"“Muitos crentes consagrados jamais atingiram os campos missionários com seus próprios pés mas poderão alcança-los com seus joelhos” (Adoniran Judson)”"

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


A HISTÓRIA DE MISSÕES E A ORAÇÃO


A prática da oração permeava e dirigia todas as atividades da igreja antiga – “perseveravam nas orações” (At 2.42). Atos dos Apóstolos, livro também às vezes chamado de Atos do Espírito Santo que agia livremente em todas as atividades da igreja e no campo missionário. Não era essa um fruto da forte ênfase que a igreja dava à prática da oração?

A história comprova que, quando há oração, há liberdade para o Espírito agir. E a ação precípua do Espírito é convencer o ser humano dos seus pecados e leva-lo a reconhecer Jesus como Senhor. O que estamos querendo enfocar é a real correlação existente no trinômio: oração – avivamento – obra missionária. Ou seja, quando a igreja ora, o Espírito movimenta-se e o resultado é a obra missionária.

A Idade Média é chamada a idade das trevas, também em termos espirituais porque os cristãos institucionalizaram a igreja e tornaram a oração meras repetições das orações dos denominados santos, sem consciência do que se dizia, sem vida, sem expressão do sentimento pessoal, sem uma comunicação real com o ser divino. Durante aquela época, a igreja corrompeu-se e perdeu a sua função de ser “casa de oração para todos os povos”. Isso não quer dizer que não houve grandes homens e mulheres que neste período se consagraram à oração. Refiro-me à igreja da época, não a experiências pessoais. Pois sabemos que o nosso Deus sempre tem, como em Israel, os sete mil que não se dobraram a Baal. E, certamente em respostas às orações de homens como Wycliff, John Huss e Jerônimo Savonarola, Deus levantou um monge com coragem de expor a própria vida para provocar profundas transformações e restabelecer os princípios divinos para a igreja de Cristo.

Martinho Lutero era um homem de oração. Quando estudava no convento, declarou: “Orar bem é a melhor parte dos estudos.” O grande reformador estava consciente de que a luta que travava contra o sistema eclesiástico da época e a árdua tarefa de trazer de volta os princípios divinos eram um enfrentamento direto com Satanás. Por isso, dizia que, se não passasse duas horas de manhã orando, recearia que Satanás ganhasse a vitória sobre ele durante o dia. Certo biógrafo seu escreveu: “O tempo que ele passa em oração produz o tempo para tudo o que faz”. A Reforma Protestante, do século XVI, trouxe de volta a verdadeira fé que expressa a verdadeira vida cristã.

A preocupação pela preservação da doutrina levou os reformadores a se dedicarem à defesa da fé, à refutação das heresias e à produção de literatura para o ensino da teologia protestante. Esta forte ênfase ocupou a liderança de tal forma que refletiu num inexpressivo avanço missionário transcultural.

Este quadro só começou a mudar com o Movimento Morávios. Alguns irmãos sentiram necessidade de separar algumas horas diárias para o propósito da oração, e não tardou vir sobre eles um derramar do Espírito Santo. Decidiram que o fogo sagrado nunca poderia se apagar do altar (Lv: 6. 12-13). Os intercessores tornaram isso como uma ordem, e até as crianças sentiam impulso para a oração, que uniu a comunidade e lhes despertou o desejo de levar a salvação de Cristo aos pagãos.

Em 13 de agosto de 1727, teve início uma vigília de oração que continuou noite e dia, sete dias da semana, sem qualquer interrupção, por mais de cem anos. Foram tempos de avivamento e de missões, como também de preparação para o grande despertamento missionários que se seguiu. “Não havia heróis missionários, mas uma igreja voltada para a sua função no mundo. A Igreja Moravia procurou ensinar e treinar cada um dos seus membros a considerar como seu primeiro dever o de doar a própria vida para tornar Cristo conhecido. Nos primeiros vinte anos de existência, a Igreja Moravia enviou mais missionários do que o protestantismo europeu o fizera em 200 anos”. O Conde Nicolaus Ludwig von Zinzendorf, seu líder, foi um dos maiores estadistas missionários de todos os tempos, atuou e intercedeu intensamente pela obra missionária no século XVIII.

