"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

quinta-feira, 20 de outubro de 2011


O DISCIPULADO E A IGREJA
Responda rápido, qual é a tarefa da Igreja? Se você respondeu “pregar o evangelho”, talvez seja necessário olhar mais atentamente sua Bíblia. Na verdade esta é apenas uma parte da responta.
Mas não fique embaraçado. A maioria dos outros leitores provavelmente respondeu da mesma maneira. Quando Jesus estava prestes a subir de volta aos céus, deixou aos seus discípulos uma ordem clara e completa sobre o que eles deviam fazer até que Ele voltasse. Mateus 28.16-20 e Mateus 16.15 registram.

“Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei com vocês, até o fim dos tempos”.

“E disse-lhes: Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas”.

De fato, pregar o evangelho é apenas o começo da história. Mesmo sendo um aspecto fundamental, do qual dependem todos os outros, ainda assim é só uma parte. Observe os verbos destes textos, colocados numa seqüência lógica e o que eles nos ensinam sobre nossa missão.

1. VÃO PELO MUNDO TODO – Nunca foi parte do plano de Deus que os cristãos ficassem encastelados em belos prédios, esperando que todos fossem a eles. A idéia é clara a iniciativa do evangelismo tem de ser da Igreja de Cristo. Nós iremos até onde as pessoas estão.

2. PREGUEM O EVANGELHO – A mensagem a ser anunciada não é uma filosofia, uma teoria religiosa, uma reforma moral, uma terapia, autoajuda ou qualquer outra coisa. É o evangelho de Deus (Rm 1.1). Na sua integridade sem tirar nem pôr nada. Sem rodeios, sem enfeites, sem adaptações de conteúdo. Na mensagem não se mexe. Não temos autorização para isso. Podemos e devemos rever os métodos de pregá-la, mas não podemos alterar os elementos do evangelho.

3. BATIZEM OS QUE CREREM – Como um sinal de identificação e de proclamação pública de sua fé, aqueles que crêem na mensagem do evangelho precisam ser batizados. Não fazem isso para serem salvos, mas para testemunhar ao mundo que já foram salvos. O batismo não salva, mas também não é opcional para o salvo. É uma ordenança a ser cumprida.

4. FAÇAM DISCIPULOS – Discípulos não nascem. Eles são formados pela Igreja. Faz parte da nossa tarefa, segundo a ordem de Jesus, fazer discípulos. Não podemos fazer salvos, nem convertidos. Este papel cabe ao Espírito Santo. Mas depois de nascidos de novo na família de Deus, a caminhada dessas pessoas rumo à maturidade cristã passa a ser responsabilidade da Igreja.

5. ENSINEM-NOS A OBEDECER – Nascer de novo não capacita uma pessoa, a saber, tudo. Aprender é um processo, inclusive na vida cristã. A única forma de uma pessoa ser igual a Cristo é conhecendo os seus ensinos e aplicando-os em seu viver diário. Se uma igreja não fornece alimento adequado às diversas etapas do desenvolvimento de um cristão, ela est5á contribuindo decisivamente para seu fracasso na fé.

MAIS QUE EVANGELISMO
Cumprir a Grande Comissão, portanto, não é somente “falar de Jesus”. É mais do que isso. Este é o primeiro passo. É a parte da missão direcionada a quem ainda não conhece a Cristo como Salvador e Senhor.
É verdade que há muitas igrejas que nem isso faz, o que é ainda pior, porque a ordem veio de quem tem “toda a autoridade no céu e na terra”.
Anunciar o evangelho é uma questão de obediência. Não é para ser feito apenas por igrejas que têm dinheiro e uma forte estrutura, mas por todas. No entanto, não fez toda a lição de casa quem parou no evangelismo. Porque depois que isso acontece e alguém se converte, dando o primeiro passo em sua nova vida, devem vir o batismo, o discipulado e o ensino da Palavra.
Tudo isso faz parte da comissão dada aos apóstolos e a nós. É que Deus não nos salvou apenas para nos livrar da perdição eterna. Este é o resultado, mas Deus tem em mente muito mais do que isso: Ele quer ser glorificado na vida daqueles que aceitam seu plano de salvação, na medida em que estes vão se tornando mais parecidos com seu Filho Jesus.

No conhecido texto de Romanos lemos: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. Pois, aqueles que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8. 28-29).

A salvação judicial, o perdão dos pecados e o livramento da condenação eterna estão garantidos desde o momento da conversão do pecador a Cristo (Romanos 8.1). Mas a salvação como processo de transformação continua. Esta boa obra começa no dia em que nos convertemos e prossegue durante todo o tempo que nos for concedido viver neste mundo. Entre os instrumentos usados por Deus para trabalhar em nós está a comunhão com outros irmãos e o discipulado. É por isso que afirmamos que o evangelismo é só o primeiro passo. Vem muito mais depois disso.

