"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

SE VOCÊ AINDA NÃO LEU. EU RECOMENDO. FATOR MELQUISEDEQUE


Análise do Livro "O Fator Melquisedeque" De Don Richardson


INTRODUÇÃO
O livro de Don Richardson, missionário e missiólogo, "O Fator Melquisedeque" e uma sistematização de pensamentos já expostos pelo autor em livros anteriores como "Senhores da Terra" e "Totem da Paz". Nestes, ele descreve experiências vividas pessoalmente e por outros missionários em campos de missões narrando também aspectos culturais dos povos com os quais houve contato.
Em "O Fator Melquisedeque" (gosto mais do titulo em inglês - "Eternity in Their Hearts"), Richardson desenvolve suas idéias buscando um apoio escriturístico para suas afirmações, completando com um vasto trabalho de pesquisa em, por exemplo, literatura grega e na antropologia.
O tema principal está na convicção de que Deus deixou os povos preparados para o Evangelho para que, quando a testemunha de Cristo alcançasse um determinado povo ou nação houvesse condições de criar elos de contato com o "testemunho de Deus" presente desde tempos remotos com a mensagem cristã.
Irei sintetizar os principais pontos do livro e tentar avaliar os aspectos mais críticos.

1. UM MUNDO PREPARADO PARA O EVANGELHO
Partindo do texto de Atos 14:15-17, quando Paulo e Barnabé se encontram em Listra na primeira viagem missionária do apóstolo, o autor afirma a existência de um testemunho de Deus entre os povos desde o tempo da dispersão das raças no inicio da história da humani- dade. Mesmo os povos que se afastaram de Deus levaram consigo uma revelação divina ou uma participação divina em sua cultura que, de alguma forma, poderia lembrar do Criador. O texto de Atos sugere uma preocupação de Deus em manter contato constante com os povos através da natureza e da própria consciência do homem. Isto é reforçado pelas palavras do mesmo apóstolo em Rm 1:18-20 e Rm 2:13-15.
O importante desta afirmação, no contexto de estudo de Richardson, e o preparo dos povos para a futura evangelização. Alguns exemplos são dados dividindo-se os povos em três categorias, a saber:

1.1. Povos do Deus Remoto
Existem povos, constata o autor, que têm uma clara idéia de um Deus Soberano e Criador, mas que, segundo suas tradições, está distante e sem qualquer influencia direta na vida do povo. Antigo Testamento e que também servem de apoio para a explanação do desejo divino de salvar os povos.
Finalizando o capitulo sobre o Fator Melquisedeque, o preparo das nações para o Evangelho, o autor analisa alguns conceitos filosóficos expostos por eruditos na linha do evolucionismo. Estes elaboram com uma falsa premissa de que o desenvolvimento positivo da humanidade partiu de uma cultura sem Deus. Com a reflexão sobre a alma surgiu o animismo para mais tarde, na elitização de classes, passar a um politeísmo. Quando as elites concentram o poder num governante vem a idéia de um deus superior e soberano dando origem ao monoteísmo. O ideal pregado por estes representantes da evolução é um retorno a origem sem qualquer preocupação com um Deus. A conseqüência é a pregação do ateísmo aceita, por exemplo, pelo Comunismo. Apesar de todo o estudo feito entre povos primitivos e sua crença primeira, "monoteísmo nativo", que prova o contrário das teorias evolucionistas apresentadas por estes eruditos como Taylor, as teorias continuam a ser divulgadas e apresentadas como verdadeiras.

2. O EVANGELHO PREPARADO PARA O MUNDO
Aqui se trata do "Fator Abraão", a revelação especial de Deus a um povo, Israel, mas que teria sua validade para a humanidade como um todo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12:3). Diz Richardson que esta é a "viga-mestra" da revelação especial, a "espinha dorsal" da mensagem da Bíblia.

2.1 A Conexão de Quatro Mil Anos
Desde a formação do povo Israelita Deus tem uma declarada preocupação em reaver a comunhão com o ser humano, perdida na queda. A própria escolha de um povo através de Abraão visa a reconquista do homem. A salvação é colocada em termos de benção e é destinada a todos os povos da terra. Já no inicio fica claro a abrangência da ação divina e Israel seria um canal desta benção.
Portanto, missões não é uma invenção de última hora por parte de Jesus ou mesmo pela Igreja atual, mas uma ênfase dada por Deus desde o tempo de Abraão.

2.2 Um Messias para Todos os Povos
Jesus Cristo encarna a promessa divina de benção para todas as nações e povos. Isto é exaustivamente afirmado pelo Mestre tanto em seu ensino como em seu ministério. Enquanto os lideres judaicos e os próprios discípulos viviam num exclusivismo, Jesus se preocupava também pelos gentios que passavam ou viviam na Palestina.

