MISSÕES E SOFRIMENTO - PRIMEIRA PARTE
MISSÕES E SOFRIMENTO
Somos uma cultura de direitos. Os
ocidentais, em geral, e os americanos, em específico, são criados para
acreditar que seus direitos são invioláveis e que a vida lhes deve algo. Os
nossos direitos perceptíveis vão muito além dos direitos básicos de liberdade
de religião, de expressão e de reunião.
Afinal de contas, a Declaração de
Independência Americana diz que todos têm o direito inalienável de buscar a
felicidade; e isso é facilmente traduzido, na mente das pessoas, como direito à
própria felicidade.
Na cultura ocidental, confronto,
conveniência e segurança se tornaram a experiência de vida normal para a vasta
maioria das pessoas. Em tal ambiente, não é surpresa que estas coisas tenham
chegado a ser consideradas como direitos inegociáveis. Além disso, numa cultura
materialista adversa ao conceito de transcendência, valores como conforto,
conveniência e segurança parecem ser cruciais para a maioria das pessoas.
Esses valores sobrepujam tudo mais.
Qualquer coisa que ameaça ou perturba a experiência destas coisas é vista
automaticamente como má.
Essa maneira de pensar penetrou na igreja
cristã. Os evangélicos ocidentais cantam sobre amar a Jesus mais do que sobre
qualquer outro assunto ou outra coisa. Todavia, o compromisso deles permanece freqüentemente
dentro do contexto de expectativas determinadas culturalmente.
Como ocidentais, eles consideram
inconscientemente, como muitos outros, segurança e conforto como seus valores
mais importantes; por isso, eles constroem seu entendimento da vida de
discipulado dentro desses parâmetros.
A supremacia destes interesses parece tão
auto-evidentes que nem mesmo ocorre a alguém examiná-los. Os evangélicos
ocidentais simplesmente não pensam na possibilidade de que Deus exija deles
algo que seja desconfortável ou inseguro, além do, talvez, desconforto brando
de compartilharem o evangelho com alguém que se ofende no decorrer do processo.
Quando um evangelho centrado no homem é
pregado, esta tendência se torna ainda mais visível. Quando pessoas ouvem que o
alvo da salvação é satisfazer suas necessidades ou seus desejos por realização (ou
mesmo dar-lhes uma “vida abundante” mal definida como “sua melhor vida agora”),
não faz sentido alguém pensar que seguir a Jesus pode envolver sofrimento e
perda.
No entanto, mesmo em igrejas que mantêm
um teocentrismo bíblico, esta aversão inconsciente ainda se mantém real.
O sofrimento como uma parte normal da
vida e um componente normal de seguir a Cristo não integra a agenda mental da
maioria dos cristãos ocidentais. Quando os crentes seguem um caminho de
obediência que envolve desconforto, eles são considerados heróis da fé
incomuns. Quando esse caminho de obediência os coloca em um risco físico sério,
são freqüentemente tachados de fanáticos e considerados como potencialmente
confusos.
Mesmo no avanço da Grande Comissão,
muitas igrejas e cristãos do Ocidente valorizam inconscientemente o dinheiro
mais do que a obediência e supõem que Deus nunca pediria aos seus que arrisquem
sua vida por amor à sua obra. Sofrer é visto como anormal incomum e mau.
Nisto, assim como em muitas coisas, a
experiência cultural do Ocidente está em desarmonia com a maior parte do mundo
no decorrer da maior parte da História.
A maior parte da raça humana não tem tido
outra escolha, senão a de suportar sofrimento como uma ocorrência comum da
vida. Sem os grandes escudos protetores que o Ocidente desfruta (tecnologia,
medicina, sistemas de distribuição global de alimentos, paz interna e o governo
da lei), a maior parte da raça humana tem vivido com a ameaça de doenças, fome,
desastres naturais e violência humana, como uma condição normal.
Até no Ocidente, embora o sofrimento seja
restringido e ocultado, ele não pode ser eliminado verdadeiramente. Crimes
ainda acontecem. Desastres naturais destroem comunidades inteiras, e crises
econômicas aniquilam anos de economias numa noite.
Podemos ter os melhores cuidados médicos
do mundo, mas as pessoas ainda ficam doentes, e todos, por fim, morrem – às
vezes, de maneira lenta e dolorosa. A diferença é que as pessoas do Ocidente se
ofendem com o sofrimento, como se seus direitos fossem de algum modo violados
por sua mera existência. O resto do mundo sabe que sofrer é apenas uma parte da
vida.
É muito estranho que os cristãos
ocidentais tenham essa visão reduzida do sofrimento. O sofrimento é um dos
grandes temas da Bíblia. O fato de que os cristãos ocidentais não observam isso
(ou supõem inconscientemente que o sofrimento não se aplica a eles) é um
exemplo clássico de suposições culturais que afetam a interpretação da
Escritura. Quer o observem, quer não, a Bíblia fala muito sobre sofrimento.
Prestar atenção especial a coisas que aparecem pro eminentemente na Palavra de
Deus é um princípio correto de interpretação da Escritura.
O evangelicalismo ocidental precisa
desesperadamente recapturar uma teologia bíblica do sofrimento. Sem ela,
faremos de nosso conforto e segurança um ídolo e marginalizaremos a nós mesmos
no serviço da Grande Comissão.
A Bíblia fala sobre o sofrimento em
várias categorias. O sofrimento existe em todos os lugares e sobrevém a todas
as pessoas apenas porque este mundo é um mundo caído. Às vezes, o sofrimento
acontece como conseqüência de mau comportamento, embora a Bíblia nos alerte
contra o fazermos julgamento imediato nesses casos.
O sofrimento é prometido especialmente
àqueles que seguem a Jesus em um mundo que está em rebelião contra ele. E, de
maneira mais intensa, o sofrimento está ligado à obra do avanço do evangelho.
Em vez de considerar o sofrimento como totalmente mau, a Bíblia destaca
benefícios e bênçãos que fluem do sofrimento.
Por fim, a Bíblia dá instrução clara
sobre como os crentes devem reagir quando o sofrimento lhes sobrevêm na sábia
providência de Deus.

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