"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sexta-feira, 26 de março de 2010

A Igreja frente aos Desafios Missionários


O reverendo Marco Antonio de Oliveira é pastor -titular da Catedral Metodista do Rio de Janeiro, conferencista, terapeuta de família, psicanalista clínico, especialista e doutorando em Teologia. Contatos: http://www.catedralmetodista.org.br/

O chamado Deus para a vida de Abraão, nosso grande patriarca, incluía acima de tudo, uma incumbência de ser abençoador. Deus o escolheu por ser, nesta terra, um grande sinal da presença divina, alguém rico em boas obras, e interessado no bem-estar daqueles que sofriam alguém que fosse um grande farol em meio às trevas, com capacidade de iluminar a existência de muitos. Deus pretendia, através da vida de Abraão, manifestar seu amor, e maravilhosa presença confortadora. Por isso, Ele disse para Abraão: ‘Sê tu uma bênção’ (Gn:12. 2b). Diante desse sugestivo episódio narrado no texto bíblico, fico pensando nas inúmeras oportunidades perdidas por dezenas de igrejas locais, que ainda não conseguiram perceber que anunciar o evangelho de Cristo é, acima de tudo, serem luz e sal da terra, priorizando sempre o ser humano. Lamentavelmente, enquanto ficamos discutindo questões menores, que não são essenciais à fé, disputando espaço nas estruturas eclesiásticas, votos nos assembléias locais, honra pessoal e prestígio, postos de destaques na vida local da igreja, ou maneiras de se beneficiar com a participação na comunidade, dezenas de pessoas, de famílias passam necessidade perto de nós.
Quantos líderes estão mais interessados em seus títulos eclesiásticos, em seu enriquecimento pessoal, do que com o pastoreio verdadeiro, que se traduz em visitar os órfãos, as viúvas, em estar ao lado do rebanho nas vigílias da noite para protegê-los dos lobos? Pastorear está intimamente ligado à simplicidade, e em nada à arrogância, ganância, prestígio e enriquecimento pessoal.
Nessa onda de pregação de prosperidade, de riqueza desenfreada, parece que parte da igreja brasileira está se esquecendo de que se não se fizer uma ampla reforma, que implica em mudanças radicais nas estruturas econômicas e sociais do país, poucos serão beneficiados, e a pobreza continuará assolando a maior parte das famílias brasileiras, inclusive algumas famílias de dizimistas fiéis, ainda que alguns ‘marcianos evangélicos’ neguem isso. É os marcianos estão entre nós!Usar o discurso de prosperidade sem se fazer algo de concreto para mudar a situação de pobreza de nossos missionários, de irmãos e membros de nossas igrejas locais, é se comportar com hipocrisia e fingimento. É negar o evangelho de Cristo e suas opções ministeriais. A impressão que tenho, é que algumas denominações evangélicas estão mais interessadas em edificar seu reino próprio (grandes propriedades, programas de televisão caríssimos, lindos carros, mega construções ultramodernas), do que o Reino de Deus. Parece que os programas de algumas igrejas mais se assemelham com os canais de vendas (Shop time, Shop tour, Megatv, Polishop), que estão mais interessados na venda de certos ‘produtos da fé’ (livros, viagens santas, cruzeiros de avivamento, etc), na venda de ‘novas indulgências’ baratinhas que todos podem comprar por um pequeno ‘sacrifício’ (leia-se: preço especial), na promoção de seus líderes, e no sustento caro de suas grandes propriedades, tudo financiado pela ofertas, que deveriam ser usadas para promoção humana, expansão missionária e outras ênfases do Evangelho, enfim, com o anúncio do nome maravilhoso de Jesus. Será que foi este o comportamento que Deus sonhou que sua Igreja tivesse?
E o sustento dos missionários, das igrejas em áreas pobres, ou financiamentos das instituições sociais e seus programas de atendimentos aos necessitados? A resposta de alguns mais se parece com a de alguns grandes capitalistas: isso é muito caro - nos trará pouco retorno - não é rentável - não temos verbas disponíveis.
Nesta semana, enquanto escrevia para esta coluna, meu telefone tocou. Era a esposa de um missionário. Em suas palavras, notei uma preocupação, algo de errado parecia estar acontecendo. De repente, o choro substituiu sua voz, e ainda que acanhada, começou a compartilhar suas necessidades. Em sua casa, já não havia o que comer, pois as promessas quanto ao sustento missionário não haviam sido cumpridas. Porém, seus filhos precisavam ser alimentados, vestidos e a igreja pastoreada, e quem os ajudariam era sua pergunta silenciosa por trás das lágrimas. Seu esposo, ainda que tentasse ser forte, corajoso e encorajador de outros, já não estava mais agüentando a situação. Nas densas noites intermináveis, o choro desse missionário, sua oração e apelos rasgavam a frieza da escuridão na esperança de que alguém entendesse que, antes de tudo, é chamado para ser um abençoador. A oração desta esposa aflita é para que a igreja não feche os ouvidos e o coração e passe a ajudá-los.
Diante dos apelos e choros que ouvimos, temos duas alternativas: fingir que nada escutamos ou nos mobilizar, juntar amigos, irmãos e fazer algo para atender os que pedem socorro e justiça. Qual atitude você vai tomar?
Estou certo de que o pouco que temos, ou que podemos fazer pode torná-lo um grande instrumento abençoador de Deus na vida de outras pessoas.
O que você vai fazer?
Deus ainda está nos dizendo: Sê tu uma benção!

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