"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sábado, 22 de outubro de 2011

IMPLICAÇÕES EMOCIONAIS NA CARREIRA MISSIONÁRIA

“Nós, porém, irmãos privados da companhia de vocês por breve tempo: em pessoa, mas não no coração, esforçamo-nos ainda mais para vê-los pessoalmente, pela saudade que temos de vocês” (1 Tessalonicenses 2.17)

Considerando somente os desafios que já foram abordados até aqui, já teríamos motivos suficientes para supor que o trabalho missionário é campo fértil para lidarmos com grande sorte de dificuldades emocionais e acumularmos alto nível de estresse.

Embora o missionário procure viver na dependência de Deus, suas emoções e a dinâmica da vida no campo, com constantes transformações, mudanças e adaptações podem, ao longo do tempo, sobrecarregá-lo emocionalmente.

Sem sombra de dúvidas, o missionário antes de seguir para o campo de trabalho precisa saber que, tal como sua fé, suas emoções serão, também e com freqüência, postas à prova. De fato, surgirão momentos de crises em que suas convicções há de ser intensamente testadas, produzindo sentimentos de profunda incapacidade, questionamentos quanto à sua identidade e, até mesmo, dúvidas quanto ao seu chamado. Surgirão, ainda, ocasiões em que o obreiro se sentirá indigno por não estar correspondendo a todo investimento feito por parte daqueles que mantêm seu ministério e insignificante ao se comparar com outros missionários (talvez, aqueles “heróis” que o inspiraram no processo de caminhada para o campo).

Ao se deparar com estas situações, em que suas emoções se encontram abaladas, será difícil o obreiro reconhecer que as crises possuem seu valor de importância. Não obstante, elas desempenham papel fundamental em nosso processo de amadurecimento cristão. Em virtude de sua complexidade, o campo missionário se torna lugar propício para encarnamos a nossa identificação com a morte de Jesus, a fim de que Cristo viva em nós e por meio de nós: “Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. (Gálatas 2.20). Definitivamente, as crises nos auxiliam neste processo ao apontarem para a nossa humanidade e insuficiência (João 15.3). Outro benefício é que as crises nos levam a repensar as convicções que sustentam a nossa vocação, sugerindo-nos olhar para o que Deus já fez e nos oferecendo a chance de ouvir novamente a sua doce voz, reafirmando no presente o que já foi dito no passado.

É bom que se diga que as crises não são de exclusividade de3 uma minoria ou propriedade privada dos inexperientes. Apesar de tais crises não serem comumente trazidas ao conhecimento público, elas fazem parte da carreira de todo missionário e costumam se manifestar com freqüência num ambiente transcultural.

Saber que elas fazem parte da jornada missionária nos dá uma visão correta de nossa carreira. Ainda, traz-nos certo conforto nesses momentos de conflito interior em que pensamos que somos os únicos debaixo de tão grande nuvem de provação. A missionária no Senegal, Ronalda Lombardo Garcez, da APMT, compartilha conosco acerca desses momentos:

Existem momentos de lutas, dificuldades e pressões em que nos sentimos desanimados e tristes. Às vezes sentimos tanta falta de uma palavra de encorajamento de consolo... “Então pensamos em nossas igrejas, parentes e amigos e, por estar longe já há bastante tempo muitos deles têm se esquecido de nós”.

O grande problema é quando os conflitos emocionais não nos conduzem a experiências de amadurecimento e resultam apenas em sobrecarga emocional. Aí é preciso ter cuidado redobrado. Ao percebermos que um ciclo de acúmulo de tensão está se formando, precisamos interrompê-lo. Do contrário o resultado pode comprometer tanto a nossa saúde emocional quanto a física, a ponto de nos incapacitar totalmente no desenvolvimento do trabalho. O ex-missionário, Myron Loss chama atenção para a estreita relação entre a sobrecarga emocional e o surgimento de doenças físicas.

Ao longo dos últimos vinte anos, muitos estudiosos têm comprovado a influência que o estresse exerce em problemas como dores de cabeça, artrites, dores de coluna, pressão alta e vulnerabilidade para acidentes. O estresse também pode criar frigidez, impotência e outras irregularidades sexuais, como perda da menstruação, por exemplo. Muitos médicos acreditam que as alergias são deterioradas, senão causadas pelo estresse. “Mais e mais pesquisas estão chamando a atenção também para a influência que o estresse pode ter no surgimento de câncer”.

