PREPARANDO AQUELE QUE VAI...



EDUCAÇÃO TEOLOGICA ALTERNATIVA
José Rosifran C. Macedo

DEFINIÇÃO DO NOSSO PAPEL

(...) O ALVO ERRADO

Nós pecamos ao achar que o nosso alvo como instituição teológica, ou missiológica (já que não há missiologia sem teologia, daqui por diante irei me referir ao treinamento teológico incluindo as duas áreas), que é formar pastores e missionários.

Há muito debate atualmente tentando definir se isto é função do seminário ou da Igreja. Na realidade não é nem de um nem do outro. Quem forma obreiros para a sua seara é o próprio Senhor. É Ele quem escolhe, chama, capacita e envia (Mt 9.38; Rm 1:1; At 13.2). O seminário e a Igreja precisam zelar para que estes obreiros tenham certa maturidade no Senhor antes que comecem a exercer o ministério de tempo integral.

Esta maturidade inclui relacionamento com Deus, conhecimento da Palavra e testemunho de vida diante dos outros.

O nosso alvo não é formar ou habilitar pastores e missionários. Se assim definirmos o nosso alvo, como no modelo secular, nos veremos como os depositários e guardiões do saber onde os alunos precisam ser submergidos para que obtenham este conhecimento. O ensino será uma estrada de mão única, haverá uma superioridade nossa em relação aos alunos, uma dependência destes para conosco, e o nosso papel será definido, simplesmente, como transmissores de informação.

A cada ano falamos para os nossos alunos que o nosso alvo é ver na vida de cada um uma maturidade que deve ser demonstrada numa atitude de aprendizagem. Isto inclue uma aprendizagem em relação a Deus, às informações e às circunstâncias. Uma vez definido o nosso alvo teremos uma visão precisa de quem somos, o que ensinamos e quem são os nossos alunos.

SUJEITO E NÃO OBJETO

O treinamento teológico diverge drasticamente do secular no que se refere ao Objeto de estudo. Na realidade Ele não é o Objeto de estudo, mas o Sujeito do treinamento. Se virmos Deus como Objeto de estudo, sobre quem relemos o conhecimento que precisa ser transmitido aos nossos alunos, de certa maneira, estaremos assumindo o lugar de Deus na vida deles.
O conhecimento de Deus, e a revelação da Sua Palavra e vontade só podem ser adquiridos quando o próprio Deus se revela aos homens. Embora a verdade acerca de Deus seja uma só, a revelação dela aos homens é feita por Ele de uma maneira altamente individualizada.

Precisamos reconhecer aceitar e respeitar a maneira como Deus está se revelando á cada um dos nossos alunos e encorajá-los, com os dons que nos foram dados por Ele mesmo, a que continuem crescendo.

A visão do que ensinamos influencia diretamente a visão de quem são os nossos alunos e como os tratamos. Quando colocamos Deus no lugar apropriado, sujeito e não objeto, nos livramos de pesos e responsabilidade inalcançáveis, temos uma visão correta de quem são os nossos alunos, do nosso papel no treinamento deles, e desenvolvemos uma humildade genuína no nosso relacionamento com eles.

COLABORADORES EM CRISTO
      
No modelo secular o aluno é visto como um noviço, um desconhecedor do saber que precisa ter sua mente iluminada e treinada através da transmissão do conhecimento. Na educação teológica temos que ver os nossos alunos como colaboradores de Cristo a serviço do seu reino que estão num período de treinamento intensivo, antes de assumirem o ministério integralmente.

Temos que reconhecer que eles podem adquirir este treinamento sem nós, porém num prazo mais longo, e talvez com conseqüências bem negativas para eles e para a Igreja. Os seminários precisam fornecer o ambiente apropriado para que este treinamento aconteça num prazo menor e cuidar das feridas que ocorrem durante este período.

Por vermos os alunos como colaboradores de Cristo e nossos colegas de ministério, na nossa escola só recebemos pessoas que têm consciência de um chamado para o ministério, e que de alguma forma já estão envolvidos na obra. Aqui entra a colaboração que a Igreja e o seminário precisam ter quanto ao treinamento dos obreiros.

A visão do "aluno" como membro do corpo de Cristo e colega de ministério modifica radicalmente o nosso tratamento para com ele, O ensino é visto como um caminho de duas mãos, pois muitos têm dons e experiências diferentes das nossas e um relacionamento individual com o Senhor. Por isto eles têm muito a contribuir para a vida da escola e muito a nos ensinar. É isso mesmo - eles podem nos ensinar muitas coisas importantes.

Um exemplo clássico deste tipo de "ensino" é o apóstolo Paulo, o grande "mestre" da igreja cristã. Ao escrever para os romanos, ele declara que tem algo para ministrar a eles, mas também tem algo a receber deles: "Porque muito desejo vê-los, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados; isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos, por intermédio da fé mútua, vossa e minha" (Rm 1.11-12).

