PREPARO CULTURAL DO MISSIONÁRIO

 


      

         COMO O SER HUMANO PENSA E SE SENTE EM                                    CULTURAS DIFERENTES?

 

Pessoas de outras culturas agem e vivem de modo diferente de nós. Às vezes até pensam diferente. Isto implica uma lógica diferente ou estranha. O que parece normal e lógico numa certa cultura se torna, numa outra cultura, estranha e ilógica. De repente percebemos que existem também outras atitudes, tradições e convicções, outros valores, sentimentos e hábitos. 

Esta problemática, geralmente, não é uma questão de certo ou errado, melhor ou pior; simplesmente é diferente, um problema que traz vantagens e desvantagens para a pregação do evangelho. 

No Japão existem muitas regras para a vida em sociedade. Quem cruza as pernas ofende a pessoa que está próxima. Decente é pedir uma segunda xícara fervente de chá. Cuidado com presentes – papel preto e branco leva o mal. Eles devem ser entregue ao final de uma visita e jamais poderão ser desembrulhados diante do doador. 

Na China os presentes devem ser embrulhados em papel vermelho. Agir com nervosismo, falar alto ou outras reações emocionais constituem um escândalo, mas um sorriso chinês é bem visto em qualquer circunstância. 

Cuidado com qualquer contato físico com pessoas no Japão, na Tailândia e em Sri-Lanka. Ninguém jamais poderá tocar os cabelos de uma criança tailandesa porque a cabeça constitui a parte mais santa do corpo humano. Pior ainda é apontar o dedo para alguém ou tocar os seus pés. 

Os filipinos têm sérios problemas em aceitar crítica sobre seu país. Pessoas convidadas devem chegar ao local com, pelo menos, 15 minutos de atraso. Se elas chegam antes são consideradas glutonas. Na China, por outro lado, a pontualidade os vestidos finos e a decência são de suma importância. Gorjetas são desprezadas. 

Quando você chega a um novo país é recomendado que comece logo observar e anotar os costumes, hábitos, tradições, pensamentos predominantes e maneira de pensar, sentir e comunicar. Desta forma você terá, aos poucos, um retrato fiel das pessoas que vivem nesta cultura. Você será sensibilizado e preparado para, depois, aprender a língua e, finalmente, comunicar o evangelho de Jesus Cristo. 

O importante é não criticar as coisas que você ainda não compreende. Você sempre pode pesquisar ler, observar, analisar e perguntar. 

Deve-se entender também que atrás de cada costume há uma razão e um por que. Se não entendemos a razão, observando apenas como alguém fora da cultura, fazemos julgamentos errôneos, considerando um costume ou outro como "absurdo"- e assim por diante. 

Recusamo-nos a nos adaptar e, pior ainda, tentamos mudar as pessoas daquela cultura, ensinar-lhes e impor-lhes os costumes da nossa própria cultura, que consideramos a única certa. Isto é, na linguagem antropológica, etnocentrismo - quando a cultura própria é o padrão para julgar-se qualquer outra cultura. 

VEJAMOS ALGUNS EXEMPLOS DE COMPORTAMENTOS INERENTES À CULTURA: 

Nas culturas orientais, é proibido entregar ou receber algo com a mão esquerda. Deve-se usar sempre a mão direita ao se relacionar com alguém ou para comer. A razão é que a mão esquerda tem função de papel higiênico nesses países; portanto é imunda, e como tal não pode ser estendida a outras pessoas. 

Outro exemplo: não se podem acariciar pessoas na cabeça, nem mesmo crianças. De fato, uns quinze anos atrás, nos cartões de desembarque para estrangeiros preencherem, para entrar na Indonésia foram incluídos dois avisos: "Portar droga é passível de pena de morte", e: "Não se deve acariciar nem mesmo crianças na cabeça".   

O próprio povo não sabe o por que; só sabe que é muito má educação e insulto ser tocado na cabeça. Estudando-se sua cultura, provavelmente a razão disso foi porque aquele país já fora m país hindu, uns quinze séculos atrás. 

Pelo conceito  hindu, a alma da pessoa encontra-se na cabeça. Portanto, tocar alguém na cabeça insultaria ou faria mal à alma. Com o passar do tempo, o povo não sabia mais a razão disso, embora o costume tenha se tornado um tabu, uma tradição. 

NEM TUDO PORÉM É EXPLÍCITO; NEM TUDO O POVO SABE EXPLICAR. 

