MISSÕES E SOFRFIMENTO - TERCEIRA PARTE
SOFRENDO
COMO CRISTÃO
Neste assunto, o pensamento da Escritura é diretamente contrário às expectativas culturais do evangelicalismo ocidental irrefletido.
O Novo Testamento tanto pressupõe como afirma que o sofrimento é normal, é uma parte expectável do que significa seguir a Cristo. Em face do que a Bíblia diz sobre a condição caída do mundo, isto não deve ser uma surpresa para o crente. Em Jesus, Deus se tornou homem e viveu entre nós, e o mundo reagiu assassinando-o. Em vez de buscar a Deus, a humanidade caída o odeia e está tentando escapar dele. Se uma pessoa fala a pecadores rebeldes sobre o Deus verdadeiro ou expõe a autojustiça deles como a fraude que ela é, tal pessoa incorre no mesmo ódio que caiu sobre Jesus.
Ele
deixou clara a conexão: “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo
maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós
outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” (Jo 15.20).
Eles
perseguiram a Jesus, logo, a conclusão deve ser óbvia. Em um mundo corrompido
pelo pecado, é realmente verdadeiro que nenhuma obra boa fique sem punição.
Paulo
expressou isso quando disse: “Ora, todos quantos querem viver piedosamente em
Cristo Jesus serão perseguidos” (2 Tm 3.12). Sob a inspiração do Espírito
Santo, Paulo não disse “talvez sejam”, ele disse: “Serão”.
Sofrer
por amor a Cristo é entendido como uma dádiva: “Porque vos foi concedida a
graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele” (Fp 1.29). A
palavra traduzida aqui por “foi concedida” vem da família da palavra
charis, no grego, e poderia ser traduzida por “foi presenteada”.
A
Bíblia nos diz que os apóstolos se regozijaram por terem sido considerados
dignos de sofrer por causa do nome de Jesus (At 5.40-41). As igrejas em
Jerusalém (At 8.1), na Galácia (Gl 3.4), em Filipos (Fp 1.29), em Tessalônica
(1 Ts 2.14) e na Ásia Menor (1 Pe 4.12), todas experimentaram sofrimento, tal
como os recipientes originais da Epístola aos Hebreus (Hb 10.32). Paulo
atravessou sofrimento horrível (2 Co 11.23-29), como também os outros apóstolos
(At 5-8).
Na
Escritura cristã, a chamada para seguir a Cristo é uma chamada para abandonar a
tranqüilidade, a segurança e o conforto deste mundo, a fim de tomar a cruz.
Isto não é uma descrição de uma super fé extraordinária. É uma descrição
bíblica da vida normal do cristão normal.
A
COMUNHÃO NO SOFRIMENTO DE CRISTO
No Novo Testamento, muitas das
referências que falam sobre sofrimento dizem respeito especialmente ao
sofrimento de Jesus. Há um forte sentido em que estes sofrimentos são exclusivos
de Jesus. Somente ele poderia sofrer ou morrer pelos pecados do mundo. Somente
ele, Deus perfeito e homem perfeito, poderia sofrer em nosso lugar para pagar a
penalidade que merecíamos pagar.
Nesse sentido, Jesus sofreu para que
os crentes não tivessem de passar por esse sofrimento. Porque ele suportou a
ira de Deus contra a nossa rebelião, aqueles que crêem nele nunca terão de
enfrentar essa ira. Nenhum crente jamais sofreu para compensar qualquer de seus
erros aos olhos de Deus.
A morte expiatória de Jesus é
totalmente suficiente para pagar todos os pecados de todas as pessoas que
crerão nele, em todos os lugares, em todo o tempo. Nada pode ser acrescentado a
essa morte.
No entanto, a Escritura nos diz que
aqueles que crêem em Cristo estão agora, eles mesmos, “em Cristo”. Por meio da
habitação do Espírito, os crentes possuem agora uma união íntima com Jesus.
Muitas bênçãos maravilhosas fluem para o povo de Deus por meio desta união com
o seu Salvador. Esta mesma união os une também com o contínuo sofrimento dele
no mundo, não como obra de expiação, e sim como a experiência de oposição do
mundo ao amor e à santidade dele. Parte do que significa estar “em Cristo” é
compartilhar da comunhão de seus sofrimentos. Paulo une o conhecer a Cristo e o
poder de sua ressurreição com o compartilhar de seus sofrimentos, como se estas
duas coisas fossem inseparáveis (Fp 3.10).
Paulo disse aos cristãos de Corinto:
“Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida a
nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo” (2
Co 1.5). Pedro ecoou este mesmo tema, ao dizer: “Alegrai-vos na medida em que
sois cooparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação
de sua glória, vos alegreis exultando” (1 Pe 4.13).
Em Romanos 8.17, Paulo chegou ao
ponto de dizer que os crentes são “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo;
se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados”.
Sofrer com Cristo é tão intimamente
conectado com o gozo final de sua glória, que as duas coisas não podem ser
separadas. A menos que Paulo tenha negado o que dissera em outra passagem, isto
não pode significar que estes sofrimentos são, de algum modo, salvadores.
Mas isto parece demonstrar que sofrer
com Cristo é uma parte tão normal de estar em Cristo, que Paulo não podia
conceber uma coisa sem a outra.
Em Colossenses 1.24, Paulo disse:
“Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das
aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja”. É
impressionante ouvirmos Paulo falar sobre algo que faltava nas aflições de
Cristo, até que compreendemos que a palavra que ele usou nesta passagem nunca é
usada a respeito do sofrimento expiatório de Jesus.
Paulo não disse que estava
contribuindo para a obra salvadora de Cristo em morrer por nossos pecados.
Antes, esta aflição de Cristo é sua experiência, em união com seu corpo na
terra, da aflição deles como seu povo em um mundo hostil.
Aparentemente, há uma plena medida
dessa aflição que será experimentada pelo povo de Deus antes do fim desta era;
e Paulo viu seu próprio sofrimento como algo que contribuía para essa medida. A
intimidade da união de Cristo com seu povo é tão profunda, que os sofrimentos
deles são de Cristo, e os sofrimentos de Cristo são deles.
Isto significa que cristãos
confortáveis e prósperos do Ocidente devem sair por aí e tentar provocar
perseguição ou afligir intencionalmente a si mesmos com práticas ascéticas?
Não.
O ascetismo é inútil como um
instrumento de santificação (Cl 2.23), e os crentes não são ordenados a
buscarem perseguição. No entanto, a condição deles deve alarmá-los. É perigosa
e anormal. Eles precisam especialmente acautelar-se das seduções da
respeitabilidade e da prosperidade. Precisam acautelar-se da idolatria sutil de
fazerem de Jesus um meio para obterem seu próprio gozo desta vida. Precisam
acautelar-se do mundanismo de colocarem seu coração nas coisas deste mundo e
valorizarem possessões, saúde e segurança mais do que a glória de Cristo.
Precisam examinar a si mesmos com
honestidade e verificar constantemente se o desejo de manterem seu estilo de
vida os seduziu a comprometer de alguma maneira a sua obediência.
Precisam cultivar a mentalidade de
prontidão para perder qualquer coisa e tudo, quase imediatamente, por causa do
supremo valor de Cristo.
Riqueza e segurança são condições
perigosas nas quais um discípulo de Jesus e aqueles que vivem nelas precisam
exercer cuidado especial. A condição normal de um seguidor de Cristo é
participar da comunhão dos sofrimentos dele, e os que não fazem isso precisam
sempre perguntar a si mesmos por que não o estão fazendo.

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