2.3 A Mensagem Oculta de Atos
No livro de Atos dos Apóstolos temos a continuação do ministério de Jesus através dos apóstolos. Não houve por parte deles uma compreensão satisfatória do universalismo da tarefa, mas com a ajuda do Espírito Santo alcançaram aos poucos outros povos. Foi em Paulo que Deus encontrou o "apóstolo dos gentios" que levaria a cabo, dentro das limitações da época, a comissão missionária. A tradição cristã nos relata viagens dos demais apóstolos e sabemos pela continuação do Novo Testamento que Pedro e João saíram, com o tempo, de Jerusalém.
Atos pode ser visto como um manual missionário, afirmam alguns, contendo um desafio para uma continuação da tarefa missionária até se alcançar, efetivamente, os confins da terra.
Este é o "fator Abraão", a revelação especial de Deus a humanidade, o Evangelho sobre Jesus Cristo, que pela fé aceito leva a um novo nascimento e uma comunhão com o Criador.

3. AVALIAÇÃO PESSOAL E CONCLUSÃO
Vejo no livro de Don Richardson importantes aspectos que devem ser ponderados na nossa reflexão missiológica. Gostaria de destacar alguns pontos positivos e também colocar algumas criticas sobre sua exposição.

3.1 A Soberania de Deus
Fica bem patente a convicção do autor na soberania divina em dirigir a história humana de tal forma que sempre existe um controle por parte do Criador mesmo quando os povos escolhem os seus próprios caminhos. Em sua sabedoria, Deus deixa algo de si mesmo entre as diferentes culturas, Esta presença divina se faz notória em tradições das mais variadas tendo um aspecto de revelação geral e irrestrita a todos.

3.2 Fator Melquisedeque versus fator Abraão
É bem sugestiva a diferença feita entre os dois “fatores” com boa argumentação e ricamente exemplificada. Mesmo havendo alguns pontos fracos, como veremos abaixo, me parece que Richardson encontrou algo de valioso na determinação do que vem a ser revelação geral e revelação especial. Não podemos negar que os exemplos bíblicos aludidos e as experiências coletadas ao longo da história missionária apontam para a veracidade destes "fatores".

3.3 Valorização das Culturas
A afirmação de que cada cultura tem uma influência, por mínima que seja da parte de Deus faz com que as culturas sejam valorizadas. Não se pode desprezar algo que Deus tem aceitado e usado para se comunicar assim como não se pode escolher uma cultura especifica como a única verdadeira e consoante ao desejo divino.

3.4 A Preocupação Evangelística
O estudo feito pelo autor, segundo posso entender, tem como causa primeira a preocupação em levar o Evangelho a todos os povos da terra. Principalmente achar pontos de contato entre a mensagem bíblica e a cultura em foco, usando estes pontos como cabeças de ponte para transmitir um Evangelho contextualizado e compreensível. Não significa que qualquer similitude pode ser usada, precisa haver critérios definidos para as analogias. Richardson tem critérios e tanto em sua experiência pessoal como em sua argumentação busca o bem do Evangelho.

3.5 Generalizações
Um ponto fortemente crítico em sua exposição é a facilidade em partir para generalizações. Quando algo é evidenciado por número, segundo ele, suficiente de casos, pode-se afirmar um conceito definido e válido para todas as culturas e povos. Mesmo que o conceito seja verdadeiro, é difícil provar o contrário, o método científico correto parece exigir um pouco mais do que a soma de casos parecidos.
Sei que parte do material é espiritual e metafísico e não cabe dentro das regras normais da ciência, mas neste caso também as afirmações perdem o seu valor científico.
Gostaria que Richardson tivesse razão em suas afirmações e até creio que sim, mas dificilmente suas conclusões num todo seriam incontestadas por estudiosos, por exemplo, na área da antropologia, mesmo se tratando de cristãos confessos.

3.6 Uma Atitude Negativa para com Teólogos
Provavelmente aqui também se trata de uma generalização. Vez após vez o autor fala da categoria de teólogos como incrédulos quanto as possibilidades de Deus em falar através de culturas pagãs. Mesmo na abordagem sobre conceitos básicos de missões parece que apenas missiólogos entendem o conteúdo bíblico. Sou, naturalmente, forte adepto da teologia de missões e vejo estes conceitos em toda a Bíblia, mas seria injusto classificar os teólogos como, de forma generalizada, contrários a esta ênfase.