As crises que dão origem à condição de estresse ou a sobrecarga emocional podem ocorrer quando enfrentamos diversos fatores, como, por exemplo, saudade, preocupação, desconforto, opressão, instabilidades, falta de dinheiro, solidão, ameaças, conflitos, fraquezas, enfermidades, frustrações, perdas etc. Tudo isso pode nos levar a aborrecimentos com o povo, com os colegas de equipe, com a organização missionária e, inclusive, com a igreja em nosso país.

SITUAÇÕES QUE CAUSAM SOBRECARGA EMOCIONAL NA CARREIRA MISSIONÁRIA

CHEGADA AO CAMPO
Além das implicações culturais e lingüísticas a chegada de um missionário no campo é sempre cercada de enormes demandas logísticas e o resultado é um clima de tensão. Os primeiros meses após o desembarque representam um período em que todo obreiro precisa ter em mãos uma boa reserva financeira. Quando isso não é uma realidade, somente uma genuína confiança na provisão sobrenatural de Deus será capaz de evitar um quadro de preocupações. No mínimo, o obreiro precisará de recursos para quitar despesas imediatas com o aluguel de uma casa e com a compra de mobília básica. Há ainda outras ocasiões em que haverá a necessidade de assumir despesas com hospedagem numa moradia temporária, com a aplicação de visto (quando o processo de aplicação de visto ocorre no país onde se deseja estabelecer residência), com a tradução de documentos, com a matricula dos filhos em uma escola, com o aprendizado da nova língua –seja o aprendizado formal, numa escola, ou informal, com o auxilio de um nacional – é com a compra de acessórios que possibilitam a adaptação imediata ao novo ambiente (casaco, toca, luva, turbante, véu, etc.). Sem falar na compra de um carro, moto, barco ou camelo, dependendo em que região da terra o missionário esteja. Em alguns contextos, o transporte particular está longe de representar um objeto de luxo, antes, é a única forma de acesso ao povo que se deseja alcançar. O conjunto de todas essas demandas pode produzir um estado de cansaço físico e emocional.

SUSTENTO INADEQUADO
Outras situações como sustento inadequado também estão entre os fatores que podem abalar bastante o obreiro emocionalmente. Lidar com problemas financeiros estando fora do país e distante da família, da comunidade crises de origem e dos amigos exigirá de qualquer individuo uma boa dose de maturidade. Essa situação pode se tornar ainda mais desafiadora quando o missionário, além de depender de recursos para sustentar a família, é responsável por outras despesas no desenvolvimento do ministério. Lamentavelmente, o sustento inadequado dos missionários brasileiros tem produzido situações extremamente desconfortáveis nos campos e sugerido, em contraste com o que afirmam as Escrituras, que o obreiro não é digno do seu salário (1 Timóteo 3.18). Observando nossa caminhada como movimento missionário brasileiro, somos desafiados a reconhecer que ao longo dos anos o problema da falta de sustento tem tornado o campo missionário numa arena de fé e,m em alguns casos num terreno de sobrevivência para o missionário brasileiro.

ALUGUEL DE CASA
O processo de aluguel de uma casa pode roubar muitas energias de um missionário. Em países como a Tailândia, não é comum encontrar imobiliárias e é preciso visitar a comunidade em cada bairro para descobrir a disponibilidade de casas para alugar. Já em países como a Indonésia, o inquilino é obrigado a providenciar o pagamento adiantado do aluguel que pode variar de três meses a um ano, antes de se entrar para morar na casa. Na África do Sul, é exigido o pagamento de um depósito equivalente a dois ou três meses do valor do aluguel como garantia por danos ao imóvel. O que supostamente deve ser devolvido ao inquilino no fim do contrato. A experiência de alugar uma casa pode se tornar ainda mais penosa em se tratando de um missionário que acaba de desembarcar no campo. Além do desgaste natural dessa empreitada, depois de algumas semanas vivendo provisoriamente, acrescenta-se o esgotamento com o processo de mudança e com a falta de privacidade, sobretudo se o missionário possui esposa e filhos.