PORQUE PERDEMOS TANTA GENTE?
Muitos pastores e líderes se perguntam por que tantas pessoas se convertem e não ficam em nossa comunidade? O que acontece com elas? Onde elas vão parar? Quem será responsável por essa situação? ... as respostas apesar de assustadoras, revelam um dado interessante geralmente as igrejas têm alguma medida de preocupação com o evangelismo. O problema vem a seguir! Elas não sabem muito bem o que fazer com os novos convertidos.
Certamente há mais de uma causa para a evasão de pessoas nas igrejas, a começar da qualidade do evangelho que nelas se prega. Hoje muita gente fala em “vir para a igreja”, não em “vir a Cristo”, uma vez que é isso que escutam quando são “evangelizadas”. Boa parte da membresia “evangélica” na igreja brasileira ainda precisa de salvação.
Uma análise atenta vai demonstrar que, mesmo entre os verdadeiros convertidos, o principal fator que dificulta a permanência nas igrejas tem a ver com a ausência de um programa sistematizado de integração e discipulado investir nos dois primeiros anos da vida cristã é tão fundamental como oferecer cuidados básicos a um bebê recém nascido.

AFINAL, O QUE É DISCIPULADO?
Cometemos alguns erros em relação aos novos na fé. Por exemplo, há igrejas que colocam na mesma sala de estudos um neófito juntamente com alguém com váriias décadas de vida cristã. De que maneira as necessidades deles podem ser iguais?

O resultado acaba sendo ruim tanto para quem acabou de chegar quanto para quem já estava lá precisando de alimento sólido. Depois, imaginamos que tudo o que o novo convertido precisa é de uma boa Bíblia e de freqüentar todos os cultos e atividades da igreja.
Mas discipulado é mais do que estar em uma classe de estudo bíblica, em um grupo familiar ou uma célula. Todas estas coisas têm seu inegável valor e devem ser feitas, mas não são suficientes em si mesmas para fazer um discípulo.
O discipulado cristão vai muito, além disso. É um acompanhamento da vida do novo convertido até que ele consiga andar por si mesmo, em maturidade cristã. Sempre que possível, o discipulado deve ser individual. Uma coisa personalizada, feita sob medida para as necessidades de cada um. Acontece que discipulado individual não “dá ibope”. Não gera mídia. Não é um trabalho visível. Além disso, acompanhar o crescimento de um recém convertidos dá trabalho, demanda tempo, exige renúncia e paciência. E não é garantia de sucesso, uma vez que estamos lidando com pessoas e todas as suas complexidades.
Mas não há outro caminho. Ou fazemos discípulos ou nossas comunidades se tornarão uma confraria de religiosos, cheios de pessoas sempre imaturas, ainda que envolvidas nas atividades da igreja.

O QUE PODEMOS FAZER HOJE PARA REVERTER O QUADRO?
Em um contexto de seara urbana, com todas as pressões de tempo, compromissos, estresse e demandas de todos os tipos, falar em separar momentos para acompanhar uma única pessoa parece utópico e sem praticidade.
Como conseguir conciliar vida pessoal, atividades eclesiástica, trabalho e... discipulado pessoal? Antes de tudo, lembre-se de que estamos cumprindo uma ordem.
Discipular deve ser prioridade da igreja, razão pela qual convido você a analisar seriamente sua agenda. Existem coisas que realmente deveriam estar ali? De que maneira suas atividades hoje se relacionam direta ou indiretamente com o cumprimento da Grande Comissão?
Em seguida, reconheço sua limitação. Nunca fez parte do plano de Deus que meia dúzia de “iluminados”, chamados de “clero”, fossem pagos para fazer tudo sozinhos. Isso simplesmente não funciona e não é bíblico. O papel de um pastor ou líder cristão é preparar outros para fazer o mesmo.

Esta foi a recomendação do apóstolo Paulo a Timóteo: “E as palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar outros” (2 Timóteo 2.2).

A primeira coisa a fazer para que sua igreja faça discípulos é preparar uma equipe – um grupo de trabalho ou ministério – formada por gente fiel e treinada para dividir esta responsabilidade com a liderança pastoral. Ai está um segredo confortador, um único pastor ou presbítero (ou mesmo um grupo deles) não consegue discipular sozinho toda uma congregação. Mas quando equipa outros para servirem com ele, os resultados são exponenciais.
Além do que todos os membros do Corpo encontrarão sentido para sua vida ao exercitarem seus dons para a edificação da Igreja (Ef. 4.11—16).
Promova treinamentos para a capacitação de discipuladores. Delegue responsabilidades, não se esquecendo de que esses colaboradores precisarão de suporte, direção e acompanhamento de sua liderança.
Acompanhar seus lideres de ministério é bom mais viável do que tentar discipular sozinho a igreja inteira. Está achando muito difícil? Chegou à conclusão de que vai levar muito tempo até que isso comece a funcionar? Acertou! É isso mesmo. Acontece que quando começar a rodar, você vai ficar se perguntando “por que não fiz isso antes?). E se, por outro lado, você não começar a trabalhar nessa direção, as coisas nunca serão diferentes nesta área.

Albert Einstein disse: “Não existe sinal mais concreto de insanidade do que fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”.
Então, talvez tenha chegado sua hora de refletir e dar o primeiro passo. Os resultados serão uma igreja amadurecida, com bases bíblicas sólidas, vivendo um ambiente sadio e harmonioso.

MARCOS SENGHI SOARES – É autor deste texto e é membro da PIB de Piracicaba – SP e este texto foi publicado na Revista Povos nº 16 – Ano 4 – de 2011.

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