3.7 A divisão Cósmica
Fiquei um tanto surpreso com a afirmação do autor sobre a divisão cósmica em quatro níveis (pág. 106-107). Mesmo que isto possa de alguma forma transparecer na linguagem fenomenológica das Escrituras me parece um tanto arriscado afirmá-lo categoricamente. Segundo entendo, as Escrituras combatem veemente qualquer separação que possa gerar uma dicotomia da realidade, comumente advogada pelos gregos no Gnosticismo em suas diversas formas e apresentações históricas. Mas pode ser que, por não ter me confrontado com esta idéia anteriormente, esteja reagindo forte demais.

3.8 Frustrações para Missionários
Um dos efeitos menos positivos da exposição e o julgamento in-
Um exemplo bíblico disto, na experiência do próprio apóstolo Paulo é a descoberta de um altar em Atenas com a inscrição "Ao Deus desconhecido”. O autor, após pesquisas sobre filósofos da época e acontecimentos que possam explicar o fato na história da Grécia, nos apresenta uma interessante narrativa que daria significado a abordagem de Paulo e seu uso deste altar para a divulgação de Cristo. Por trás da inscrição havia uma manifestação do Deus vivo na vida dos gregos mostrando que, pelo menos em algum momento de sua história, houve uma preocupação em adorar a este Deus, ou usando o termo grego, usado por Paulo, este Theos.
Os Cananeus com seu E1 Elyon, os Incas com seu Viracocha, os Santal com seu Thakur Jiu, os Gedeos da Etiópia com seu Magano, os Mbaka da República Centro-Africano com seu Koro, os Chineses com o Senhor do Céu - Shang Ti e os Coreanos com seu Hananim, são exemplos dados de povos com noções de um Deus Criador e Sustentados do Universo que há muito tempo tinha sido adorado e obedecido, mas que com o passar dos anos foi deixado de lado.
É justamente no exemplo dos Cananeus e o contato de Abraão com o rei Melquisedeque que temos uma evidência de que Deus age através de uma revelação geral entre os povos. Abraão reconhece o sacerdócio de Melquisedeque e lhe oferece o dizimo. Da mesma forma, diz Richardson, temos nos demais exemplos citados, claras provas de revelação geral como testemunho vivo de Deus nas mais diversas culturas. Este é o "Fator Melquisedeque".

1.2.Povos do Livro Perdido
Analogamente existem povos que têm uma tradição verificável de um livro sagrado perdido na história. Exemplos disto são povos principalmente na Ásia (Birmânia, China e índia, etc.) que têm uma expectativa de um dia encontrar novamente o escrito sagrado trazido, pois alguém de fora, geralmente um branco!
Assim como esta expectativa se encaixa bem na vinda de missionários com a Bíblia "em baixo do braço", também têm ocorrido situações quando outras religiões, por exemplo, o Islamismo, tem se aproveitado de tais crenças. Mas, não há dúvida, que este fato de esperarem um mensageiro, ou com uma palavra do Deus Remoto ou com o Escrito Sagrado, cria cabeças de ponte para a contextualização do Evangelho de Cristo.

1.3.Povos com Costumes Estranhos
Da mesma forma como Deus colocou alguns costumes estranhos entre os Israelitas no Antigo Testamento, encontra-se em alguns povos espalhados pela terra rituais pouco familiares aos demais. O barquinho emissário na ilha de Bornéu, ou o ritual de paz do povo Asmat em Nova Guine têm claros paralelos com os costumes estranhos narrados no Antigo Testamento. (...)
(...) Não podemos, segundo meu ver e na pele de missionário, limitar a atuação de Deus e do seu Santo Espírito a nossa perspicácia e habilidade de encontrar estes elementos. Naturalmente a descoberta se dá com a ajuda do Espírito Santo, mas parece que nem sempre Ele dá esta mão. Isto não significa que não devemos nos esmerar em buscar pontos de contate, mas precisamos ter cuidado em emitir juízos sobre o ministério de dedicados missionários que certamente foram sinceros em seu serviço ma, nunca tiveram qualquer treinamento transcultural para exercer sua vocação.
Concluindo, creio que Don Richardson consegue de forma persuasiva e emocionante transmitir um conceito válido sobre a sabedoria de Deus em preparar tanto as nações para o Evangelho como o Evangelho para os povos. "Eternidade em seus corações” nos lembra a própria criação quando Deus coloca no homem algo de si mesmo, fazendo-o à sua imagem. Todo ser humano é portador deste elemento divino e precisa ser restaurado através do novo nascimento em Cristo Jesus. Precisamos encontrar caminhos para alcançar a todos os povos levando-os um Evangelho relevante e atual que vem de encontro às suas necessidades.

