, perdão e edificação para nossa caminhada. Vivemos um desafio constante de sermos fieis no pouco e abençoadores aos de perto. Usemos desta oportunidade para buscar verdadeiro quebrantamento de coração, pedir que o Espírito Santo nos molde à imagem de Cristo, e nos preparar para continuarmos a caminhada ao ponto de também sermos fieis no muito e abençoadores aos de longe. O ENVIO MISSIONÁRIO – PARTE 2 Introdução Veremos neste artigo sobre a posição da igreja no processo de envio missionário. O envio missionário está atrelado diretamente ao envio por parte de igrejas locais. Há um número expressivo de vocacionados ao ministério que não chegam aos seminários e campos por falta de orientação, acolhida e envio por parte de igrejas locais. Um segmento precioso na igreja local são os seus vocacionados. São eles que o Senhor usará para que outras igrejas sejam pastoreadas, a Palavra seja traduzida para outros idiomas, igrejas sejam plantadas em cidades e tribos, e ministérios de compaixão sejam desenvolvidos entre os carentes. Devemos orar, acolher, encorajar, preparar e investir naqueles a quem Deus chama e vocaciona. E disse o Espírito Santo No texto de Atos 13.1-3 lemos que, servindo eles ao Senhor, “disse o Espírito Santo: separai-me…”. O texto não esclarece como o Espírito se manifestou e falou à igreja, mas toda a ação deixa bem claro que a igreja prontamente ouviu. “Disse” (eipen) vem de lego que significa “falar”, “se comunicar”. Pode ser usado tanto para a comunicação direta ou via um mensageiro. Alguns exegetas afirmam que o fato do Espírito ter falado à igreja se relaciona com o destaque de Lucas no verso primeiro, ou seja, a existência de “profetas e mestres”. Outros defendem que, por deixar indefinida a forma pela qual o Espírito falou à igreja Lucas estaria sugerindo a presença de uma convicção subjetiva unânime no meio do povo quanto ao chamado de Paulo e Barnabé. O certo, porém, é que o texto declara como a igreja estava quando ouviu a voz do Espírito: jejuando e orando. O conteúdo do que Ele falara foi “separai-me” (aphorisate), do verbo aphorizo, o qual é um verbo exclusivista também usado em Mt 25.32 quando o pastor “separa” as ovelhas dos carneiros. Aphorizo se diferencia de ekklio, pois não se trata de uma separação de relacionamento (foram excluídos da igreja de Antioquia), mas uma separação para uma função (permanecendo ligados à igreja são agora designados para uma função além da igreja local). É o mesmo termo usado nos Documentos de Cartago, quando cidadãos comuns eram chamados para engrossar as fileiras do exército romano. Portanto, Paulo e Barnabé seriam separados porque primeiramente haviam sido chamados e não o contrário. É bom também entendermos que ergon (a obra) para a qual foram chamados é um termo genérico que tanto pode significar um ato quanto uma função e poderia ser usado, nesse caso, por ser essa obra já bem conhecida por todos na igreja – a evangelização dos gentios – ou também para chamar a atenção para o ponto principal deste comando: não a obra, mas quem os chamou para essa obra. Demonstra também flexibilidade ministerial indicando que a obra pode mudar, mas o chamado permanece, pois se baseia naquele que nos chamou. A expressão “jejuando e orando” vem como um conjunto que se completa já que, segundo Stott, “o jejum é uma ação negativa (abstenção de comida e outras distrações) em função de uma ação positiva (culto e oração)”, e em subsequência “impondo sobre eles as mãos…” traz a expressão epithentes tas cheiras que possui vasto significado para o conceito de envio missionário. Impondo sobre eles as mãos A imposição de mãos tem um significado específico entre romanos e gregos no primeiro século. Compreendê-lo também nos levará a perceber a nossa responsabilidade em impor as mãos e enviar aqueles que devem pregar o Evangelho de Cristo. Sinal de autoridade. Esse “impor de mãos” remonta ao grego clássico quando um pai impunha suas mãos sobre o filho que lhe sucederia na chefia da família, ou seja, uma transferência de autoridade. Para Paulo e Barnabé isso significava que eles possuíam a autoridade eclesiástica para fazer tudo o que a igreja faria, mesmo onde ela não estivesse presente como comunidade. É, portanto, ao mesmo tempo uma carga de autoridade e responsabilidade. Como igreja em Antioquia, eles poderiam pregar a Palavra, orar pelos enfermos e desafiar os incrédulos, mas ao mesmo tempo precisariam também compartilhar da mesma fidelidade e dedicação que existia naquela comunidade dos santos. Sinal de reconhecimento. Também era usado em momentos oficiais como na cidade de Alexandria, quando vinte oficiais foram escolhidos especialmente para guardar a entrada da cidade que sofria com frequentes ataques de nômades, e sobre eles “foram impostas as mãos” em sinal de reconhecimento de que eram dotados das qualidades para aquela função. Para Paulo e Barnabé consistia no fato de que a liderança da igreja reconhecia não apenas o chamado (que era claro), mas também a capacidade e dons para cumprirem a missão. Sinal de Cumplicidade. Encontramos também no grego clássico o “impor de mãos” no sentido de cumplicidade, quando generais eram enviados a terras distantes para coordenar uma província e as autoridades enviadoras impunham as mãos demonstrando ao povo que eles não seriam esquecidos. Ou seja, permaneciam como parte do corpo mesmo não estando entre eles. Para Paulo e Barnabé significaria dizer que, por mais distantes que fossem, permaneceriam ligados à igreja de Antioquia. Que essa igreja continuaria responsável por eles, amando-os, desejando o melhor e com certeza os sustentando. A meu ver, impor as mãos como sinal de autoridade e reconhecimento não é tão difícil como as impor em sinal de cumplicidade, pois esse último é um ato contínuo que demanda dedicação e profundo amor. Kent Norgan afirmou que “é mais fácil amar aquele que se vê e ter compaixão ao que está sempre ao seu lado”. Por fim, a igreja “… os despediu” (apelusan), do grego apoluo que significa “fazer as honras do envio”. “Apoluo” também pode ser usado no sentido de “liberar, soltar, deixar que se vá”. Creio que havia aqui um aspecto prático no qual líderes e irmãos pensaram também nas necessidades imediatas de Paulo e Barnabé para a viagem e ministério. Apoluo é uma expressão formal, portanto nos leva a crer que não foram despedidos de forma simples, mas antes houve um culto em que a igreja oficialmente se reunira para os enviar: um abençoado culto de envio. Alguns princípios no envio Temos aqui alguns princípios que podem ser observados no envio missionário. No processo do chamado não há apoio bíblico ao ostracismo. Ou seja, é inválida a posição de irmãos que alegam ter ouvido a direção do Espírito Santo quanto à vocação missionária, mas que desejam levar adiante essa missão sem a participação da igreja local. Mesmo em um contexto onde agências missionárias são usadas para facilitar os ministérios daqueles que vão, a igreja local precisa permanecer na linha de frente no processo de seleção e confirmação do chamado. Precisamos crer que o Espírito fala à igreja e devemos esperar submissão daqueles que foram chamados à sua liderança local. No desafio ao envio missionário devemos evitar o institucionalismo. É o outro lado da mesma moeda. A igreja, sozinha e desconhecendo o contexto, tomando decisões e definindo metas, estratégias e prioridades a despeito da visão daqueles que foram chamados. Precisamos crer que Deus colocará de maneira clara nesses corações os desejos certos e a motivação que vem do alto. É preciso ouvir, e com atenção, o que Deus fala aos chamados em sua igreja local. No momento do envio passamos para os enviados autoridade eclesiástica, reconhecimento de que são qualificados e especialmente cumplicidade com a obra para a qual foram separados. Ou seja, no processo do envio missionário o cordão umbilical não pode ser cortado. A igreja, enviadora, é a responsável pela obra que se inicia perante o Senhor. Igrejas plantam igrejas. Conclusão Oremos e olhemos para os vocacionados em nossa igreja. Aqueles que sentiram e estão convictos da vocação do Senhor. Talvez não saibam para onde, como ou quando irão, ou se permanecerão, mas estão certos que o Senhor os chamou. Oremos por eles, sobretudo, por dois elementos importantes. O primeiro é o discernimento. Eles precisam de Deus para saber qual é o próximo passo. Talvez seja se envolverem com os ministérios da igreja local, se prepararem em um seminário ou concluírem a universidade. Talvez seja buscarem a Deus para uma área de suas vidas seja trabalhada. O próximo passo, porém, é sempre uma grande necessidade para aqueles que foram chamados e ainda não partiram. O segundo elemento importante é a perseverança. Oremos para que eles não parem ao longo do caminho. Para que não se encantem com as luzes deste mundo e outros chamados que não venham do Pai. Perseverar é uma das maiores necessidades na vida daqueles que entendem a vocação ministerial e a igreja pode ajuda-los, como Antioquia fez com Paulo e Barnabé. Ninguém sabe ao certo quando Deus falará à igreja de forma especial, mas o jejum e a oração – sinais de uma comunidade piedosa e crente – são a postura daqueles que ouvirão a Sua voz. Deus fala a muitos, contudo aqueles que se humilham ouvem mais a Sua voz. Envie suas perguntas para contato@povoselinguas.com.br, para que possamos acompanhar e orienta-lo quanto ao envolvimento de sua igreja no campo missionário.

POVOS E LÍNGUAS - UM PROGRAMA MISSIONÁRIO