Enquanto o Espírito soprava entre os morávios (na Alemanha), alunos da Faculdade de Yale, na cidade de New Haven (nos Estados Unidos), receberam um grande avivamento. David Brainerd, entre outros estudantes, se entregou para levar o evangelho aos índios americanos. O Senhor encheu-lhe o coração de amor por este povo. Ele testemunhou: “Deus me deu o espírito de lutar em oração pelo reino de Cristo no mundo (...). Ele me concedeu agonizar em oração até ficar com a roupa encharcada de suor.” Ele sentia poder na intercessão pelos perdidos e pelo progresso do reino do querido Senhor.

Brainerd enfrentou muitos perigos de vida entre os silvícolas, mas aprendeu a buscar refúgio na torre forte do nome do Senhor. Era um jovem com apenas 25 anos, sozinho, mas lutando intensamente para não confiar em si mesmo quanto à extensão do reino de Deus entre os índios. Ele testemunhou: “Passei a tarde orando incessantemente, pedindo o auxílio divino para que eu não confiasse em mim mesmo. O que experimentei, enquanto orava, foi maravilhoso. Parecia-me que não havia nada de importância em mim, a não ser santidade de coração e de vida, e o anelo pela conversão dos pagãos.” Com intensa dedicação ao trabalho e uma vida abnegada de oração e de jejum, estabeleceu uma igreja entre os índios de Nova Jersey e os convertidos chegaram a mais de 150 em um ano. Em 1747, David Brainerd morreu de tuberculose, aos 29 anos cumprindo a sua oração de oferecer-se para passar por sofrimento, desde que fosse pelo avanço do reino de Cristo entre os pagãos.

A oração e o avanço missionário dos morávios também preparou o caminho para William Carey e a nova era das missões modernas. Numa cidade do interior da Inglaterra, o Espírito Santo estava trabalhando na vida deste jovem pobre e simples. Tudo começou com um chamado à oração. Carey era recém batizado, e aconteceu em sua igreja uma conferência da Associação Batista, em 1784. John Sutcliff convocou os pastores para realizar toda segunda-feira do mês uma reunião de oração como objetivos bem definidos: “O principal pedido da reunião deve ser que o Espírito Santo seja derramado sobre os pastores e igrejas, que os pecadores sejam convertidos, que os santos sejam edificados, que o interesse pela religião seja reavivado, e o nome de Deus seja glorificado. Lembrem-se, ao mesmo tempo, de que esperamos que vocês não se limitem em seus pedidos às suas próprias comunidades, ou aos seus próprios relacionamentos mais imediatos; que o interesse amplo do Redentor seja lembrado com carinho, e que a expansão do evangelho às regiões habitáveis mais distantes do globo seja o objetivo dos seus pedidos mis fervorosos.” A receptividade foi admirável. Todas as igrejas da Associação começaram a orar com seriedade nunca vista.

Carey participava das reuniões e fez do seu ambiente de trabalho um lugar de intercessão. Enquanto consertava sapatos, tinha diante de si um mapa mundi, por meio do qual o Senhor das nações foi colocando a compaixão pelos povos pagãos em seu coração, e assim ele foi despertado para evangelizar os perdidos. Sete anos após a convocação para oração, ele levantou-se e pregou o sermão que desafiou a liderança para preocupar-se com a evangelização dos pagãos. Carey esforçou-se orando, escrevendo e falando sobre o dever de levar Cristo as outras nações. “Ele não deixou de mencionar o papel da oração em preparar seu coração e o dos outros para a grande tarefa que estavam abraçando.”
Em 13 de junho de 1793, partiu para a Índia. Durante seus 41 anos de ministério naquele país multicultural e multilíngüe, traduziu as Escrituras para mais de trinta línguas. Escreveram várias gramáticas e dicionário, fundou uma escola de preparação de obreiros que fez avançar a evangelização entre os povos não alcançados daquela época. Fundou, em Serampore, o centro de atividade missionária batista, onde recebia outros missionários, tornando-se um exemplo harmonioso de cooperação. Serviu ao país fundando e ensinando em várias escolas; também fundou a Sociedade de Agricultura e Horticultura e publicou livros sobre a flora indiana. Só foi possível vencer todos os obstáculos e fazer uma obra tão extensa e produtiva porque vivia possuído pela chama do amor divino e alimentado pela oração. Assim, Carey deixou sua marca na Índia e nas missões mundiais. Apropriadamente, é considerado o “pai das missões modernas.”