UM SÓ MESTRE
      
Tendo definido o nosso alvo, o que ensinamos e quem são os nossos alunos, o nosso papel fica claramente evidenciado. Nosso papel não é de depositários da verdade nem fornecedores do saber. Somos apenas catalisadores e estimuladores da aprendizagem. O nosso papel é promover situações e experiências onde o ensino e a aprendizagem acontecem. Quem ensina é o Mestre. Quem aprende é o aluno. Como irmãos mais velhos e mais experientes (em certas áreas), devemos estar acompanhando e auxiliando aqueles a quem o Mestre está treinando.

Somente nos vendo desta forma, como auxiliadores e colaboradores, é que podemos entender as palavras de Jesus em Mateus 23.8 "Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é o vosso Mestre, e vós todos sois irmãos."

ESTIMULANDO A APRENDIZAGEM
      
Tendo o nosso alvo e o nosso papel bem definidos fica mais fácil desenvolver uma filosofia e um programa de ensino. Como já falamos antes, a cada ano enfatizamos aos nossos alunos que nosso alvo não é fornecer todas as informações que eles precisam para serem bons obreiros. Isto é uma tarefa impossível de ser realizada por qualquer instituição. Nós deixamos bem claro que o nosso alvo é ver na vida de cada um o desenvolvimento de uma atitude de aprendizagem em relação a Deus, às informações e às circunstâncias.

Se virmos nos alunos uma aprendizagem no relacionamento com Deus através da oração, do estudo da Palavra, da prática de uma vida santificada, da vitória de uma vida de fé e na batalha espiritual, podemos ter certeza de que serão obreiros bem sucedidos (2Tm 2.2).

A formação do caráter de Cristo na vida do obreiro cristão é a marca mais importante que ele precisa no ministério. Tendo isto sido demonstrado durante o período de treinamento, podemos descansar na certeza de que eles continuarão aprendendo do Senhor durante o decorrer de toda a sua vida.

A segunda área em que o indivíduo deve demonstrar uma atitude de aprendizagem é em relação às informações, em especial às informações a respeito da Palavra (2Tm 2.15). É apenas nesta área que uma pequena parte do nosso programa se assemelha ao treinamento secular. Mesmo assim, o nosso papel é providenciar uma base e apresentar as ferramentas disponíveis com as quais os próprios alunos poderão aprender e continuar aprendendo mesmo depois de deixarem o seminário.

Nenhuma escola pode se propor a fornecer todas as informações que os alunos necessitarão para desempenharem um ministério frutífero. Esta é uma tarefa impossível, pois cada aluno tem sua própria história, irá exercer um ministério individual e confrontar situações variadas, as quais são imprevisíveis. Além destas particularidades, a gama de informação que há em cada área de estudo é tão grande que seria impossível em quatro ou cinco anos passar tudo para os alunos. Por outro lado, fornecer o básico e ver nos nossos alunos uma atitude de aprendizagem é um alvo mais atingível.

Na nossa experiência temos descoberto o sistema educacional brasileiro como o maior empecilho nesta direção. A maioria dos nossos alunos não foram treinados para pensar por si mesmos. A experiência de "aprendizagem" que tiveram nos anos de escola foi apenas a de absorção de informações.

Cada nova turma vem para o seminário com a expectativa de que iremos fornecer todas as informações necessárias e que eles simplesmente irão absorvê-las sem muito esforço.

No primeiro ano gastamos muito tempo no esforço de estimular a pesquisa, o questionamento, a análise, conclusões próprias e a aplicação do material aprendido. Se dermos o básico e os virmos desenvolvendo um pensamento lógico, crítico e pesquisador, podemos ter a certeza de que eles irão sempre buscar as respostas para as diversas situações que irão enfrentar no ministério.

A terceira área é a aprendizagem em relação às circunstâncias. Precisamos ver os nossos alunos crescerem no decorrer de cada experiência, positiva ou negativa, vivida durante o tempo de treinamento. Precisamos acompanhá-los e auxiliá-los durante os momentos em que sofrem tensões, confrontam relacionamentos, diferenças de opiniões, batalhas espirituais e até mesmo tentações.

Nesta área não há situações nem regras previsíveis. Cada aluno é um cosmos individual e tem reações diferentes. Por isto precisamos estar atentos e sensíveis a cada situação. Isto só é possível com um relacionamento íntimo com os alunos e confiança mútua.

Para atingir nosso alvo nós procuramos promover três tipos de atividades: 
 Formal - E aquela que acontece na sala de aula.
• Não Formal - Atividades programadas que ocorrem fora da sala de aula. Auto disciplina nos estudos, trabalho prático, devocional individual, oração, etc.
• Informal - Acontece na interação cotidiana. Não é prevista nem controlada.

Nós enfatizamos para os alunos que os três tipos de atividades são importantes. Não há uma mais importante do que a outra, e não é uma ou a outra. Todas são importantes. Entretanto, no pouco tempo que temos de ministério nunca ouvimos falar de alguém que abandonou a obra por falta de conhecimento acadêmico. A maioria das razões que temos visto é enquadrada nas áreas espirituais, moral, emocional ou de relacionamentos. Daí a razão de procurarmos investir nestas áreas.

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Resumo da matéria publicada na 

Revista Capacitando para Missões Transculturais Numero 1 

http://www.apmb.org.br

 


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