CONCLUSÕES FINAIS
Diante do material estudado e exposto nas três partes que correspondem aos três livros, de Kraft, de Conn e de Richardson, quero finalizar o trabalho com algumas conclusões finais sintetizando algo do que considero essencial dentro da área de Contextualização.
No final da análise de cada livro assim como entrelaçado na discussão a tenho declarado opiniões e avaliações e pretendo aqui somente resumir os pontos cardeais.

1. Visão das Escrituras
Qualquer tentativa de contextualizar a mensagem do Evangelho parte fundamentalmente da visão da Bíblia que a pessoa tem. Temos visto em Kraft uma visão que lhe dá condições de manejar o texto bíblico com muita liberdade apenas conservando uns poucos pontos como supraculturais e universalmente válidos. Tanto Conn como Richardson têm uma visão diferente dando maior ênfase a uma fidelidade ao conteúdo da Palavra de Deus mesmo que o último não declara isto de forma dogmática.
Para mim é essencial afirmar a validade das Escrituras no seu todo como a revelação total de Deus à humanidade sendo, em todos os aspectos, normativo para nossas vidas. Creio que Deus se revela também pela natureza e consciência do homem assim como pode se revelar de formas sobrenaturais em sonhos, profecias, visões, etc. No entanto, é a Bíblia que serve de critério para avaliar as outras formas de revelação. Reconheço, igualmente, que é preciso se fazer uma leitura das Escrituras levando em conta o tipo de linguagem empregado o contexto histórico e cultural e a finalidade daquilo que é registra do. Mas isto é bem diferente de reduzir a Bíblia a um livro de casos que apenas serviria de exemplo da atuação divina em situações especificas. Se não existe um caráter normativo, se os modelos bíblicos de padrão moral e ético e as características da comunidade cristã apenas são elementos culturais cambiáveis conforme o contexto fica difícil achar qualquer identidade cristã. O relativismo não ocorrerá somente entre culturas distintas em povos distintos como também haverá claras contradições dentro da mesma sociedade composta por grupos sociais e subculturas diversas. Num pluralismo vivido por exemple no mundo ocidental tudo pode ser aceito como cristão e consonante aos planos divinos. Sei que mesmo Kraft reserva como dissemos acima, alguns pontos básicos como os Dez Mandamentos e do gênero, mas dando-se esta abertura relativista fica tremendamente difícil colocar os limites da contextualização.
É necessário reafirmarmos a posição única da Palavra de Deus come autoridade máxima no trabalho transcultural buscando transmitir seu conteúdo, como um todo, ás culturas que estão sendo alcançadas.

2.A Valorização das Culturas
Todos os três autores têm grande respeito pelas culturas existentes e até as já mortas. Vez após vez nos é lembrado o fato de que Deus direta ou indiretamente é a origem de todas as culturas dando ao ser humano a tarefa de formar a sua sociedade e consequentemente também sua cultura especifica. Através de culturas Deus tem se comunicado e segundo textos bem um livro de casos que apenas serviria de exemplo da atuação divina em situações especificas. Se não existe um caráter normativo, se os modelos bíblicos de padrão moral e ético e as características da comunidade cristã apenas são elementos culturais cambiáveis conforme o contexto fica difícil achar qualquer identidade cristã. O relativismo não ocorrerá somente entre culturas distintas em povos distintos como também haverá claras contradições dentro da mesma sociedade composta por grupos sociais e subculturas diversas. Num pluralismo vivido por exemple no mundo ocidental tudo pode ser aceito como cristão e consonante aos planos divinos. Sei que mesmo Kraft reserva como dissemos acima, alguns pontos básicos como os Dez Mandamentos e do gênero, mas dando-se esta abertura relativista fica tremendamente difícil colocar os limites da contextualização.
É necessário reafirmarmos a posição única da Palavra de Deus come autoridade máxima no trabalho transcultural buscando transmitir seu conteúdo, como um todo, ás culturas que estão sendo alcançadas.

2. A Valorização das Culturas
Todos os três autores têm grande respeito pelas culturas existentes e até as já mortas. Vez após vez nos é lembrado o fato de que Deus direta ou indiretamente é a origem de todas as culturas dando ao ser humano a tarefa de formar a sua sociedade e consequentemente também sua cultura especifica. Através de culturas Deus tem se comunicado e segundo textos bem.