SAUDADE
Nos primeiros meses e anos, a saudade da família e dos amigos afeta consideravelmente as emoções do recém chegado, em especial se ele faz parte de uma sociedade que estima viver em comunidade e que considera os relacionamentos em alto nível. Nessa fase, aliado à saudade, o receio de ser esquecido ou abandonado pela igreja enfiadura também pode abater um obreiro e representar um desafio maior do que as lutas enfrentadas no campo.

AUSÊNCIA DE RESULTADOS
A ausência de resultados satisfatórios no ministério também pode causar considerável estresse. Quando não é perceptível o avanço no aprendizado da língua ou quando o povo alvo resiste ao evangelho, mesmo depois de já ter ouvido a pregação por longos meses, é comum que surja o sentimento de abatimento. Invariavelmente, as expectativas não correspondidas se transformam em objeto de frustração.

DOENÇAS
As doenças, além de debilitarem o corpo, sempre acabam por produzir um conjunto de preocupações que, por sua vez, geram tensão emocional. Avalie o volume de estresse de determinado missionário que acaba de desembarcar com a esposa na Índia. Trata-se de seu primeiro campo missionário e, antes mesmo de adquirir conhecimento suficiente da língua para se comunicar, descobre que precisa se submeter a uma cirurgia com urgência. (Esse quadro revela a experiência do missionário Carlos Roberto Pinheiro, da AME), compartilhada com seus mantenedores e intercessores em uma de suas cartas de oração. Pedimos que orem por tudo o que estamos vivendo aqui. “É muito difícil passar por isso num país estrangeiro e diante de uma língua que não compreendemos, mas sei que posso louvar o Senhor porque estamos vendo o seu amor em ação”.

PERDAS DE COLEGAS NO CAMPO
No campo missionário os relacionamentos tendem a acontecer numa maior aproximação e a perda de companheiros de trabalho, neste contexto, pode representar uma das experiências mais traumáticas na carreira missionária. Comentando sobre o falecimento de um colega de ministério chamado Brian Casey Kathy Noland, da MIAF, compartilha a que ponto suas emoções foram afetadas “Mesmo sabendo que Deus está no controle de todas as situações, emocionalmente me sinto como numa máquina de picar papel”.

PERDAS FAMILIARES
Se as perdas familiares nos abalam quando ocorrem no convívio da família, imagine a condição emocional de alguém que passa por esse tipo de experiência estando distante, às vezes, em outro país ou continente. Além do abalo causado pela notícia, pela dor imensa da perda e pela saudade de alguém que não será mais visto na terra, o sentimento de incapacidade diante dos fatos é presente. Perder um ente querido estando longe de casa será sempre uma experiência cercada de muita tensão e suas conseqüências podem se estender por mais tempo do que o normal.

RETORNO DO CAMPO
O retorno do campo e a readaptação ao ambiente cultural de origem fazem parte de um processo que pode representar a fase mais difícil na carreira missionária. As dificuldades para se reajustar a vida e se adaptar ao novo contexto têm sido classificadas como choque cultural reverso. Todo processo de adaptação já é um desafio em si e a situação pode ser agravada quando o missionário e seus filhos retornam do campo estando desinformados, desatualizados e se sentindo totalmente fora da realidade em seu contexto de origem.

DESCANSO PARA AS EMOÇÕES
O que fazer diante de um cenário emocional desafiador? Para onde ir? Onde encontrar abrigo? Voltar-nos para as Escrituras é refúgio garantido em situações de crise! Além de encontrarmos palavras de vida (conforto seguro para a alma), é lá, nas Escrituras, que nos identificamos com gente como nós. Isso mesmo! Embora sejam homens e mulheres gigantes na fé, eles expõem suas fragilidades sem qualquer timidez e se demonstram pequenos do nosso tamanho. O apóstolo Paulo, por exemplo, comenta acerca de um momento de tribulação sofrido no campo que o fez se sentir em grande desespero e, até mesmo sem esperança de viver. Paulo? Sim, o apóstolo, o missionário, o irmão Paulo. Esse comportamento tem alguma relação com sua experiência? Consegue enxergar? Que bom! Você não está sozinho! “Irmãos, não queremos que vocês desconheçam as tribulações que sofremos na província da Asia, as quais foram muito além da nossa capacidade de suportar, a ponto de perdermos a esperança da própria vida” (2 Coríntios 1.8). Há, ainda, outras atitudes que devemos assumir, a fim de lidarmos com as constantes crises e evitarmos conseqüências danosas à nossa saúde. Entre elas, devemos observar os fatores que alteram as nossas emoções e aprender a lidar com eles ou se possível, evitá-los. Dian te de decisões práticas que devem ser tomadas é importante que se evite precipitações, que se desenvolva paciência e que se procure fazer escolhas que no futuro não serão objetos de remorso. Em se tratando do aluguel de uma residência, por exemplo, é recomendável que na chegada ao campo o primeiro contrato ou compromisso de aluguel seja assumido por um período curto de tempo. Sugiro que no máximo por oito meses. Permanecer por um período curto na primeira residência, além de nos ajudar a avaliar melhor a condição física do imóvel será importante para estudarmos se a localidade é estratégica para o desenvolvimento do ministério e se o preço apresentado pelo proprietário ou pela agência reflete a realidade do mercado imobiliário local. É importante considerar que as decisões tomadas no inicio da jornada refletirão ao longo de todo o ministério, sejam elas positivas ou negativas. Portanto, assumir compromissos curtos (mesmo que seja para lecionar em uma escola bíblica) e renová-los de tempo em tempo parece ser a atitude mais prudente. Uma vez que quando nos comprometemos em longo prazo, podemos ficar presos a determinada situação, por conta de uma decisão precipitada. Será sempre mais fácil dizer: “Meu compromisso está encerrado!”, do que: “Pensando bem, cheguei à conclusão de que não será possível cumprir com o que havia prometido”. Ser realista diante de nossas limitações, procurar desenvolver atividades de pastoreio mútuo com os colegas no campo e receber acompanhamento de um profissional de saúde (se essa possibilidade é real) é também atitudes recomendáveis. O contraponto é que boa parcela dos missionários deixam para cuidar da saúde e pensar mais em si do que no trabalho somente quando retorna ao seu país por um período de férias. Contudo, esse tipo de postura precisa ser revista, caso o nosso alvo seja permanecer na carreira missionária por longa jornada.

VALIOSA INTERVENÇÃO
Terminantemente, a assistência do Corpo de Cristo exercerá importante influência nas situações de estresse e desencorajamento. Uma interferência de nossa igreja e das igrejas parceiras será sempre bem-vinda e poderá fazer toda a diferença num cenário de lutas. Há estágios de sobrecarga emocional que somente são superados com o auxílio de ajuda externa. O recebimento de um telefonema ou carta pode ser precioso instrumento nas mãos de Deus para encher de alegria e renovar a esperança ou coração do missionário e sua família. Lembro-me do cuidado pastoral que recebemos do nosso querido pastor e da igreja na ocasião do falecimento do meu irmão mais velho, em agosto de 2005, quando residíamos na África do Sul. Enquanto minha esposa e eu orávamos pedindo a direção de Deus, para saber se deveríamos ou não retornar ao Brasil por um período, a fim de darmos assistência à família enlutada, a mensagem de encorajamento e atenção que recebemos do nosso pastor foi “Seus familiares também são nossa responsabilidade. Sigam em frente. Façam a obra de Deus sem qualquer preocupação, porque nós cuidaremos deles”. Não retornamos. Seguimos em frente, porque o nosso pastor e a igreja ofereceram a nós e aos nossos familiares a cobertura espiritual, emocional e financeira que tanto precisávamos naquele momento. Sem dúvidas, uma verdadeira demonstração de amor e parceria missionária. Imagine, agora, a seguinte cena: o missionário e sua família estão descansando na esteira após um dia de trabalho extremamente estressante. O telefone toca. Pela demora em completar a chamada, percebe-se que se trata de uma ligação internacional. Quem será? Um clima de expectativa se instala. Finalmente a ligação é completada. É o pastor do missionário, que, depois de um período de oração, entende que, além dos contatos periódicos, a família missionária estava precisando ser ouvida. “E aí, meus irmãos, como vão as coisas?”. A conversa pastoral se estende por alguns minutos e, depois de exercitar a arte de ouvir, o compromisso de oração pelo missionário e por sua família é renovado. O telefone volta ao gancho e a família a esteira. Agora, a alegria é grande no coração de todos e a noite se tornou uma perfeita ocasião para desfrutarem de um sono reparador.

Autoria: Missionário Jairo de Oliveira. Extraído do livro Vida, ministério e desafios no campo missionário, uma abordagem contemporânea sobre missões. Da editora Abba. 2011.

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