O significado e a razão podem estar imersos implícitos no conhecimento do povo. O missionário deve estudar e pesquisar para descobrir as razões e significados de cada costume e comportamento. Ao entendê-los, essas coisas não parecem mais absurdas. Indo além, saberá como adaptar-se ao costume quando este é neutro, apenas uma cultura humana de socialização. Ou saberá julgar sob a luz da Palavra de Deus se se trata de costume  pecaminoso, devido à pecaminosa tendência da Queda do homem, ou então de algum costume diabólico - devido à influência do inimigo, o "príncipe deste mundo". A este último que chamamos fator supracultural, isto é, que não tem origem humana. 

Então, o missionário deve discipular os convertidos daquele povo para que sejam transformados, mudados nos aspectos culturais contrários aos princípios bíblicos para costumes de acordo com a cultura do Reino de Deus. No entanto, deve-se tomar muito cuidado em não misturar-se aí a cultura do próprio missionário, ao considerar os costumes de sua cultura como se fossem costumes bíblicos. 

Deve-se  ainda conseguir distinguir os fatores supra culturais que tenham  origem em Deus, os quais são positivos para a cultura do povo. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus; portanto, há aspectos bons em cada cultura. 

Nenhuma cultura é totalmente perfeita - devido à mancha da Queda e à influência de Satanás - nem é totalmente errada - visto que ainda há atributos da imagem de Deus no homem e também na cultura como um produto humano. Observando as diretrizes da Antropologia Missionária, podemos estudar todos esses aspectos. 

Há ainda o fator determinante da função de cada costume numa cultura. Além do comportamento visível, há o significado por trás dele. Como uma somatória do comportamento e do significado está a função do costume na sociedade. Um missionário que não esteja consciente da função de um costume pode aboli-lo ao discípular os novos convertidos e provocar nesse momento um vácuo cultural. 

Um caso desse tipo foi a abolição de um costume funerário em meio aos chineses, segundo o qual passam-se dezenas de dias em "velório" antes do funeral, realizando cerimônias idólatras. Como povo budista, eles não devem demonstrar muita emoção, nem mesmo tristeza no sofrimento de perda de alguém amado. 

O velório de longos dias dá oportunidade para extravasarem a emoção. Ao cabo de tantos dias recebendo condolências de todos os parentes e amigos, atendendo-os com comida e bebida, a família em luto fica cansada e aliviada quando tudo passa, e já teve tempo oportuno para adaptar-se à nova etapa da vida sem a presença da pessoa morta. Ao abolir o costume, diminuindo para os cristãos o tempo de luto para apenas três dias, forma-se o vácuo: não há tempo para adaptar-se nem para extravasar a tristeza. 

Vale a pena reiterar, para efeito didático, que coreanos e japoneses, entre outros povos orientais, como citado anteriormente, têm também o costume de tirar os sapatos como sinal de respeito antes de entrarem em qualquer casa. 

Em outros países, como o Marrocos e Madagascar, é comum os homens andarem de mãos dadas, não significando em hipótese alguma qualquer desvio de conduta moral. É apenas uma forma de companheirismo. 

Missionários brasileiros que trabalharam em Madagascar tiveram que adaptar-se às circunstâncias, como mostra o testemunho de um deles:  

Quando viajávamos pela Ásia observamos que um costume entre os homens era cumprimentarem-se dando três beijos na face, meu desejo era o de afastá-los quando se aproximávamos. Se o fizesse, eu obviamente lhe comunicaria rejeição. Outras  vezes, quando caminhávamos com amigos, metia as mãos nos bolsos com medo de que alguém me tomasse pela mão enquanto caminhávamos. Para os homens daqueles lugares, andar de mãos dadas é uma expressão de amizade totalmente normal - o que para mim, um latino, significa algo muito diferente. Novamente, sem dizer uma palavra, eu estava comunicando coisas que dificultavam a comunicação do Evangelho.

 Numa pesquisa entre uma turma de novos missionários transculturais indianos, deveriam listar-se as dez coisas mais ofensivas que as pessoas fora de sua cultura poderiam fazer. Em resposta, mais da metade listou em primeiro lugar que seria se elas desprezassem sua comida. 

Nós, às vezes, achamos que podemos e devemos ser francos, ou até  temos o direito de recusar certa comida, principalmente quando essa comida é muito diferente daquela que costumamos comer - como, por exemplo: ovos chocos, cérebros de macaco, ratos, cobras ou caramujos!  Nossa tendência é de rejeitar o que desconhecemos, querendo o conforto daquilo que conhecemos e gostamos. 

Como ocorreu com aquele obreiro que no seu décimo dia na Europa ligou para sua mãe, dizendo que não agüentava mais comer só pão e batata: queria feijão! 

A lição não comporta outros exemplos, em razão do espaço, mas fica a sugestão para que você aprofunde o assunto, tomando como base, principalmente, o mundo muçulmano.


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