A Valorização das Culturas
Todos os três autores têm grande respeito pelas culturas existentes e até as já mortas. Vez após vez nos é lembrado o fato de que Deus direta ou indiretamente é a origem de todas as culturas dando ao ser humano a tarefa de formar a sua sociedade e consequentemente também sua cultura especifica. Através de culturas Deus tem se comunicado e segundo textos bem esclarecidos em nosso estudo, Deus tem preservado um testemunho seu em todas elas.
É importante, segundo meu ver, renovadamente declarar a igualdade de valor das culturas como próprias para as pessoas que nelas vivem. Qualquer etnocentrismo ou sentimento de superioridade racial e cultural é estranho ao contexto missionário bíblico.
Por outro lado também é necessário ter uma visão critica das culturas vendo seus aspectos positivos e negativos. Num trabalho transcultural com vistas à implantação de igrejas precisa haver discernimento e sensibilidade tendo condições de reforçar os elementos culturais que harmonizam com os conceitos bíblicos e trabalhar em função de uma eliminação dos que são contrários.

3.A Necessidade da contextualização
Fica mais uma vez clara a necessidade de uma contextualização verdadeira e completa da mensagem acerca de Cristo. É essencial que cada povo sinta que o Evangelho é deles, assim como a igreja que está sendo implantada.
Nesta contextualização busca-se elementos da tradição e da cultura que podem expressar os conceitos cristãos de uma forma compreensível e relevante numa equivalência dinâmica, sem por isso descaracterizar o Evangelho. Acredito como Richardson bem enfatiza que em cada cultura existam pontos de contato, lendas, estórias, fatos da história do povo, tradições, rituais, símbolos, etc., que servem de cabeças de ponte para uma comunicação eficiente e sóbria. Até que ponto sempre é possível achar o "elemento redentor" fica em aberto, mas a procura de termos, atitudes e costumes que lembram algum aspecto do Criador é recomendável.
Embora a contextualização seja a mais completa possível sempre sobrará conceitos bíblicos que trarão confrontos com a cultura reinante. Esta confrontação faz parte do espírito da mensagem e quer levar o ser humano inserido em determinada cultura a refletir sobre sua cosmovisão e sua necessidade espiritual. Em outras palavras, não é possível fazer uma contextualização tal ou uma adaptação tão completa que não haja pontos conflitantes com a cultura humana, seja ela qual for.

4. A Interdependência das Ciências
Conn advoga um diálogo mais aberto e franco entre as ciências envolvidas na questão transcultural. Kraft faz forte uso da antropologia e de outras ciências afins para sua argumentação. Richardson, tanto em seu ministério transcultural, como em suas afirmações conceituais, lança mão da teologia e da antropologia, além da literatura da Antiguidade.
Pessoalmente estou convencido de que precisa haver uma cooperação ampla e generosa entre as ciências que se preocupam com o bem-estar do ser humano e que analisam o seu comportamento. A desconfiança e o exclusivismo devem dar lugar à colaboração e ao entendimento. Naturalmente cada ciência tem o seu ponto de partida. Em cada ciência tem também diferentes linhas de pensamento que norteiam o estudo. Não obstante há condições de um trabalho conjunto e principalmente há espaço, tanto no estudo missiológico como na prática missionária, para um aproveitamento maior das contribuições que outras Ciências podem fornecer.

5. A Soberania de Deus
Quero finalizar o trabalho com a declaração da soberania divina e nossa dependência do Senhor que através do seu Espírito Santo dirige os empreendimentos missionários. O fator surpresa parece sempre estar presente na história de missões. Deus faz muitas vezes o que para nós parece impossível ou pelo menos muito difícil. Ele tem o direito de escolher as formas de revelação e de utilizar os instrumentos que lhe deseja para a divulgação do seu nome. Ao mesmo tempo Ele tem incumbido a Igreja da tarefa de pregar até aos confins da terra. Isto significa uma enorme responsabilidade que necessariamente precisa ser cumprida e assumida com toda a seriedade e esmero.
Qualquer que seja, no entanto, nosso esforço em contextualizar a mensagem e em nos adaptar a uma cultura receptora do Evangelho, o êxito e o sucesso dependem da atuação divina frutificando o trabalho.
Vários textos de Paulo foram citados ao longo dos livros e deste trabalho. Termino com 1 Co 3:6 - "Eu plantei, Apolo regou-, mas Deus deu o crescimento".

BIBLIOGRAFIA
CONN, Harvie.Eternal Word and Chanqinq Worlds, Grand Rapids, Zondervan, 1984.
KRAFT, Charles Christianity in Culture, Orbis Books, Maryknoll, N.Y., 1979.
RICHARDSON, Don -0 Fator Melquisedeque, Edições Vida Nova, São Paulo, 1986.
ROCHA, Everardo P.G. O Que é Etnocentrismo, Editora Brasiliense, São Paulo, 1984.

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