"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sábado, 5 de novembro de 2011

APRENDIZADO DE LÍNGUA NO CAMPO MISSIONÁRIO


“Diziam. Então diga: Chibolete. Se ele dissesse, Sibolete, sem conseguir pronunciar corretamente a palavra, prendiam-no e matavam-no no lugar de passagem do Jordão. Quarenta e dois mil efraimitas foram mortos naquela ocasião” (Juízes 12.6).

Oséias foi enviado para trabalhar como tradutor da Biblia para determinada língua, falada em uma das ilhas do Oceano Índico, na costa leste africana. Seu bom conhecimento de francês, em razão de sua descendência suíça, ajudou-o no princípio, quando as primeiras crises na adaptação surgiram. Mas, com o passar do tempo, sua habilidade com a língua oficial do país foi se tornando um obstáculo para aquilo que era um dos principais alvos do seu trabalho, o aprendizado da língua local e a produção de uma tradução bíblica que beneficiasse as comunidades isoladas no interior do país .

O problema começou a se agravar ao longo dos primeiros meses e anos porque seu comodismo jamais fora confrontado por uma liderança de campo que exigisse uma postura mais adequada ou algum tipo de relatório do seu desempenho lingüístico. Todos o consideravam hábil e o admiravam em sua capacidade de comunicação na língua francesa e até se beneficiavam do fato, transferindo para o jovem a maioria dos compromissos que envolviam a tarefa do ensino. Sete anos depois, sem ter aprendido o suficiente da língua local para ao menos, iniciar uma tentativa de tradução da Biblia para aquele idioma. Oséias arrumava suas malas para retornar ao seu país de origem.

Apesar de toda a sua preparação lingüística para servir como um tradutor da Biblia, ela estava desistindo de seu projeto, pois, além de não conseguir lidar com fortes sentimentos de frustração e fracasso, havia perdido totalmente o foco do seu trabalho. Encarar com seriedade o aprendizado da língua do povo que desejamos alcançar no campo missionário é assunto central em nossa ação transcultural. É verdade que o processo de aquisição lingüística não se trata de tarefa simples, porém, vital e inegociável. Foge ao escopo deste material alistar as razões (muitos outros já o tem feito com bastante propriedade), mas descrever o processo em si, sugerindo caminhos a serem trilhados por aqueles que corajosamente assumem tamanho desafio.

OS PRIMEIROS PASSOS
Ao desembarcarmos em um novo ambiente lingüístico, para que possamos nos comunicar com sucesso, temos que nos esforçar bastante em diversas áreas. Ao iniciarmos o processo de aprendizado de determinado idioma, devemos estar preparados para enfrentar experiências complexas que nos trarão alegrias e tristezas. É imprescindível sermos bem-humorados, perseverantes e dedicados nessa jornada. De outra forma, não iremos progredir. A dificuldade para entender o que se fala. O empenho para pensar na nova língua. As decepções quando não somos compreendidos ou quando a nossa pronúncia provoca gargalhada nos ouvintes. Tudo isso pode nos deixar abatidos, exaustos e, até mesmo, com vontade de desistir da tarefa. Nesse período, a sensação de que estamos sendo alfabetizados é constante.

Lembro-me que em nossa segunda semana vivendo no norte da África. Fomos comprar lâmpadas numa loja perto de casa. Como não tínhamos ainda habilidades suficientes para nos comunicar em árabe (nem mesmo para pronunciar os números), levamos um caderno de anotações para que o vendedor escrevesse o preço das lâmpadas. Ao chegarmos na loja, apontamos para o modelo da lâmpada na prateleira e, em seguida, para o caderno. Com isso, o vendedor entendeu que estávamos interessados em lâmpada e queríamos saber o preço. Prontamente, ele anotou o valor de 15 dirhams (moeda local), o que para nós parecia bastante razoável. Adiantei-me e fiz um sinal com as mãos, indicando que queríamos seis lâmpadas no total.

Para nossa surpresa o vendedor entendeu a mensagem errada e pensou que estávamos banganhando o preço da lâmpada, sugerindo que em vez de 15 dirhams pagássemos apenas 6 e veementemente demonstrou que não venderia por menos. Tudo bem! Balançamos a cabeça tentando demonstrar que estávamos satisfeitos com o preço apresentado e tentamos explicar que o número 6 representava apenas o número de lâmpadas que queríamos no total. Mais uma vez ele não entendeu a nossa linguagem não verbal e foi aí que o cenário ao nosso redor começou a ficar engraçado. Em poucos minutos, tínhamos um grupo de pessoas na porta da loja, algumas tentando ajudar, outras apenas dando risadas. Somente depois de muito esforço e com a intervenção de um segundo vendedor é que conseguimos comprar as seis lâmpadas.

Na verdade, durante as primeiras semanas e meses do processo do aprendizado de uma nova língua no campo, voltamos a nos sentir e a nos comunicar como crianças. O professor William Smalley descreve, com mais detalhes, essa fase de inabilidade na comunicação: “Quando um recém-chegado desembarca em um novo mundo, no qual não sabe nada da língua, ele assume novamente a posição de criança.

Mesmo depois de semanas de estudos, não é capaz de discorrer sobre outro tema, senão o valor do peso das batatas. Ele é incapaz de mostrar sua educação e inteligência, símbolos que deram a ele status e segurança em sua terra de origem. Ele encontra pessoas educadas e inteligentes, mas responde a elas como uma criança ou um tolo porque não é capaz de oferecer uma resposta melhor.”

ENCARANDO O PROCESSO

A perseverança no estudo da língua nos primeiros meses é de fundamental importância paa a nossa sobrevivência e permanência numa cultura diferente. De fato, precisamos nos dedicar seriamente, pois somente falaremos determinada língua se investirmos tempo no seu aprendizado. Do contrário tornar-nos-emos facilmente vulneráveis, restringiremos os nossos relacionamentos e nos sentiremos limitados para tornar viável a nossa tarefa.

Uma verdade encorajadora que cada missionário de ter em mente é a seguinte: quanto mais rápido ele aprender a língua local, mais rápido também irá superar o choque linguistiico e cultural. Sem nunhema dúvida, a parte mais difícil a ser enfrentada numa terra estrangeira é a habilidade para se comunicar. Isso é imperativo portanto, esse impedimento deve ser removido o mais rápido possível. A vida terá outra dinâmica quando se é capaz de conversas com amigos e vizinhos. Quando o novo missionário adquirir fluência suficiente que lhe permita começar a ensinar e pregar, estará desempenhando bem sua tarefa para superar o choque cultural.

Para alcançarmos esse objetivo é de fundamental importância lançar mão de algum método de aprendizado de língua que promova e coordene o nosso desempenho. Hoje em dia, há vários métodos à disposição. Saiba-se ainda que todo o esforço empregado para desenvolver habilidade na comunicação na língua dos nacionais é mais do que viabilizar a nossa tarefa de pregação ou superar o choque lingüístico, antes, é se identificar demonstrando respeito e apreciação pela cultura e, conseqüentemente, pelo povo que se deseja alcançar.

Nesse processo, aprendemos na prática, às vezes com sorrisos outras vezes com lágrimas, o quão importante é separar tempo para aprender a língua, a cultura e a cosmovisão do povo em contato. Se meses ou anos depois somos capazes de utilizar os nossos cinco sentidos para nos comunicar, compreender o povo e pôr de lado alguns pré-julgamentos é porque a dedicação no aprendizado no novo contexto não foi em vão...

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