É neste período que nascem as sociedades missionárias independentes ou denominacionais, com leigos e eruditos, homens e mulheres que se dedicaram integralmente à expansão do evangelho. “Nunca o cristianismo ou qualquer outra religião tivera tantos indivíduos em tempo integral na propagação da fé. Nunca tantas centenas de milhares contribuíram voluntariamente de seus meios a fim de assistir à difusão do cristianismo ou de qualquer outra religião.”

Surge, então, “o grande século missionário, período que compreende os anos de 1792 a 1914, pertencente às épocas mais brilhantes da história da igreja e especialmente da história de missões. Um movimento missionário sem igual, desde os tempos dos apóstolos, caracterizou estes 122 anos, onde a determinação, a coragem, a fé e o sucesso acompanharam a maioria dos pioneiros e seus sucessores.”

Desta época, destacamos grandes personagens, homens de oração que fizeram o reino eterno se expandir aos lugares mais difíceis e escondidos da terra:

Henrique Martyn conheceu o testemunho do trabalho de William Carey, na Índia, e sentiu-se dirigido por Deus para trabalhar no mesmo país. Os obreiros que ali estavam decidiram clamar ao Senhor da seara que enviasse trabalhadores, pois a necessidade era muito grande e poucos os obreiros. Em abril de 1806, Martyn desembarcou na Índia e foi recebido alegremente como resposta às orações. Entregou-se ao serviço; entretanto, separava dias inteiros para a intercessão, pois, para ele, “a oração não era uma formalidade, mais o meio certo de quebrantar os endurecidos e vencer os adversários.”

John Hyde é conhecido como “o homem que orava”. Ao concluir seu curso, um colega desejava persuadi-lo na decisão de entregar-se para a obra missionária, mas ele disse: “Não era de argumentos que ele carecia, mas devia ir ao quarto, prostar-se de joelhos e permanecer perante Deus até resolver a questão em definitivo. Na manhã seguinte, disse ao colega: Estou resolvido.”

A bordo em caminho para a Índia, recebeu um telegrama: “Estás cheio do Espírito Santo?” Ele era conhecido como um grande pregador e ficou irritado com a pergunta, que julgou ousada. “Naturalmente eu estou, pois eu sou um missionário!” Mas, voltou ao camarote e de alguma forma Deus lhe falou; caiu de joelhos e se entregou inteiramente ao Senhor. “Entregou tudo, e clamou com fé pelo poder do Espírito Santo em sua vida. John Hyde foi para a Índia, e um grande reavivamento se realizou.”

John Hyde buscou forças em Deus para vencer as fraquezas da própria humanidade. Certa vez, durante um culto, ele se levantou e disse: “Não dormi a noite inteira, não comi durante o dia. Tive uma grande luta com Deus. Sentia-o chamando-me para vir aqui e testificar-lhes de algumas coisas que ele fez em minha vida. “ Contou-lhes simples e humildemente como lutara contra certos pecados e como deus lhe dera a vitória. Após falar, todos os presentes caíram em pranto e em confissão, e muitas vidas foram profundamente transformadas.

Inúmeras vezes, na sala de oração, Hyde expressava o seu clamor e choro pelo mundo perdido. Seus colegas testemunharam que Deus derramou um espírito tão forte de intercessão e súplica pelas almas perdidas que contagiou os crentes da Índia, e muitos agonizavam juntamente com ele. Hyde passava noites inteiras em oração, a ponto de ficar com o corpo debilitado. “Um peso consumia-lhe a alma: a agonia do Senhor Jesus no Getsemane pela redenção do mundo. Sentia a missão de “completar o que resta das aflições de Cristo” (Cl. 1.27). Ele se gastava em oração e clamava: “Pai, dá-me almas ou morrerei!.” Em 1910, pediu quatro almas por dia, e, muitas vezes, ganhava dezenas. Ele costumava dizer: “Se nos conservamos juntos a Jesus, ele é quem atrai as almas, por nosso intermédio. “Mas é necessário que ele seja levantado em nossas vidas; isto é, devemos ser crucificados com ele.” Sob o poder da sua intercessão, multidões caíram de joelhos diante do Pai celestial, John Hyde anunciou o evangelho aos indianos e ganhou cem mil almas para Cristo. Ele fez da oração a base de todo empreendimento para o reino de Deus.”

(Extraído do Livro “A missão de interceder – Oração na Obra Missionária”, de Durvalina B. Bezerra. Editora Descoberta Ltda. Londrina, 1ª. Edição – 2001).




Nenhum comentário: