MISSÕES TRANSCULTURAIS - PARTE 2

 



O PREPARO TRANSCULTURAL DO MISSIONÁRIO

 

Temos aprendido ao longo de longa experiência a  necessidade do missionário receber um preparo específico, na área transcultural, antes de sair para o campo. Hoje, esse tipo de orientação é encontrado em boas escolas missiológicas que já existem no Brasil. Não se justifica o envio de alguém sem que conheça a cultura do país para onde vai. "Manejar bem", como ensinou Paulo a Timóteo (2 Tm 2.15), tem todas estas implicações. 

      PREPARO LINGUISTICO 

O processo de aprendizagem da língua e dos costumes não vem automaticamente, assim que pisamos o campo missionário. Quando lá chegamos, somos como crianças que irão aprender como viver. É como uma verdadeira morte para a nossa cultura. Então, em todo o tempo que lá estivermos, sempre estaremos aprendendo e nos aperfeiçoando no nosso processo de identificação. 

Quanto à língua, vejamos alguns exemplos que mostram algumas dificuldades que poderemos enfrentar. Tomemos, principalmente, a palavra "coração". Falamos que sentimos tristeza, amor, alegria, etc, referindo-nos ao nosso coração. Isso para os karrés, na África, não tem sentido, pois suas emoções são localizadas no fígado; para os conobos, da Guatemala, as emoções estão no abdômen, e para os habitantes das ilhas Marshall, na garganta. Quando os habbes, da África, querem comunicar que estão tristes, dizem: "Meu fígado está doente". E os seus vizinhos do norte, os bambaras, referem-se à tristeza, dizendo: "Meu olho está preto". 

Talvez sejam muito estranhas para o nosso ouvido as expressões acima descritas, mas há também o outro lado da moeda. Para os que estão nos ouvindo, soam também estranhas as expressões que usamos: "estou morrendo de medo"; "estou cheio de amargura"; "meu coração está triste";"'estou fervendo de raiva", etc. 

Em tais campos missionários, será preciso muito mais do que aprender a língua, pois muitas dessas línguas nunca foram analisadas, e, portanto, não há ortografia, gramática expositiva, dicionários ou livros escritos no idioma. Isso será um trabalho a ser feito pelo missionário, pois ele precisará dar também a Bíblia escrita para o povo. Ele terá de aprender e analisar o sistema gramatical daquela língua para poder dar-lhe uma ortografia prática.

Neste processo, sua língua materna terá que ceder a esta nova língua, tão necessária para o seu trabalho. 

Certo missionário, que trabalhava entre uma tribo indígena do Norte do Brasil, ao traduzir um versículo da Bíblia, cometeu um grave erro. Ele estava dizendo aos índios: "Pequem", enquanto o certo seria: "Não pequem". Acontece que a palavra não é um som muito difícil de ser distinguido dos outros, e ele ainda não o tinha ouvido. 

Também é de suma importância saber a reação que uma ação nossa vai causar numa pessoa que está nos observando. Isso implica em observar, analisar e entender a nova cultura de forma que a nossa vida também possa falar.

Duas missionárias tiveram certa dificuldade no início do seu trabalho numa tribo no México, porque costumavam tomar limonada junto com o café da manhã. Ninguém aceitou a mensagem delas, até que elas descobriram que os membros daquela tribo criam que limonada é um anticoncepcional! Eles pensavam que as missionárias solteiras eram mulheres de vida irregular por causa da limonada!

Mas, apesar das dificuldades, a nossa mensagem é o evangelho, compreensível a todos. Por mais diversas que sejam as culturas e línguas, o evangelho pode ser transmitido a todos, sem exceção. 

QUE RELAÇÃO EXISTE ENTRE A APRENDIZAGEM DE UMA LÍNGUA E A ENCARNAÇÃO? 

Existe uma relação mútua entre cultura e língua. É através da língua que entramos em contato com uma nova cultura. É através da língua que começamos a conhecer, aprender e nos comunicar dentro da nova cultura. O respeito pela nova cultura começa com a aprendizagem da nova língua. 

Portanto, aprender bem a nova língua é o portal de entrada na nova cultura para a comunicação do evangelho de Jesus Cristo. 

Infelizmente, apenas uma pequena minoria de missionários interculturais trabalha intensiva e constantemente na língua. Para a eficácia da comunicação do evangelho, o melhoramento da língua é uma responsabilidade e tarefa constante. 

COMO APRENDER E APERFEIÇOAR A LÍNGUA ESTRANGEIRA? VEJA ALGUNS PASSOS BÁSICOS: 

·       Aprendendo, o máximo possível, o vocabulário. 

·       Aprendendo expressões idiomáticas. 

·       Aprendendo expressões simbólicas. 

·       Imitando a música (o tom) da língua (entonação, variação). 

·       Diferenciando entre vogais sem voz e com voz. 

·       Diferenciando vocais nasais, sílabas acentuadas e não acentuadas. 

·       Aprendendo frases completas. 

·       Aprendendo formas não verbal da comunicação. 

A aprendizagem de uma nova língua não será possível sem esforço, tempo, frustração, lágrimas e situações embaraçosas.

 O mais difícil é aprender a linguagem não verbal de uma cultura. A linguagem não verbal (aperto de mão, olhar, abraço, gestos, sorriso, etc) é muito mais importante do que a língua falada. Às vezes precisamos de anos para descobrir os segredos da língua não verbal de uma cultura. Por isso, o missionário que passa mais tempo numa cultura tem mais possibilidades de serviço e êxito. 

Aprender uma nova língua não é uma atividade acadêmica, mas, antes, um processo social. A interação viva é frutificada por contatos honestos entre pessoas de culturas diferentes. Isto se torna possível quando o missionário vem como servo e parceiro, quando ele convive na nova cultura como pessoa humilde que aceita correção e estímulo. 

Conhecer não só o idioma, mas as peculiaridades da língua do país em que vai trabalhar é condição básica para qualquer missionário. Este preparo demanda tempo e estudo antes da transferência e um bom período de adaptação já no campo. 

O aprendizado implica em conhecer bem as expressões idiomáticas e o sentido das palavras que, às vezes, se modificam de uma região para a outra. Até mesmo dentro da nossa cultura brasileira, há palavras que mudam de significado de um lugar para outro por influência dos regionalismos. Veja o caso da palavra “avexado”. Segundo o Aurélio, é sinônimo de envergonhado. No Nordeste, todavia, tem o sentido de apressado. 

Na própria Bíblia há exemplo disso. Entre outros casos, a palavra mundo aparece com três significados. Em João 3.16, “mundo” tem o sentido de “humanidade, enquanto em 1João 2.15, aparece com a idéia de “sistema mundano, pecaminoso”, com o qual não devemos manter vínculos. Já em Hebreus 11.3, “mundo” tem a ver com a “criação do Universo” e tem significado completamente distinto dos anteriores. 

Situações como estas ocorrem, às vezes, por força da tradução, pois nem sempre há palavras correspondentes de um idioma para outro e o tradutor precisa valer-se da equivalência dinâmica para expressar a mesma idéia do original. O missionário precisa Ter esse  tipo de conhecimento até para dar contemporaneidade à Palavra de Deus no país em que serve. 

Para aclarar ainda mais o tópico que estamos estudando veja o caso da palavra embaraço. Em português significa “impedimento, obstáculo, dificuldade”. Em castelhano é também sinônimo de “gravidez”. O missionário que estiver em pais de língua hispana e não souber disto poderá cometer uma tremenda gafe, e ficar “embaraçado” (em português, claro) diante das pessoas. 

Quando os missionários descuidam destes aspectos da comunicação, sem dúvida criam mal-entendidos e fazem que a comunicação torne-se ainda mais difícil. Para vencer este problema, necessitamos ver o mundo com a perspectiva dos nativos e procurar entender sua cosmovisão e seus costumes.

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